Capítulo 1 Capítulo Um: O Pássaro Canoro Retornou.
Capítulo Um: O Pássaro Cantor Voltou.
Ponto de vista de Qiara:
Eu estava sentada à janela, encarando o jardim. Meus dedos tamborilavam no vidro enquanto eu ponderava meu próximo passo. Em apenas uma semana, eu já tinha mudado meu destino numa velocidade absurda; renascer certamente tinha suas vantagens.
Uma semana antes.
O ar saiu rasgando do meu peito quando eu despertei num sobressalto, sentando na cama. Uma dor aguda me dilacerou o tórax, e meus dedos se cravaram ali como se, pela força da vontade, eu pudesse enfiar o ar de volta nos pulmões. Meu coração martelava com violência — rápido demais, frenético demais, vivo demais.
Vivo.
Meus olhos correram pelo cubículo apertado, uma caixa de fósforos de quarto onde eu tinha vivido até os vinte anos, antes de me casar com o homem que eu ainda considerava uma das piores piadas da vida. Esse lugar não devia mais existir para mim. Eu não devia mais existir nele.
Porque eu estava morta.
A última coisa de que eu me lembrava era de pairar sobre a minha própria cerimônia memorial, assistindo minha família de merda espremer lágrimas para a plateia como artistas treinados. Eu me lembrava do nojo. Do luto que eu nunca recebi deles em vida. Da satisfação amarga e mesquinha na morte.
Então como eu tinha voltado para ali?
O suor escorreu pela minha testa enquanto eu apertava os lençóis. Minhas pernas tremeram quando tocaram o chão, como se eu precisasse reaprender a usar um corpo que já não me pertencia. Vasculhei o quarto atrás de respostas que eu já sabia que não estariam ali.
Eu nem sabia que dia era. Porra, eu não sabia nem o ano.
Cambaleei até a cômoda, onde meu celular antigo estava de tela para baixo, como se estivesse me esperando. Quando virei, a tela brilhou com força suficiente para queimar aquele instante na minha mente para sempre.
19 de fevereiro de 2025.
Minha garganta se fechou. Não… não tem como. Se aquilo estava certo, então eu tinha vinte anos de novo — ainda incompleta, de olhos arregalados, ainda estudando na StarCrest, a famosa escola de artes cênicas de Novell. Um dos estados mais prestigiados do Continente Ocidental. Um lugar pelo qual eu tinha lutado com unhas e dentes para entrar.
Isso também significava que eu só estava noiva de Desmond Carrington. Ainda não casada com o monte de lixo usando pele de homem.
Nada fazia sentido. Como eu tinha vindo parar aqui? Que milagre distorcido — ou maldição — tinha rebobinado a minha vida?
E então me atingiu.
A tela.
As perguntas.
A caneta flutuando na luz oca do purgatório.
As últimas palavras brilhando de volta para mim —
BOA SORTE.
Minha resposta realmente tinha me puxado de volta? O destino tinha me dado uma segunda chance — ou tinha me empurrado para uma piada cósmica?
Medo e empolgação colidiram dentro do meu peito, fazendo meu pulso disparar. Só havia um jeito de saber a verdade. Eu precisava de prova — algo inegável, algo de que eu me lembrasse com clareza absoluta.
E eu sabia exatamente qual momento estava para acontecer.
Eu saí disparada do meu quarto, os pés martelando pelo corredor enquanto eu corria em direção à cozinha. No instante em que empurrei a porta, a cena se desenrolou exatamente como na primeira vez: minha suposta família vibrando, comemorando a carta de congratulações da Angelina, vinda do comitê de Garden East. O “talento” dela supostamente em plena exibição, e os elogios escorrendo como se eles estivessem fazendo teste para “Família Mais Solidária do Ano”.
Claro que nenhum deles mencionou que Nicholas tinha subornado um juiz para conseguir uma vaga para ela.
Meu suspiro de espanto escapou antes que eu conseguisse impedir. Todas as cabeças se viraram para mim de uma vez.
Marcus foi o primeiro a zombar.
— Que diabos deu em você?
Christian veio em seguida, com um riso de escárnio.
— Por que você tá aí parada como se tivesse visto um fantasma?
Um fantasma. Ah, a ironia. Se ao menos eles soubessem. Não fazia muito tempo, eu era o fantasma.
Angelina deu um passo à frente, arregalando os olhos e tremendo daquele jeito delicado e inocente que ela tinha aperfeiçoado.
— Ah, Qiara! Por favor, não fique com raiva de mim. Eu sei que combinamos que nenhuma de nós ia se inscrever, mas minhas amigas disseram que eu tinha tanta chance, e eu… eu não consegui evitar. Você não pode ficar feliz por mim?
Combinamos? Mais parecia que nossos pais me obrigaram a não me inscrever, dizendo que a Angelina ia ficar mal se entrasse no meu lugar.
No fim, só queriam garantir que eu não me inscrevesse. Que piada do caralho.
Clássico da Angelina — inventar uma narrativa, colher pena e deixar que os outros completem o resto. Ela não era uma grande cantora, mas, meu Deus, sabia atuar.
E, como era de se esperar, o coro entrou em cena.
— Jesus, Qiara! — minha mãe disparou, a voz pingando veneno. — Por que você é sempre tão negativa? É sua irmã! Seja feliz uma vez na vida!
Meu pai acrescentou:
— Você não sabe fazer nada além de arrumar confusão?
E meu noivo — meu amado noivo — soltou um suspiro dramático.
— Sinceramente, Qiara… por que você faz todo mundo ao seu redor se sentir miserável? Não dá pra ser mais como a Angelina?
O sorriso de desprezo de Nicholas se acentuou.
— Claro que não dá. Ela foi criada por caipiras de baixa classe.
Fechei os punhos com tanta força que minhas unhas quase cortaram a pele. Eles nunca perdiam uma oportunidade de insultar as únicas pessoas que já tinham me amado.
Então meu pai decidiu bancar o ditador.
— Se você não parar de intimidar sua irmã, pode esquecer sua mesada! Agora peça desculpas!
Fiquei completamente imóvel, deixando o silêncio se esticar entre nós. Então um sorrisinho lento se desenhou nos meus lábios.
— Vai ter que me perdoar, pai… mas, considerando que eu não disse uma palavra sequer, não sei bem pelo quê exatamente o senhor quer que eu peça desculpas.
O rosto dele ficou vermelho — a humilhação rapidamente enterrada sob a arrogância. Ele preferia engolir vidro a admitir que estava errado.
— E-eu… bem… ótimo. Só não cause problemas pra sua irmã!
Eu abri um sorriso radiante para ele, de uma doçura totalmente falsa.
— Nem em sonho.
Então me virei para Angelina.
— Parabéns. Eu “sei” que você mereceu cada pedacinho dessa carta.
As expressões chocadas deles não tinham preço — principalmente a do Nicholas.
Sim, querido irmão, eu sei exatamente o que você fez. E vou usar isso quando estiver pronta.
Eu me afastei antes que qualquer um deles pudesse se recompor, um sorriso frio e satisfeito se acomodando no meu rosto.
Era real.
Tudo aquilo.
Eu tinha realmente renascido.
