Capítulo 3 Capítulo Três: A Audição.

Capítulo Três: O Teste.

Ponto de vista de Qiara:

Depois de sair de casa, fui direto para o correio.

Todo mês, meu pai me dava uma mesada de quinhentos dólares — mal chegava a dez por cento do que ele dava à minha irmã. Ela tinha acesso ilimitado aos cartões de crédito deles, sem mencionar um orçamento mensal de cem mil dólares só para roupas. Eu recebia quinhentos para tudo.

E, ainda assim, eu fazia dar certo.

Aprendi a viver de pechinchas — a comprar, comer e sobreviver com menos. Numa cidade como Novell, um lugar construído para a alta sociedade e para os excessos, esse tipo de contenção era quase uma habilidade por si só. Até uma única fruta podia custar tanto quanto uma refeição de fast-food.

Entre prêmios em dinheiro, pequenas apresentações e anos de orçamento cuidadoso, consegui economizar de forma constante. Oitocentos dólares por mês, todos os meses, durante seis anos. Meu saldo atual estava em pouco menos de cinquenta e oito mil. Não era muito pelos padrões dos Clayborne, mas era meu.

O problema eram meus avós.

Conseguir para eles uma comunidade de aposentadoria decente tinha exigido que eu implorasse ao meu pai — humilhação disfarçada de gratidão. Foi a única coisa que ele concordou em fazer. Na época, pensei que fosse porque ele realmente se importava com as pessoas que me criaram. Depois, entendi a verdade.

Era vantagem.

Se eu fosse desobedecê-lo, precisava de outra forma de pagar pelos cuidados deles.

Depois de abrir a caixa postal, chamei um táxi e fui para o centro de convenções. Meu desconforto crescia a cada quarteirão. Quando cheguei, estava pior do que eu temia.

A fila dava a volta no prédio, milhares de esperançosos espremidos ombro a ombro, todos esperando por uma chance de serem vistos. Eu tinha chegado bem quando estavam fechando as filas.

Por pouco!

Hoje era o último dia. A maior parte dos finalistas já tinha recebido suas cartas.

Só restavam duas vagas.

Eu pretendia ficar com uma delas.

Faltavam dez minutos para as cinco quando a candidata antes de mim finalmente terminou. Ela saiu da sala de audição em lágrimas, com o rosto vermelho de humilhação.

Assim que dei um passo à frente, as portas começaram a se fechar.

— Espera!

Soltei sem pensar.

— Eu ainda não fiz a audição!

O segurança hesitou, lançando um olhar para mim antes de se virar para a banca de jurados.

— Ela disse que ainda não entrou —

disse ele, incerto.

— Querem que eu a deixe passar?

Houve uma pausa — pesada, deliberada.

Então uma das juradas falou.

Cynthia Garland.

Uma das preparadoras vocais mais ricas de Novell. Uma das pouquíssimas pessoas que meu pai não conseguia comprar. Um fato que lhe custou o cargo de professora na StarCrest um ano antes de eu chegar — depois de dizer a Angelina que a voz dela parecia a de uma banshee berrando.

Angelina ainda chorava por isso até hoje.

— Duvido que ela seja mais inspiradora do que o saco de candidatos sem esperança que desperdiçaram a minha tarde —

disse Cynthia friamente.

— Mande-a embora.

Minha respiração falhou.

Era isso? Tinha acabado antes mesmo de eu ter a chance de abrir a boca?

Era para isso que eu tinha renascido — para fracassar de novo?

Não.

Eu me recusava.

Avancei antes que o segurança pudesse reagir, escorregando pela abertura estreita enquanto as portas se fechavam atrás de mim.

— Com licença... oi —

falei depressa, forçando minha voz a se manter firme.

— Eu sei que todos vocês devem estar exaustos, e prometo que vou ser rápida. Mas estou esperando lá fora há horas.

Outro jurado se inclinou para a frente. Brian Taylor.

— Mocinha —

começou ele, já cansado,

— nós já tomamos nossas decisões...

— Então isso é uma pena —

rebati.

— Se vocês não iam honrar o próprio processo — se não iam ouvir cada pessoa que passou, que esperou — então qual era o sentido de fazer audições?

O silêncio inundou a sala.

Os jurados trocaram olhares. Cynthia não disse nada, sua expressão indecifrável, enquanto a terceira jurada — Diana Moore — pigarreava.

— Independentemente disso, nós...

— Qual é o seu nome?

A voz veio de trás de nós.

Baixa. Calma. Dominadora.

Virei-me devagar.

Um homem estava sentado sozinho nas poltronas da plateia, relaxado como se fosse dono do lugar.

Julius Pierre.

Só o nome já carregava peso. Uma das figuras mais poderosas de toda a região. A corporação da família dele, a PST, controlava quase todos os pulsos digitais do continente — computadores, telefones, sistemas governamentais. Se funcionava com código, era bem provável que a PST tivesse construído.

Ele era o mais novo de quatro filhos homens de Jamerson e Charlese Pierre; e, ainda assim, era amplamente considerado o mais perigoso de todos. Brilhante. Impiedoso. Calculista. Sob sua influência, a renda da família tinha disparado em quase trinta por cento e, apesar da idade, seus irmãos muitas vezes cediam a ele.

Chamavam-no de uma besta selvagem.

E, estranhamente, a música era a única coisa que o acalmava.

Sua mãe fora, certa vez, uma pianista célebre, até que um acidente a deixou com danos permanentes nos nervos da mão direita. Julius herdara dela o amor pela arte — embora corressem rumores de que ele nutria um desprezo particular pela Imperial Clayborne Opera House.

E, mais importante—

Ele era o único financiador da competição deste ano.

Meu estômago despencou.

Merda.

Meu corpo inteiro travou, as palavras se alojando de um jeito doloroso na minha garganta. Ele me analisou por um instante, afiado e inflexível, antes de falar de novo.

— Eu perguntei o seu nome.

O controle ameaçou escorrer por entre meus dedos, mas eu o agarrei com tudo o que tinha. Ergui o queixo, obrigando minha coluna a se manter firme.

— Qiara — eu disse. Então, mais firme: — Qiara Stone.

Julius fez uma pausa. Seu olhar se desviou pelo menor dos instantes, e eu poderia jurar que vi algo como choque atravessar seu rosto.

Sem dizer mais nada a mim, ele se voltou para a banca.

— Deixem-na fazer a audição.

Os olhos de Diana e Brian se arregalaram. Até então, Julius não tinha interferido uma única vez durante as audições. Antes que qualquer um deles pudesse protestar, Cynthia se inclinou para a frente.

— Eu concordo — disse ela. — Quero ouvi-la cantar.

Diana e Brian trocaram olhares, a confusão estampada no rosto. Eu não podia culpá-los.

Eu estava tão confusa quanto.

Julius falou de novo, o tom calmo, mas carregado de expectativa.

— Srta. Stone, você precisa de alguma coisa para a sua audição?

Olhei para o piano à minha direita, um sorriso lento puxando meus lábios.

— O piano basta.

Atravessei a sala e me sentei, apoiando as mãos de leve sobre as teclas. Meu coração retumbava no peito, alto o suficiente para eu ter certeza de que eles conseguiam ouvir. Eles não sabiam disso — mas aquilo já não era apenas uma audição.

Era a audição da minha vida.

A primeira nota soou, grave e constante. Meus dedos a acompanharam, a memória muscular me guiando enquanto a melodia se desenrolava sob minhas mãos. Um suspiro depois, comecei a cantar.

Eu já estive aqui antes — outra pele, a mesma dor

Noites frias ainda chamando meu nome

Eu dei meu coração a sonhos que não quis ficar

Vi o espelho rachar cada vez que eu rezei

Eu atravessei o fogo de cabeça baixa

Carreguei cicatrizes que nunca escolhi mostrar

Cada lágrima escreveu lições na minha alma

Mas eu sobrevivi ao que eles nunca vão saber

As palavras vibraram pela sala, levadas pela música. Meu peito se apertou quando lembranças da minha vida anterior avançaram — a dor, a angústia, a traição. Eu derramei tudo na canção, cada nota talhada da sobrevivência.

Quando o acorde final se apagou, percebi que minha visão estava embaçada. Lágrimas escorregaram em silêncio dos meus cílios, pontilhando as teclas de marfim sob minhas mãos.

A sala ficou em silêncio.

Sem palmas. Sem vaias. Nada.

O pânico se acendeu quando me virei para os jurados, me preparando para irritação, para desdém — mas não foi isso que eu vi.

Lágrimas.

Os jurados estavam chorando.

Devagar, um por um, eles se levantaram, as palmas rompendo o silêncio e ecoando pela sala. Meu fôlego falhou quando o alívio me inundou. Eu me levantei do banco e me curvei, um sorriso enorme se abrindo no meu rosto.

Quando endireitei o corpo, eu o vi.

Aquele olhar nos olhos dele.

Assombro. Admiração. E algo mais sombrio — algo que eu não conseguia nomear direito.

Julius sustentou meu olhar por tempo demais, a expressão ilegível, como se estivesse me dissecando pedaço por pedaço. Como se me conhecesse.

Mas eu tinha certeza de que nunca nos encontramos. Eu me lembraria de alguém tão bonito.

Depois de agradecer à banca, virei para ir embora.

— Srta. Stone!

Eu me virei justamente quando Cynthia deu um passo na minha direção, com a expressão corada e luminosa.

— Bem—

Ela fez uma pausa, se recompondo.

— Normalmente, recomendaríamos que você aguardasse uma carta pelo correio sobre a sua aprovação, no entanto...

Ela olhou por cima do ombro para os jurados sorridentes e, por um instante, para Julius.

— Parabéns.

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