Capítulo 3 Que vergonha! Na cama dela.
—Emily, o que foi essa atitude?
Quem voltou não foi ninguém menos que Finn, que tinha retornado.
Naquele momento, ele ergueu o celular e, por instinto, a acusou.
Provavelmente lembrando o motivo de estar ali, suavizou a expressão.
—Emily, a Bianca tem um bom coração. Se ela souber que todo mundo te pressionou a abrir mão da vaga de aprendiz do mestre Williams, com certeza vai ficar abalada e adoecer. Você deveria gravar um vídeo pedindo desculpas e dizer que esta é a sua forma de se redimir com a Bianca!
Depois que Finn terminou de falar, olhou para Emily, cheio de expectativa.
Na vida anterior, Finn tinha sido enganado por amigos ruins e acabou se drogando. Ela ficou ao lado dele durante a reabilitação, suportando as agressões e os insultos, com o corpo coberto de hematomas, sem jamais desistir. Nunca imaginou que ele seria capaz de dizer algo tão descarado.
Ela devia ter sido cega.
—Some daqui!
Ela achou que o coração já tinha virado cinza. Mas, naquele momento, ainda doía, agudo, como uma fisgada.
Só então Finn percebeu que o rosto dela estava anormalmente vermelho.
Pela primeira vez demonstrando um pingo de consciência, ele se aproximou com preocupação e estendeu a mão.
—O que foi? Por que seu rosto está tão vermelho?
Nesse instante, o celular dele tocou.
Quando viu o número, ele retirou imediatamente a mão que estava prestes a conferir a temperatura da testa dela e falou num tom tão suave que Emily nunca tinha ouvido nele:
—Bianca, você acordou? Como você está se sentindo?
—Finn, eu estou bem... é que não te vi e senti saudade... cof cof cof...
—Me espera. Vou te ver agora mesmo.
Finn respondeu na hora.
Depois de desligar, saiu às pressas, esquecendo completamente a condição de Emily.
Antes de ir, ainda fez questão de lembrá-la:
—Vou te dar um tempo pra pensar. É pro seu próprio bem. Afinal, fazer esse vídeo mostra que você está realmente arrependida.
Emily não tinha a menor paciência para as palavras de Finn.
Ela nem sabia como acabou chegando ao hospital.
Antes de perder a consciência, ouviu vagamente uma enfermeira dizendo:
—Como é que deixou a febre subir tanto antes de vir ao hospital? Onde estão os familiares da paciente? Que irresponsabilidade. Se demorasse mais um pouco, ela teria ficado com lesão cerebral.
Por fim, ela afundou de vez na escuridão.
—Bum!
Emily acordou com um estrondo.
Ao abrir os olhos, viu uma figura alta parada ao lado da cama.
A janela estava entreaberta.
Emily balançou a cabeça, que já não doía tanto.
Piscou de novo.
A pessoa ainda estava lá.
—Não faça barulho. Eu vou embora em alguns minutos —a outra pessoa pareceu perceber que ela havia acordado, inclinou-se levemente na direção dela e a advertiu, numa voz baixa e grave.
A presença dele era esmagadora.
Mesmo sendo um tom de pedido, aos ouvidos de Emily soou como uma ameaça.
E, como ele se aproximou, ela sentiu o cheiro de sangue nele e conseguiu ver seu rosto com clareza.
—Daniel... Não... Sr. Smith!
Na vida anterior, Emily já tinha visto Daniel Smith de longe uma vez, quando estava com James.
Ele tinha uma beleza fria, quase etérea, e uma aura nobre e imponente — do tipo impossível de esquecer depois de um único olhar.
Embora fosse apenas alguns anos mais velho que James, era o tio dele e ocupava uma posição muito mais alta na família.
Se James, que um dia se perdera e depois fora trazido de volta para a família Smith, era a pessoa de mais alto nível a que Bianca conseguia ter acesso, então Daniel era como um deus, inalcançável.
Ele era o chefe da família Smith, uma família que não tinha apenas riqueza e tradição, mas poder.
E James era apenas um membro não central da família Smith; mesmo assim, isso já bastava para andar de peito estufado pela Cidade Esmeralda — quanto mais o chefe da família.
Mas, em sua vida anterior, depois daquele encontro com Daniel, ela logo soube que ele havia falecido.
Na época, ela pensou com pesar que o céu invejava os talentosos; que pena, uma pessoa tão excelente.
Será que foi por causa desse desastre?
“Você me conhece?!” As sobrancelhas de Daniel se mantiveram frias e distantes; o tom, seguro.
Ela havia chamado sua identidade, e ainda por cima usando um tratamento de alguém mais novo.
Emily sentiu uma atmosfera perigosa.
Ela engoliu em seco, reprimindo o medo. “Meu sobrenome é Johnson. Tive a sorte de ver o senhor de longe uma vez, junto do James. Não se preocupe, eu com certeza não vou contar a ninguém que o senhor esteve aqui hoje.”
Para o chefe da família Smith estar ferido e escondido num quarto de hospital, devia haver algo complicado por trás.
A família Johnson?
Com o James?
Uma imagem atravessou a mente dele: a filha da família Johnson ao lado de James.
Ele tinha ouvido dizer que ela era uma garota frágil, que vivia ficando doente. Era verdade.
Ela estava internada de novo.
“Hum!”
Daniel respondeu com indiferença.
Pareceu haver passos numerosos do lado de fora.
O olhar de Daniel se aguçou.
O ar ao redor ficou gelado num instante, frio a ponto de dar calafrios.
“Agora que ele entrou no meu quarto, se os inimigos dele realmente o encontrarem, eu também vou ser tratada como cúmplice, não vou?”
Os olhos de Emily se moveram depressa, e ela puxou o cobertor. “Por que o senhor não se esconde aqui por enquanto? Eles provavelmente não vão suspeitar que o Sr. Smith iria se enfiar na minha cama.”
Depois de falar, Emily teve vontade de dar um tapa na própria boca.
O que foi que ela estava dizendo?
“Não, não foi isso que eu quis dizer, eu...”
Justo quando pensava em como explicar, Daniel já tinha levantado o cobertor e se escondido ali dentro.
O homem ao lado dela tinha um cheiro amadeirado limpo e refrescante, bem agradável. Emily, sem perceber, inspirou uma vez.
Ao se dar conta do que tinha feito, ela rapidamente recompôs a expressão.
“Tomara que o Sr. Smith não tenha notado.”
Nesse instante, a porta do quarto foi empurrada.
Vários homens, com expressões ansiosas, vasculharam o ambiente com olhares afiados.
Emily imediatamente fez uma expressão confusa ao encarar as pessoas na porta.
“Quem são vocês?”
Sem encontrar nada de estranho, eles disseram friamente: “Desculpe, quarto errado.”
Então fecharam a porta e foram embora.
Emily ouviu vagamente os sons do lado de fora, como se ainda estivessem procurando quarto por quarto.
Daniel se levantou da cama. Emily olhou para a camisa dele, escurecida de sangue no peito, e franziu a testa, sugerindo: “Seu ferimento... que tal eu chamar um médico no meu nome para fazer um curativo no senhor?”
“Não precisa!”
Daniel recusou em voz grave.
Em seguida, ele jogou para Emily um pingente de jade. “Eu te devo uma.”
Então abriu a janela, saltou e saiu do quarto do hospital.
O aroma amadeirado dele foi se dissipando aos poucos com sua partida, enquanto o vento entrava pela janela, como se ele nunca tivesse estado ali.
Só a sensação fria do pingente de jade na mão dela provava que ele realmente estivera ali.
“Um favor, é?”
Uma promessa do chefe da família Smith tinha um peso considerável.
Emily sorriu de leve — um bônus inesperado.
Será que essa era a boa sorte de renascer? Isso queria dizer que ela podia mudar o destino miserável da vida anterior?
Do lado de fora, o barulho agitado voltou.
O coração de Emily disparou. Será que aqueles homens tinham voltado?
Mas Daniel já tinha ido embora, então ela não tinha nada a temer.
Pensando assim, Emily saiu da cama e abriu a porta só uma fresta para espiar.
Ela viu Bianca sendo escoltada cuidadosamente para fora do hospital pelos Johnson e por James.
Ela sorria docemente, como se toda a beleza do mundo pertencesse a ela.
Em comparação com o próprio quarto vazio, era incrivelmente irônico!
De repente, o olhar afiado de James disparou na direção do quarto de Emily.
