Capítulo 5 Capítulo Cinco: Cartões de visita.
Capítulo Cinco: Cartões de Visita.
Ponto de vista de Qiara:
Fiquei encarando o cartão de visita dele pelo resto da noite. Meus sentimentos eram complicados.
Por um lado, eu odiava que ele achasse que podia simplesmente mandar em mim. Eu já estava me afogando nesse tipo de controle com essa família ridícula. Por outro lado… havia alguma coisa nele que me inquietava de um jeito que eu não conseguia nomear.
— Aff. Se controla, Ari.
Murmurei as palavras em voz alta, com a frustração transbordando. Eu não tinha muita escolha. Ele era o patrocinador da competição deste ano. Se quisesse, poderia me tirar de lá com uma única palavra.
— Que diabos ele poderia querer comigo?
Murmurei.
Uma batida súbita na minha porta me arrancou dos pensamentos.
No instante em que abri, dei de cara com o olhar calculista de Angelina. Um sorriso se curvou em seus lábios, açucarado e ensaiado.
— Qi-Qi… eu só queria pedir desculpas de novo.
Ergui uma sobrancelha.
— Pedir desculpas pelo quê, exatamente?
Ela entrelaçou os dedos, encenando a culpa.
— Pela competição. Eu sei o quanto você queria fazer a audição. Eu realmente tentei convencer o Pai e nossos irmãos a deixarem você, mas—
Levantei uma mão, cortando-a.
— Você não se cansa disso, Angelina?
Os olhos dela se arregalaram, um lampejo de choque verdadeiro atravessando a máscara.
— C-cansar do quê…?
— De ser falsa.
Minha voz saiu sem emoção. Eu nem me dei ao trabalho de esconder a expressão.
— Não é cansativo fingir o tempo todo?
A cor sumiu do rosto dela.
— Mas eu não sou! Eu de verdade—
— Você nunca teve intenção nenhuma de não fazer a audição — falei, com calma. — Nem o Pai, nem o Nicholas. O objetivo nunca foi “nenhuma de nós duas”. Era garantir que eu não fizesse.
Ela ficou imóvel, o choque estampado no rosto quando a compreensão a atingiu.
— Qi-Qi! Eu não sei do que você está falando! Eu juro que eu—
— Boa noite, Angelina.
Comecei a fechar a porta.
Ela enfiou a mão no vão.
— Aaaah!
Ela gritou, alto e estridente, atraindo instantaneamente toda a casa para o corredor.
— O que aconteceu?! — Lawrence berrou, saindo às pressas do escritório.
— Meu Deus! Angie! Você está bem?! — Selene gritou, se empurrando na direção da minha porta.
— O que aconteceu?! — Nicholas berrou.
— O que você fez?! — Desmond exigiu, o pânico inundando o rosto dele enquanto pegava Angelina no colo como se ela fosse de vidro.
— Por favor, não culpem a Qi‑Qi! — Angelina soluçou. — A culpa é minha! Eu não devia ter— ai!
Ela apertou a mão como se estivesse quebrada.
Selene se virou contra mim na mesma hora.
— Você fez isso de propósito! Está tentando destruir a sua irmã!
Antes que eu sequer abrisse a boca, eles já estavam se movendo — descendo as escadas às pressas, gritando por cima uns dos outros. Desmond embalava Angelina, murmurando palavras de consolo como se ela fosse uma boneca de porcelana.
— Rápido! Temos que levar ela ao hospital! — Lawrence latiu, escancarando a porta da frente.
Angelina continuou soluçando, implorando para que todos me perdoassem como se fosse algum tipo de santa.
Marcus e Christian ficaram para trás. O rosto de Marcus estava fechado quando ele veio na minha direção.
Ele agarrou minha gola, os olhos ardendo de intenção assassina.
— Se acontecer alguma coisa com a mão dela… você tá morta, porra.
Eu nem pisquei.
— Já passei por isso. Já fiz isso.
Bati nas mãos dele para afastá-las. O rosto dele ficou vermelho de raiva.
— Sua puta—
— Marcus! — Christian estalou, segurando o ombro dele. — Vamos. Ela não vale a pena. A Angie precisa da gente.
Marcus me lançou um último olhar envenenado antes de sair pisando duro atrás dele.
Naquela noite, Angelina fez questão de postar sem parar nas redes sociais — fotos e legendas sem fim sobre como era grata por ter uma família tão amorosa. Dezenas de imagens mostravam aqueles idiotas servindo-a de pés e mãos.
No fim, o médico disse que a mão dela estava só um pouco dolorida. Nem uma torção.
— Eu preciso dar o fora daqui, porra — murmurei, quando o sono finalmente me puxou para baixo.
Meu primeiro dia depois do renascimento tinha sido tudo, menos tranquilo.
Nos dois dias seguintes, fiquei na minha. Angelina, é claro, fez o papel de águia ferida com uma graça sem esforço. Minha família ridícula pairava ao redor dela como criados em pânico, servindo-a de pés e mãos como se ela fosse de vidro.
Lawrence ainda ameaçou pôr meus avós na rua se eu não pedisse desculpas.
Quando a quinta-feira chegou, eu já estava de péssimo humor enquanto me vestia para minha reunião com Julius Pierre. Vesti uma calça de moletom e um casaco, enfiando na bolsa a roupa que eu realmente pretendia usar. Era mais seguro me misturar — por enquanto.
Seja lá o que fosse que Julius tinha enxergado em mim, eu pretendia usar. Eu já tinha tomado minha decisão.
Ele ia se tornar meu patrocinador.
Eu estava no meio do saguão quando Nicholas me parou.
— Onde diabos você acha que vai?
Virei devagar. Ele me encarava como se eu tivesse acabado de roubar comida do prato dele.
— Vou para a biblioteca.
Ele soltou um riso de desprezo.
— A biblioteca? Que perda de tempo. Você é uma Clayborne. Devia estar praticando a sua músi—
— Pra quê?
Ele paralisou. As sobrancelhas se franziram.
— O que foi que você disse—
— Praticar minha música pra quê?
Cortei, fria.
— Não é como se a ICOH algum dia tivesse planejado me deixar ter sucesso.
O choque atravessou o rosto dele.
— Que porra você está insinuando sobre nós?
Eu zombei, deixando escapar uma risadinha baixa.
— Nicholas, vamos parar de fingir. Eu estou exausta disso. Toda oportunidade que eu já tive de crescer musicalmente foi destruída pela ICOH — tudo pra garantir que o seu passarinho precioso, Angelina, continuasse na frente.
O rosto dele perdeu a cor, mas eu não parei.
— Todas as chances que eu tive no ensino médio — arruinadas. Eu até me ofereci pra estudar numa escola de música diferente da StarCrest, mesmo depois de me matar de trabalhar pra entrar, porque eu sabia que você não queria que eu ofuscasse ela.
Minha voz escureceu.
— Em vez de me deixar ir, você ameaçou meus avós. Você se escondeu atrás da desculpa de que StarCrest era um “legado Clayborne”. Mas por que isso deveria importar pra mim? Eu não sou uma Clayborne. O que significa que o verdadeiro motivo de você ter me mantido lá foi pra poder me limitar. Me controlar.
— Isso não—
— É, sim. E você sabe.
O rosto dele foi do pálido ao vermelho num instante.
— Vamos deixar uma coisa bem clara — ele disparou. — Nós escolhemos Angelina porque ela é melhor—
— Então por que você pagou pra escola me colocar em turmas de iniciante — interrompi —, quando você sabia que meu nível estava muito acima disso?
Ele abriu a boca, mas eu o cortei de novo.
— Eu vi o relatório, Nicholas. A diretora Castell disse que minha audição foi uma das melhores que ela já tinha visto — e que eu deveria ter sido colocada nas turmas avançadas e de nível expert.
A cor sumiu do rosto dele.
— C-como… como você soube disso? — ele sussurrou.
Eu sustentei o olhar dele, expressão neutra.
— Importa?
Os lábios dele se mexeram, mas não saiu som nenhum. Eu peguei minha bolsa.
— O ponto é: para de fingir que eu tenho um futuro com a ICOH. O único motivo de você ter me mantido aqui é porque o maior patrocinador de vocês quer que o neto dele tenha um filho comigo — pra correr atrás de algum “gene Clayborne” imaginário.
Sorri de leve.
— Então eu vou pra biblioteca. Talvez eu comece a ler livros de bebê.
— Você—
Eu fui embora antes que ele terminasse.
Eu tinha terminado de jogar os jogos deles. Era hora de tirar a mim mesma — e minha verdadeira família — de perto dessas pessoas.
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Olhei para mim no espelho de corpo inteiro uma última vez. Graças a Deus pelo meu cabelo naturalmente cacheado — ele se enrolava fácil num coque macio e bagunçado. No dia anterior, eu tinha comprado uma saia lápis azul-marinho e uma blusa creme de botões, com botões de diamante e ouro. Saltos azul-marinho. Joias simples de ouro.
Eu mal me reconhecia.
Foi a primeira vez, ao longo das minhas duas vidas, que eu tinha comprado roupas de luxo só pra mim. Na vida anterior, os Clayborne nunca me davam dinheiro o bastante — e, depois que me casei com Desmond, ele me acusou de tentar ofuscar Angelina.
Respirei fundo, girei os ombros para me firmar e fui até o balcão da recepção.
— Bom dia. Eu tenho uma reunião com o sr. Julius Pierre.
A recepcionista sorriu.
— Posso saber seu nome?
— Qiara Stone.
— Ah, sim! Srta. Stone. Por favor, pegue este crachá. O presidente Pierre está no trigésimo andar.
Agradeci e entrei no elevador. Conforme ele subia, meus nervos tremulavam no peito, a empolgação se embolando com a inquietação. Por sorte, a vista era deslumbrante — vidro e horizonte se estendendo sem fim, enquanto os números aumentavam.
O andar trinta soou com um ding suave.
O andar inteiro pertencia a ele.
Outra recepcionista me cumprimentou.
— Bom dia. Bem-vinda à PST-Central. Srta. Stone?
— S-sim. Eu sou Qiara Stone.
Ela sorriu e se levantou.
— Excelente. Por favor, me acompanhe.
O espaço além era impecável — silencioso, amplo, intimidador. Quando as portas do escritório dele se abriram, meus punhos se fecharam ao lado do corpo.
— Presidente Pierre — anunciou ela —, a srta. Stone chegou.
Ele estava perto da janela quando se virou.
Meu coração deu um salto.
Um sorriso contido curvou os lábios dele.
— Srta. Stone. É um prazer vê-la novamente.
