Capítulo 4 Capítulo Quatro: Já nos conhecemos?

Capítulo Quatro: Já Nos Conhecemos?

Ponto de vista de Qiara:

Parabéns!

Meu coração pareceu prestes a explodir com aquela palavra.

Eu tinha conseguido. Eu tinha chegado lá.

Fechei os olhos, respirando contra a pressão súbita atrás deles, lutando contra o ardor das lágrimas. Quando os abri de novo, Srta. Cynthia estava sorrindo.

Ela se inclinou para a frente, com a voz baixa o bastante para que só eu pudesse ouvir.

“Eu sei quem você é, mocinha.”

Minha respiração falhou.

Parte do motivo de eu ter feito a audição era porque acreditava que ninguém saberia quem eu era. Graças a Lawrence e aos meus irmãos, eu era praticamente invisível — desconhecida na StarCrest, raramente reconhecida sequer como uma Clayborne.

Então como ‘ela’ sabia?

“Eu...”

Ela ergueu a mão, me interrompendo com gentileza.

“Não se preocupe,”

disse ela, com um sorriso caloroso e reconfortante.

“Seu segredo está seguro comigo.”

A tensão se esvaiu dos meus ombros. Assenti e me virei para sair, já pegando o celular. Eram quase seis horas. Se os Clayborne ainda não tinham chegado em casa, chegariam logo — e eu não tinha a menor dúvida de que seria interrogada no instante em que passasse pela porta.

Eu estava quase saindo quando uma voz cortou o ar, afiada e autoritária.

“Srta. Stone.”

Virei-me devagar.

Julius Pierre estava vindo na minha direção.

Por que ele precisava olhar para mim daquele jeito?

“Aquela música,”

disse ele.

“De onde ela é?”

Meus olhos se arregalaram, e minhas sobrancelhas se franziram. Fiquei quase ofendida.

“Aquela era a minha música,”

respondi friamente.

“Eu não uso o trabalho de mais ninguém.”

Ele me estudou por mais um instante antes de tornar a falar.

“Já nos conhecemos?”

O quê?

Engoli em seco, com o pulso disparando. Por que parecia que ele estava me puxando para perto, como se a própria gravidade tivesse mudado e eu tivesse sido apanhada na órbita dele?

“Acho que não, senhor.”

Ele parou bem na minha frente. Perto demais. Senti o cheiro do perfume dele, marcante e limpo, misturado com menta. Um meio sorriso repuxou seus lábios.

“Tem certeza?”

Minhas sobrancelhas se contraíram.

“Acho que eu me lembraria de conhecer ‘o’ Julius Pierre.”

Ele soltou uma risada baixa, e sua respiração roçou minha bochecha. Merda — ele cheirava bem.

“É mesmo?”

perguntou ele.

“Mesmo que você não soubesse quem eu era na época?”

Mas o que isso queria dizer?

“Eu... como eu poderia não saber?”

O sorriso dele se alargou quando ele se endireitou, e o espaço entre nós finalmente voltou a existir. Soltei um ar que nem tinha percebido que estava prendendo.

“Você está vinculada a alguma casa de ópera ou de musicais?”

Meus olhos subiram até os dele, surpresos.

“N-não. Não, não estou.”

Ele franziu a testa.

“Sério? Interessante.”

O quê?

“Por que isso é interessante, senhor?”

Ele olhou para mim de novo, com o olhar afiado.

“Porque você é uma cantora e compositora maravilhosa. Estou surpreso que ninguém tenha descoberto você ainda — especialmente um Clayborne.”

Ao ouvir aquele nome, minha expressão escureceu antes que eu pudesse impedir. Disfarcei rápido, mas tive certeza de que ele percebeu. O sorriso dele só se aprofundou.

“Não tenho nenhum desejo de trabalhar com a Imperial Clayborne Opera House.”

“Sério?”

“Não.”

“...Interessante.”

Antes que eu pudesse responder, ele enfiou a mão no bolso interno do paletó, tirou um cartão de visita e o pressionou na minha mão.

“Venha ao meu escritório daqui a três dias, Srta. Stone.”

Meus olhos se ergueram depressa.

“Seu... escritório? Desculpe, mas por quê?”

A expressão dele era indecifrável, exceto por um brilho de arrogância.

“Porque eu mandei,”

respondeu ele com calma.

“Nos vemos na quinta-feira.”

Mas o—

Antes que eu pudesse recusar, ele se virou e foi embora.

O QUÊ.

Que babaca do caralho.

Fiquei ali, atônita, com a fúria subindo pela espinha. Quem faz isso? Quem simplesmente ‘ordena’ que alguém apareça no seu escritório desse jeito? Eu não era funcionária dele!

Eu ainda estava fervendo quando cheguei em casa. Felizmente, ninguém mais tinha voltado ainda. Meu celular estava no silencioso — e, no instante em que fui ver, me arrependi.

[Olha aonde mamãe e papai me trouxeram para comemorar! Você não pediu uma vez para virem te trazer aqui?]

[Ai, Qi-Qi, odeio que você não esteja aqui. Estamos nos divertindo tanto!]

[Fomos ao carnaval depois do almoço. Olha o que Desmond me deu!]

Mensagem atrás de mensagem. Deboche coberto de açúcar e crueldade. Claro que ela também tinha levado isso para as redes sociais — o círculo adorador de puxa-sacos dela enchendo os comentários de corações e elogios.

{Nossa, uau! Você é tão sortuda, Angie!}

{Sim! Sua família ama muito você!}

{Parece que o amor está no ar para você e Desmond Carrington!}

Naturalmente, ela curtiu essa.

{Para com isso, gente! Dessie é noivo da minha irmã — somos só amigos!}

E, tão naturalmente quanto, as amigas dela caíram em cima.

{Ah, por favor. Aquela intrusa?}

{Já não bastava a sua família ter acolhido ela. Agora ela quer roubar o seu primeiro amor!}

{É óbvio que o coração do Des é seu!}

Ele ainda curtiu aquele comentário.

Idiotas.

Como se eu algum dia tivesse querido ele.

Logo meu celular foi inundado com mensagens do resto deles — acusações, culpa, o mesmo roteiro cansado. Como eu podia ser tão mesquinha? Como a pobre Angie tinha ficado triste o dia inteiro sem mim lá.

A mesma ladainha de sempre. As mesmas mentiras de sempre.

Os Clayborne voltaram um pouco depois das oito naquela noite. As risadas se espalharam pelo hall de entrada enquanto eles entravam, altas e sem freio. Eu estava terminando meu jantar quando Selene, meus irmãos, Angelina e Desmond entraram na cozinha. Lawrence se desvencilhou na hora, indo para o escritório sob o pretexto de uma ligação de negócios.

No instante em que me viram, o clima mudou.

Selene foi a primeira a falar.

— Hmph! Então você ficou em casa só pra mandar na equipe? Fazendo eles cozinharem a essa hora —

— Eu fiz isso sozinha —

eu disse, calma.

— Não incomodei a equipe o dia inteiro.

Meu tom continuou neutro enquanto eu virava a página no tablet.

Os olhos dela se arregalaram ao ver o meu prato: frango assado no forno com alecrim, purê de batatas com manteiga de alho e pimenta vermelha, e couve-de-bruxelas salteada.

Uma pequena vitória minha por ter entrado na competição.

A cozinha caiu em silêncio, o cheiro do meu jantar pairando no ar.

Por fim, Christian soltou um riso de desdém.

— Desde quando você aprendeu a cozinhar?

A pergunta veio com um corte, como uma acusação. Eu não ergui o olhar.

— Minha mãe me ensinou.

Ouvi Selene puxar o ar, agudo. Ela odiava que eu ainda me referisse à Queenie como minha mãe.

Angelina foi a próxima a dar um passo à frente, mãos entrelaçadas, sorriso aberto e ensaiado.

— Uau! Quem diria que você cozinha tão bem, Qi-Qi? Se eu soubesse, tinha ficado em casa em vez de sair com a família e me divertir tanto.

Eu mastiguei devagar, saboreando a comida. Estava mesmo deliciosa. Quando não respondi, peguei o rápido lampejo de irritação no olhar dela antes de a máscara voltar direitinho ao lugar.

Marcus cruzou os braços.

— Que falta de educação. Cozinhou tudo isso com as nossas compras e nem se deu ao trabalho de fazer o suficiente pra todo mundo.

— E aposto que ainda deixou uma bagunça —

Nicholas acrescentou.

— Eu lavei minha própria louça —

respondi, no mesmo tom.

— Estou comendo num prato de papel pra não sujar mais nada. E comprei essa comida com o meu próprio dinheiro que economizei.

Os rostos deles ficaram vermelhos quando os olhares correram pela cozinha impecável.

Terminei a refeição, me levantei e joguei fora o prato, fazendo menção de sair sem dizer mais nada.

De repente, Desmond agarrou meu braço.

— Por que você ignorou minhas mensagens?

O aperto dele se fechou, os dedos pressionando forte o bastante para arder. Eu não disse nada.

— A Angie ficou de coração partido hoje porque você não estava lá!

Eu puxei o braço para me soltar enquanto olhava para Angelina. Ela vestia a expressão ferida de sempre, olhos úmidos e lábios tremendo.

Selene soltou uma risadinha debochada.

— Eu juro… você só fica satisfeita quando a minha filha está miserável.

Um sorriso lento entortou meus lábios.

— Ela me pareceu bem feliz —

eu disse.

— Principalmente com todos os prêmios que o Desmond ganhou pra ela no parque.

A mandíbula de Desmond se retesou.

— Você estava me espionando —

— A Angelina foi “legal” o bastante pra me mandar as fotos —

interrompi.

— Ela também me marcou na postagem.

Toquei o lábio, pensativa.

— E aquele comentário sobre vocês dois estarem apaixonados… lembra, “Dessie”? Você curtiu, afinal.

A cor sumiu do rosto dele.

Angelina correu para a frente.

— Por favor, não entenda mal, irmã! Eu só queria que você soubesse que senti sua falta. Eu te marquei pra você ver que eu te defendi!

Antes que eu pudesse responder, os outros se amontoaram em cima.

— Isso mesmo! —

Marcus disparou.

— A Angie só estava cuidando de você.

— Sinceramente —

Christian zombou,

— agindo como se estivesse com ciúme por causa de um prêmio.

— Você podia ter aparecido nas fotos se tivesse ido — Nicholas acrescentou.

Selene ergueu o queixo.

— Além disso, Angie e Desmond se conhecem desde crianças. Linda, gentil e talentosa como ela é… é claro que ele a ama.

Ela realmente disse isso em voz alta.

Palhaços. Todos eles.

Meu sorriso se alargou — cuidadoso, deliberado.

— Então está tudo bem —

eu disse, com doçura.

— Tenham uma boa noite.

Os rostos deles travaram.

Eu sabia o que eles estavam esperando — as lágrimas, as explicações, os pedidos de desculpa por crimes que eu não cometi.

Soltei uma risadinha baixa, única, e saí da cozinha.

Desculpem… a Qiara não está mais aqui.

Vocês todos mataram ela.

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