Capítulo 6
Todos se viraram para encarar Kent como se ele fosse algum tipo de monstro.
“O quê?” Kent travou. Quando viu Katrina deitada no leito do hospital, um lampejo de nojo passou pelos olhos dele. “Katrina, você não tem um pingo de vergonha na cara? A Lena fica doente e você finge que ficou doente também? Você não tem compaixão nenhuma?”
“Ué, espera aí… Ela é a Katrina? Sua irmã de verdade?”
Chris se levantou num pulo, com uma expressão escancarada demais. “Eu achei que ela era a adotada! Estão tratando ela pior do que tratariam uma filha adotiva. Ela acabou de operar de apendicite e você quer que ela vá cuidar de alguém? Vocês não têm humanidade, não?”
“Aquela Helena só tomou um susto. Depois de dormir um pouco, ela fica bem. Ela não precisa de ninguém cuidando dela.”
Kent ficou sem reação com as palavras de Chris.
Só então ele entendeu por que Brandon e Lancelot tinham ficado tão calados, por que os rostos deles estavam tão carregados.
Katrina não estava fingindo. Ela estava doente de verdade. Apendicite — uma apendicite dolorosa, insuportável.
“Doutor Watson, eu queria silêncio.” Katrina finalmente falou, com a voz pesada e esgotada — nada parecida com a voz que uma jovem deveria ter. Dava para perceber o quanto ela estava com dor, o quanto se sentia profundamente decepcionada.
“Vocês precisam sair. A paciente precisa descansar.” Chris já tinha visto o suficiente. Ele fez um gesto mandando todos para fora.
Os três irmãos trocaram olhares, todos querendo dizer alguma coisa, mas se segurando.
Foi então que Helena apareceu.
“Katy, você também está doente? Está doendo?” Helena fez um teatrinho, com um ar frágil.
Mas a atuação dela, comparada à incapacidade real de Katrina de sequer falar de tanta dor, ficou escancarada.
Brandon pegou Helena pelo braço e tentou puxá-la para longe. “Vamos.”
Helena achou que ele estava ficando do lado dela contra Katrina. Afinal, todo mundo via o quanto Katrina parecia dramática.
Ela se soltou de Brandon. “Brandon, o que aconteceu com a Katy? Como assim ela ficou doente logo depois de mim?”
Os olhos dela se encheram de lágrimas enquanto ela encarava Brandon com uma preocupação falsa.
Mas todo mundo via o que ela estava fazendo de verdade — insinuando que Katrina estava fingindo.
A expressão de Brandon escureceu. Ele não esperava que Helena reagisse assim. Ele sempre achou que Helena tratava Katrina como uma irmã de verdade.
“Lena, a Katrina acabou de operar de apendicite”, disse Lancelot, com a voz pesada.
“O quê?” A incredulidade de Helena quase fez ela gritar.
Como isso era possível?
Aquela desgraçada não era para estar, no máximo, com um resfriadinho? Como podia ser tão sério assim?
Mas ela se recompôs rápido.
Lancelot nunca tinha gostado da Katrina. Se ele estava dizendo aquilo, tinha que ser verdade.
Helena enxugou as lágrimas depressa. “A Katy deve estar com muita dor. Deixa eu ficar aqui e cuidar dela!”
Ouvir aquele bate-boca fazia a cabeça de Katrina latejar. O nojo dela transbordava.
“Tá bom, tá bom, todo mundo pra fora. A paciente precisa descansar. Parem de fazer barulho.” Chris percebeu o incômodo dela e foi tocando todos para fora.
Por fim, silêncio.
Katrina dormiu profundamente.
Do lado de fora do quarto, os três irmãos Fontaine não foram embora.
“Brandon, eu acho que desta vez a gente passou do limite”, disse Lancelot, devagar. “A Katy sempre teve a saúde fraca.”
O rosto de Brandon estava fechado. Ele não disse nada, mas o arrependimento nos olhos dele entregava tudo.
Kent se encostou na parede, lançou um olhar para a porta de Katrina e soltou um longo suspiro.
“É… a gente passou do limite”, resmungou Kent. “Quando foi que a Katy ficou tão teimosa? Ela prefere sofrer sozinha a contar pra gente?”
Depois que ele disse isso, o clima no corredor mudou.
Brandon se manifestou. “A Katy sempre foi complicada. No fim das contas, ela é egoísta e não abre espaço pra Lena. Mas, se a gente der uns presentes mais tarde pra apaziguar, ela fica bem.”
Ele não conseguiu evitar pensar no passado.
Não importava o que dessem pra Katrina; ela sempre aceitava com entusiasmo e preparava, com todo cuidado, presentes em troca.
É. Ela era fácil assim de agradar.
Lancelot e Kent trocaram olhares. Os dois acharam que era uma boa ideia.
Katrina era fácil de contentar. Qualquer presente já a deixaria feliz.
Mas Helena era diferente. Ela era frágil demais. Precisava de cuidados.
“Vamos ver a Lena primeiro”, disse Brandon. “Depois a gente volta pra ver a Katy.”
Katrina dormiu por mais de três horas. Quando acordou, se sentia muito melhor.
“E aí, qual é a da sua família? Por que eles tratam melhor quem vem de fora do que você?”, Chris entrou e perguntou, num tom casual.
Chris também era responsável pelos cuidados da Helena.
Quando ele tinha ido ver Helena mais cedo, os três irmãos Fontaine estavam em cima dela — levando fruta, servindo água, dando toda atenção.
Comparado com a forma como tratavam Katrina, era outra coisa.
Katrina sorriu com amargura.
“Eu não sei”, disse, seca. “Mas tanto faz. Doutor Watson, pode me passar algum remédio? Eu tomo em casa.”
“Não pode. Você acabou de—”
“Tá tudo bem. Eu não quero ficar aqui mais”, insistiu Katrina, e Chris, a contragosto, providenciou a alta.
Depois que ela foi embora, os três irmãos Fontaine finalmente apareceram com seus presentinhos.
Brandon segurava um bicho de pelúcia que Helena não quis. “Quando a gente vir ela, não fala demais. Não quero que ela fique mimada.”
Lancelot arqueou uma sobrancelha. “Claro.”
Ele tinha pedido pra alguém comprar um mingau fora do hospital. Já tinha esfriado, mas isso não importava. Katrina ainda assim ficaria agradecida.
O presente de Kent era ainda mais simples — uma caixinha com maçãs cortadas. Ele mesmo tinha cortado. Katrina com certeza ia se emocionar.
Brandon empurrou a porta. “Katy—”
Ele travou no meio da frase.
O quarto estava vazio. Katrina tinha ido embora.
Lancelot e Kent entraram também. Os sorrisos no rosto dos dois congelaram ao mesmo tempo.
“Chris, cadê a Katrina?”, Kent invadiu o consultório de Chris.
Chris ajustou os óculos, confuso. “Ela teve alta faz horas. Você não sabia?”
Ele olhou para as coisas que os três irmãos estavam segurando e ficou sem palavras.
Desde que Helena tinha sido internada na noite anterior, o quarto dela estava cheio de presentes caros desses três — bolsa de grife, roupa de grife… o que você imaginar.
E o que eles estavam dando pra Katrina? Essas sobras, essa tranqueira que ninguém queria?
“Ela nem avisou a gente. Será que ela ainda considera a gente família?”, Kent disparou, sentindo, de um jeito estranho, que tinha sido feito de trouxa.
Brandon ligou para o número de Katrina e disse, gelado: “Volta. A gente trouxe um presente pra você.”
Ele achou que, já que tinha ligado, Katrina voltaria correndo, toda feliz.
Sempre tinha sido assim.
Mas, dessa vez, ela desligou na cara dele.
