Capítulo 2 Dar a ela é bom, mas ela precisa ter a habilidade de obtê-lo

Olhando para a cena de todo mundo se voltando contra ela com acusações.

Foi exatamente isso que aconteceu quando ela tinha dezoito anos — no ensino médio, em Silent Lake, Bianca foi parada por um valentão e ficou tão assustada que teve uma crise.

E ela, tentando ajudar Bianca, caiu no lago e voltou com uma febre alta.

Se alguém se importasse com ela nem que fosse um pouco, teria notado a vermelhidão quente no rosto dela por causa da febre agora.

— Tá viajando por quê? Você consegue mesmo dormir no meio disso, sua coisa sem coração. Levanta da cama agora!

Assim que Emily se lembrou do que tinha acontecido naquela época, o pai dela, Eli, impaciente, tentou arrastá-la para fora da cama.

O corpo dela amoleceu, e ela despencou no chão, batendo com força numa pintura apoiada num cavalete não muito longe da cama.

Era um quadro de girassóis que Bianca tinha terminado recentemente e deixado ali para secar.

— O quadro da Bianca... Isso aí são dias de trabalho duro da Bianca. Emily, você fez isso de propósito? Você mesmo é alguém que cresceu no lixo, sem educação nenhuma.

Finn, apenas um ano mais velho que Bianca e o mais próximo dela, lançou um olhar furioso para Emily e a xingou.

Emily zombou por dentro.

Os tais “dias de trabalho duro” eram só dar uns retoques finais e colocar um pouco de cor no fim.

Essas pinturas todas tinham sido feitas por Emily. Por isso, mesmo o ateliê sendo para ser o espaço particular de Bianca, ela não se importava de deixar Emily morar ali.

E o motivo ridículo para fazer Emily viver no ateliê era que a família tinha medo de Bianca ficar abalada emocionalmente e ter uma crise se a visse; e, como o ateliê ficava no último andar, era o lugar mais silencioso e mais distante do quarto de Bianca.

Emily não tinha a menor vontade de expor a verdade. Não dá para acordar quem finge estar dormindo, e não dá para mudar o coração de quem escolhe favoritos.

— Fala alguma coisa! Tá muda? Quando você estava intimidando a Bianca e se juntando ao valentão da escola, você não era muda, era? — Hayden franziu a testa, falando também com evidente desgosto.

Ele puxou Emily diretamente para a frente deles, para encarar a ira de todos.

Emily ergueu o olhar, sem expressão.

— Falar o quê? Quer que eu diga que não fui eu? Ou quer que eu diga que vi o valentão conversando e rindo com a Bianca, e que foi ela quem chamou ele até lá?

Um sorriso de deboche curvou seus lábios.

Na vida passada, ela tinha tentado explicar. Tinha dito que não só não machucara Bianca, como na verdade tinha ido ajudá-la.

Mas o que ela recebeu em troca? Eles não acreditaram que ela pudesse ser tão bondosa.

Em vez disso, tiveram certeza de que era Emily quem tinha chamado o valentão — ou como ele saberia onde Bianca estava?

Já que explicações não adiantavam, por que desperdiçar saliva?

— PÁ!

Eli deu um tapa impiedoso no rosto de Emily. Na hora, o rosto dela inchou, com as marcas dos cinco dedos bem visíveis.

— Sua desgraçadinha... tão nova e já com um coração tão venenoso. Além de assustar sua irmã a ponto de deixá-la doente, ainda quer arruinar a reputação dela.

Com exceção de Chase, todos os outros irmãos presentes olharam para Emily com hostilidade, sem demonstrar qualquer simpatia pelo ferimento no rosto dela.

A cabeça de Emily zumbia.

Mas ela teimou em manter o pescoço rígido, sem baixar a cabeça, ceder e agradar como antes.

— Você pode ficar com raiva, mas por que bater na criança?!

Foi Cleo quem, depois de Eli terminar de bater e repreender, deu um tapinha leve no braço dele, em desaprovação.

Então ela avançou para puxar Emily.

— Minha filha, por que você é tão teimosa? Sua irmã teve uma crise por sua causa. Você sabe que a saúde dela é frágil desde que nasceu, e que a família inteira vem protegendo ela com todo cuidado.

— Dessa vez você errou mesmo. Vá pedir desculpas para sua irmã direito. Ela é tão bondosa, vai te perdoar.

Olhando para o rosto hipócrita de Cleo, Emily só sentiu o nojo se revirando no estômago.

Na vida passada, era Cleo quem, toda vez que Emily era ferida pela família, vinha bancar a boazinha e lhe dar esperança.

Fazendo com que ela se abandonasse, vez após vez, para agradar todo mundo.

Na vida passada, talvez porque achassem que ela ia morrer e que não precisavam mais fingir, Cleo finalmente mostrou as verdadeiras cores no fim.

“Ugh...”

Ela sacudiu a mão de Cleo com nojo e deu um passo para trás.

Cleo cambaleou ao ser empurrada, olhando para Emily com uma expressão atônita.

Aiden, que até então tinha permanecido em silêncio, falou com autoridade: “Emily, você passou dos limites. Hoje, você tem que mostrar sinceridade e pedir desculpas.”

O rosto de Emily ficou gelado.

“Então esse é o verdadeiro motivo de vocês, né? Pra que ficar enrolando? Digam logo na cara.”

“Emily, por que você ficou tão amarga e cruel nas palavras?”

Cleo olhou para Emily com uma expressão magoada e a acusou.

“Não vai falar? Então caiam fora!” Emily simplesmente ignorou todo mundo e se deitou de novo na cama.

“A vaga de aprendiz com o Mestre Williams — dê para a Bianca. Afinal, foi você quem salvou ele, então, mesmo sem um aprendizado formal, se você quiser aprender, ele ainda vai te ensinar.”

Eli conteve a raiva e falou num tom mais brando.

Hayden entrou na conversa: “Você nem tem o talento da Bianca pra pintura. Pra você aprender isso não serve de nada, então é melhor dar a oportunidade pra Bianca.”

“Tá bom.”

Bem na hora em que todos acharam que Emily faria escândalo, ela concordou sem dificuldade.

“Você não tá armando alguma, tá?” Finn perguntou, inseguro.

Depois do alerta de Finn, todo mundo sentiu que Emily tinha aceitado fácil demais — ela devia estar planejando alguma coisa grande.

Hayden não conseguiu evitar: “Emily, é melhor você não tramar nada contra a Bianca de novo. Ela tem um coração bondoso, e foi por causa dela que conseguiram te encontrar e te trazer de volta. Você devia ser grata. Depois que abrir mão dessa vaga, nem pense em querer tomar de volta.”

Emily não percebia o quanto era idiota antes.

Ela tinha mesmo sido grata à Bianca por aquilo.

No fim, o sentido escondido era que só a encontraram e trouxeram de volta porque a medula óssea dela era útil.

Quanto à vaga de aprendiz...

Ela podia dar, mas duvidava que Bianca desse conta.

Bianca não tinha talento nenhum para pintura. A maioria das “obras” dela era feita pela Emily — Emily criava o conceito e fazia quase todo o trabalho, e Bianca só colocava uns retoques finais no fim para virarem “as” pinturas dela.

Ela salvou mesmo o Mestre John Williams; isso era verdade. Mas quando John quis aceitá-la como sua última e mais importante discípula, ela não quis no começo.

Porque estava ocupada demais — ocupada ajudando a família Johnson a resolver a crise da empresa, ocupada agradando todo mundo.

Se não fosse por James querer realizar o desejo da avó de virar aprendiz do Mestre Williams, ela não teria concordado em se tornar discípula de John. A condição dela foi que John também aceitasse James como aluno.

Se ela não quisesse essa vaga, ninguém mais teria também.

“Se tiver mais alguma coisa, falem de uma vez. Mesmo que vocês queiram a minha vida, eu não tenho do que reclamar!” Emily virou de costas para eles e falou friamente.

“De onde você aprendeu a ser tão passivo-agressiva? Isso é compensação pelo que você fez de errado com a sua irmã. Não aja como se fosse a injustiçada.” Eli a repreendeu.

“Não tem mais nada? Então podem ir embora!” Emily mandou.

A cabeça dela estava prestes a rachar. Ouvir mais uma frase deles parecia que faria a cabeça explodir.

“Você...”

Eli, é claro, ficou furioso por ser expulso por essa filha que ele não favorecia.

“Emily, sua irmã ainda está sozinha, deitada no hospital. A gente vai vê-la primeiro. Reflita direito sobre si mesma. Todo mundo se preocupa com você, só está frustrado porque você não está correspondendo às expectativas.”

Cleo puxou Eli depressa e ainda disse outra frase com aquela aparência de boa intenção.

Por fim, todos foram embora, deixando um “se cuide” na despedida.

A porta se fechou, isolando as pessoas e as coisas do lado de fora, como se dividisse ela e eles em gente de dois mundos realmente diferentes.

Emily se esforçou para se sentar na cama.

A mente dela estava ficando cada vez mais turva, a testa quente o suficiente para fritar um ovo, o rosto cada vez mais ruborizado.

Ela precisava dar um jeito de chegar ao hospital; se tivesse renascido só para ficar com dano cerebral, não seria um desperdício desse renascimento?

Mas, naquele momento, a porta se abriu de novo.

Emily franziu a testa, a irritação evidente na voz: “O que foi agora? Vocês não vão me deixar em paz nunca?”

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