Capítulo 3
O número escrito com giz branco na parede foi mudado para “17” esta manhã.
Esse foi o ponto de virada na minha vida passada que me fez perder tudo.
O sistema de racionamento de trabalho de três dias trouxe mudanças significativas para o acampamento.
Greg e mais alguns reforçaram a porta de enrolar número quatro, na frente, com barras de aço, e Anna administrou a logística com perfeição, garantindo que todos tivessem sopa quente todos os dias. Tudo parecia estar no caminho certo.
Mas o teste inevitável ainda chegou.
Por volta das três da tarde, um som de batidas muito fracas veio de fora da pequena porta de metal na lateral.
— Me ajudem... Eu não sou um monstro, eu só quero um pouco de água pra beber...
Era uma voz masculina.
Ao ouvir isso, Chloe, que estava sentada num canto mastigando um biscoito, deu um pulo.
— É uma pessoa viva! Tem alguém lá fora pedindo ajuda! — ela gritou, deixando os biscoitos caírem e correndo na direção da porta. — A gente tem comida suficiente, a gente tem que ajudar ele!
Mas, antes mesmo de ela encostar na maçaneta, Marcus bloqueou o caminho.
— Você ficou maluca, Chloe! O Zane disse que ninguém pode mexer na fechadura até ver a pessoa inteira, viva! — Marcus a empurrou de lado com brutalidade.
— Ele tá morrendo de sede! Vocês são uns animais de sangue-frio, jogaram a consciência fora depois de algumas refeições de carne? — Chloe, com os olhos vermelhos, tentou se soltar e gritou para os sobreviventes ao redor: — Ele também é um ser humano!
David disse:
— Se ele foi mordido, o vírus vai transformar ele num zumbi em poucas horas. Se ele ainda estiver consciente depois de algumas horas, significa que não está infectado, e aí a gente abre a porta.
Chloe protestou:
— Lá fora tá perigoso demais agora. Zumbis podem aparecer a qualquer momento. E se ele morrer do lado de fora?!
Paul disse:
— Se isso acontecer, a gente atira do segundo andar.
Chloe olhou para todos, incrédula, como se não conseguisse entender por que o “amor” tão poderoso que ela tinha antes tinha se tornado tão sem valor.
Ela só conseguiu cobrir o rosto e chorar alto, acusando o acampamento de ter virado um covil de bandidos desumanos.
Quando vi a multidão conter Chloe espontaneamente, soltei um longo suspiro de alívio.
A tensão que estava esticada no meu peito, enfim, se desfez por completo.
A história foi mudada.
Maya está a salvo.
A concentração intensa que venho mantendo nos últimos dias me deixou exausto. Combinei com David e Paul para assumirem a parte crucial da segunda metade do turno da noite hoje e, então, voltei para o saco de dormir de Maya e caí num sono profundo.
Mas eu subestimei a obsessão de Chloe e também subestimei até onde uma mulher que acreditava ter a aura de uma salvadora podia ir.
São duas da manhã.
Fui acordado por um som extremamente abafado de metal raspando.
Abri os olhos de repente, peguei minha arma e corri na direção de onde vinha o som.
No portão de carga e descarga na lateral da fábrica, que originalmente estava trancado com um cadeado, Chloe o cortou em algum momento com uma tesoura hidráulica.
David e Paul estavam patrulhando o outro lado quando Chloe aproveitou a oportunidade para abrir a porta, querendo encontrar o “sobrevivente” de mais cedo.
— Você ainda tá aí? Entra logo!
Meu sangue gelou por completo naquele instante, e meu couro cabeludo formigou.
— Fecha a porta! Fecha a porta! — eu rugi como um animal selvagem, agarrando minha arma e correndo para a frente. — Aquilo não é uma pessoa viva!
Mas era tarde demais.
Naquele momento, a pessoa do lado de fora já tinha se transformado por completo.
O zumbi de repente se espremeu pela fresta da porta e avançou sobre Chloe, que estava mais perto.
Chloe gritou de terror e, por instinto, rolou para o lado. O zumbi, tendo perdido o alvo, se lançou sobre o grupo de pessoas que ainda dormia profundamente no centro da fábrica.
E pior: como a porta havia sido aberta, o som se espalhou para fora, atraindo vários zumbis que estavam por perto na noite silenciosa, e eles invadiram em bando pela entrada escancarada.
— Zumbis entraram! Corram!
— Bang—!
A bala explodiu o zumbi que vinha na frente em pedaços.
No entanto, dois zumbis extremamente rápidos já tinham avançado até a área onde todos dormiam.
Assim que um homem de meia-idade levantou a cabeça, um zumbi mordeu a garganta dele.
— Zane! À direita!
David surgiu das sombras, sem munição. Carregando um cano de aço grosso, ele se colocou sem hesitar diante de um zumbi grande para proteger os velhos e desceu o cano com força na cabeça do monstro.
Mas o zumbi não morreu na hora; avançou e derrubou David no chão.
— David!
Apertei o gatilho repetidas vezes.
— Bang! Bang!
Atingi o zumbi com precisão extrema.
Então Marcus correu até lá com a arma e deu cabo dos poucos zumbis restantes, espalhados pelo lugar.
A fábrica voltou ao silêncio. Só ficaram o cheiro de fumaça de pólvora e o fedor forte de sangue.
Três cadáveres jaziam no chão.
Larguei a arma vazia e me atirei até David. Embora eu tivesse conseguido acertar o zumbi, cheguei tarde demais.
Marcus se ajoelhou ao lado dele com um baque, e suas mãos calejadas rasgaram desesperadamente as roupas para improvisar um torniquete, enquanto a voz tremia fora de controle.
— Não adianta... Marcus.
O rosto de David ficou de um cinza cadavérico numa velocidade visível.
Nesses últimos dias, ele vinha saindo comigo para procurar suprimentos, carregando para mim as caixas de munição mais pesadas.
Quando recebia a parte dele de carne enlatada, ele ainda fazia questão de despejar com cuidado o caldo na grande panela de ferro comunitária do acampamento.
David segurou meu pulso.
— Zane... Zane, o que você disse pro Paul na loja de penhores... pra fazer o que você tinha que fazer...
Minhas mãos tremiam incontrolavelmente.
Respirei fundo e tirei a mão de cima do ferimento dele.
Puxei a pistola da cintura, segurei o cabo com as duas mãos e encostei lentamente o cano frio na testa de David.
— Eu prometo que nunca vou deixar você virar aquela coisa horrível.
Minha voz saiu fria como gelo, mas meus dentes já sangravam de tanto apertá-los.
Uma lágrima escorreu pela bochecha de Marcus.
— Bang.
Um disparo abafado ecoou.
O corpo de David parou de se contorcer por completo.
O ar ficou tão imóvel que sufocava.
Marcus ajoelhou numa poça de sangue, com o rosto coberto, os ombros sacudindo violentamente.
Os sobreviventes ao redor estavam com os olhos vermelhos, e várias mulheres já soluçavam sem conseguir se controlar.
Nesse momento, um grito estridente veio de um canto ali perto.
Chloe se levantou do chão.
Ela apontou para a arma na minha mão, o rosto riscado de lágrimas, e berrou comigo como se eu fosse um carrasco hediondo:
— Como você pôde atirar nele?!
A voz aguda ecoou pela fábrica vazia.
Chloe avançou, me encarando com indignação moral e o coração partido:
— O David só estava falando! Ele ainda estava respirando! Por que você nem tentou salvá-lo? Você não achou antibióticos lá fora? Mesmo que fosse só um fiapo de esperança, como você pôde matar o seu próprio companheiro?!
Naquele instante, toda a razão e todos os escrúpulos no meu peito viraram poeira.
Eu não gritei e nem devolvi um único xingamento.
Apenas me levantei e coloquei de volta no coldre a pistola ainda quente.
Então caminhei a passos largos em direção a Chloe.
