Capítulo 1 Amor falso, sua medula óssea é o que eles querem

Vilas Serenity.

Emily Johnson chegou em casa segurando uma pilha de documentos de transferência de propriedade.

Antes que pudesse bater, a voz da irmã mais velha, Bianca Johnson, veio de dentro.

— Mãe, minha doença antiga voltou a atacar. Estou com tanto medo de que um dia eu durma e não acorde mais. Eu não aguento deixar meus filhos e meu marido, e não aguento deixar meus irmãos, você e o papai, e minha irmã...

Bianca estava deitada na cama, pálida, com a mão tremendo enquanto apertava a mão de Cleo Davis Johnson.

O rosto elegante de Cleo estava tomado de tristeza.

Ela deu leves tapinhas na mão de Bianca. — Não se preocupe, sua irmã ainda está aqui, não está?

— Mas será que ela vai aceitar? — Bianca hesitou. — E se os meus irmãos descobrirem...

— Ela não tem o direito de recusar. Se não fosse pelo sangue do cordão umbilical daquela época, ela nem teria tido o direito de nascer. Nós a trouxemos de volta por causa da sua saúde!

Cleo a consolou, com um olhar que não admitia discussão. — Seus irmãos também concordam com isso. Ela tem doença cardíaca e não vai viver muito mesmo, então é melhor a gente aproveitar ao máximo.

Aproveitar ao máximo.

Emily sentiu o sangue gelar.

Então o amor de família que ela achava que tinha não passava de exploração, do começo ao fim.

Antes de completar doze anos, ela era uma mendiga de rua, encontrada por eles enquanto revirava latas de lixo.

As roupas rasgadas e sujas dela contrastavam com a grande mansão da família Johnson. Ela se sentia inferior e sensível, mas aquela frase — “Nós nunca desistimos de procurar você” — fez com que ela, que já ansiava por uma família, entregasse tudo a eles sem reservas.

Então ela se esforçou por aquela família, por cada pessoa ali, disposta a dar tudo de si mesmo que isso significasse perder tudo.

Quando os negócios da família Johnson entraram em crise, ela passou noite após noite em claro elaborando planos para resolver o problema, e acabou desenvolvendo uma doença cardíaca de tanto se exaurir, sem um instante de descanso.

Quando o irmão mais velho, Aiden Johnson, ficou preso e quase foi morto, ela arriscou a própria segurança e aceitou as condições do inimigo para conseguir resgatá-lo.

Ela invadiu o sistema dos haters durante a noite para salvar a reputação do segundo irmão, Chase Johnson, na indústria do entretenimento.

Ela testou medicamentos em si mesma para salvar a vida do pai envenenado, Eli Johnson.

Ela escalou penhascos para colher ervas raras e melhorar a saúde da mãe, Cleo.

E, pelo terceiro irmão, Hayden Johnson, e pelo quarto, Finn Johnson, Emily também se consumiu, terminando coberta de feridas.

Quanto a Bianca, por ter a saúde frágil, sempre que se sentia injustiçada a culpa era de Emily. O que quer que Bianca quisesse, até as coisas mais preciosas de Emily, tinha de ser entregue.

Ela havia salvado Bianca com o próprio sangue do cordão umbilical, e até o namorado dela, James Smith, tinha sido enganado pelo teatrinho de coitadinha de Bianca, mas Emily engoliu a dor e deixou para lá, levando em conta o corpo debilitado da irmã.

Mas o que ela recebeu em troca?

Apenas a própria piada de mau gosto.

Antes que pudesse reagir, os acordos de doação de herança em suas mãos se espalharam pelo chão. Ela se agachou, sentindo uma fisgada de dor, para recolhê-los.

— Quem está aí?

Ouvindo o barulho, Cleo se levantou para ver.

Emily não queria, de jeito nenhum, que Cleo visse aqueles papéis.

A herança dela — ela preferia doar a entregar para eles.

Porque eles não mereciam!

Quando estendeu a mão para pegá-los, Cleo saiu e pisou bem em cima do dorso da mão dela.

Doía.

Mas não tanto quanto o coração.

— Emily, como você se atreve a ficar escutando atrás da porta? O que é isso! — Cleo franziu a testa ao ver os documentos no chão. — O que é isso?

Mesmo com a mão sangrando sob o pé de Cleo, o que a esperava eram apenas acusações sem fim.

Emily já tinha percebido havia muito tempo que a mãe não a amava.

Mesmo assim, aquilo ainda partia seu coração.

A família que ela achava que tinha só a enxergava como um recurso inesgotável a ser explorado.

Ela já tinha se sentido mal antes, mas todos os resultados de exames que a mãe trazia de volta apontavam para uma única conclusão:

Ela estava exagerando.

Até perceber de verdade o quão grave era sua condição, tudo o que recebeu foi o médico balançando a cabeça: “Se você tivesse feito tratamento mais cedo, poderíamos ter feito uma ponte de safena. Você poderia ter vivido mais alguns anos.”

Emily achou que tinham deixado passar da última vez, que tinha sido um engano.

A verdade era que a mãe havia escondido de propósito para transplantar a medula óssea dela para Bianca.

No instante em que Cleo levantou o pé, Emily ignorou a dor na mão e, instintivamente, apertou os documentos contra o peito.

Mas esse gesto despertou a desconfiança de Cleo.

“O que é isso que você está protegendo assim? Está roubando documentos importantes do escritório do seu pai?” A expressão distorcida de Cleo a encarava não como uma filha, mas como uma inimiga.

Ela nem reparou no rosto pálido de Emily.

Emily mordeu o lábio, aguentando a dor. “Não, mãe, você pode verificar as câmeras!”

Sem esperar a resposta de Cleo, ela se virou e desceu correndo as escadas.

“Se não é nada, por que você está correndo? Se ouviu nossa conversa, então sabe ainda mais que, se não fosse sua irmã estar doente e você ainda ter alguma utilidade, você já seria um fantasma vagando por aí. De qualquer forma, você não tem muitos dias, então doar medula para sua irmã — não é isso que você deveria fazer?”

Cleo foi atrás, gritando.

Se ela pudesse escolher.

Preferia não ter família nenhuma.

Emily sorriu, amargo.

Atordoada, ela tropeçou, pisou em falso e rolou escada abaixo.

“Ah...”

Cleo se assustou e desceu depressa, resmungando: “Como você consegue ser tão desastrada! Você se machucou? Está sangrando? Se você sangrar até morrer, como a gente vai fazer o transplante de medula...”

Ao ouvir aquelas palavras de gelar o sangue, o coração de Emily tremeu.

Seu nascimento nunca foi abençoado.

Talvez ela realmente não devesse existir neste mundo.

Emily cuspiu sangue, manchando de vermelho os documentos espalhados.

O peito doía com uma pressão sufocante; os membros pareciam quebrados, e cada articulação do corpo latejava.

A consciência estava se apagando.

Ela sabia que não sobreviveria.

Tudo bem!

Morta, não precisaria encarar esses parentes hipócritas e sem coração.

Mas, mesmo na morte, ela não queria morrer naquele lugar frio.

Para não sujar o caminho rumo à reencarnação.

Com esse pensamento, ela arrastou os membros quebrados e tortos, rastejando passo a passo até a saída da mansão, deixando um rastro de sangue.

“Menina, por que você é tão teimosa? Mesmo que vá morrer, por que não pensa primeiro em salvar sua irmã? Considere isso como fazer o bem para si mesma...”

Emily fechou os olhos, em desespero.

A chuva pesada desabou, lavando o sangue e a sujeira do seu corpo.

Como se estivesse abrindo para ela um caminho limpo até a reencarnação.

“Emily, ande logo e peça desculpas à sua irmã. Se você não tivesse conspirado com gente de fora para intimidá-la, a doença antiga dela teria voltado? Como você consegue dormir à noite?”

Emily foi despertada por um grito furioso.

Alguém puxou seu braço com brutalidade, causando dor.

Ela franziu a testa e abriu os olhos, encontrando o olhar irado do pai, os olhares reprovadores de Aiden e Hayden e a decepção nos olhos da mãe.

Instintivamente, levou a mão ao peito.

A doença no coração tinha sumido?

Os olhos dela percorreram o ambiente.

O depósito cheio de telas de Bianca — aquele era o quarto em que Emily viveu até completar dezoito anos.

Ela tinha renascido?

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