Capítulo 3
O prédio-sede da Howard Corporation se ergue imponente em Midtown Manhattan, sua fachada de vidro de trinta e oito andares brilhando sob o sol da tarde. Eu estava parado diante dele, olhando para aquela estrutura tão familiar com sentimentos confusos. Dois anos atrás, eu era o herdeiro aparente dali; agora, estava prestes a entrar como um estranho.
— Sr. Drake, bem-vindo. — A secretária de William, uma mulher competente na casa dos quarenta, me recebeu no saguão.
Enquanto eu a seguia até o elevador privativo, meu coração começou a disparar. Eu estava prestes a ver William — o homem que era como um pai para mim. Eu precisava controlar minhas emoções e não demonstrar nenhuma fraqueza.
O elevador parou no trigésimo quinto andar, e a secretária me conduziu por um longo corredor. O ambiente de escritório do Howard Group continuava tão elegante e grandioso como sempre, com fotos dos projetos mais importantes da empresa e prêmios conquistados ao longo dos anos pendurados dos dois lados do corredor.
— O Sr. Howard está esperando o senhor lá dentro. — A secretária bateu à porta do escritório do presidente.
— Pode entrar. — veio uma voz grave e gentil, uma voz que eu jamais esqueceria.
No instante em que empurrei a porta, vi William Howard. Ele estava sentado atrás de uma enorme mesa; seus cabelos estavam ainda mais grisalhos do que eu me lembrava, mas seus olhos continuavam atentos e gentis. Ao me ver, ele abriu um sorriso educado, levantou-se e estendeu a mão.
— Sr. Drake, é um prazer conhecê-lo. Por favor, sente-se.
Apertei sua mão, e aquele calor familiar quase me fez chorar. Mas me forcei a permanecer calmo, exibindo a compostura esperada de um empresário bem-sucedido.
— Sr. Howard, agradeço por reservar um tempo para me receber. Há muito admiro sua reputação, e as conquistas do Howard Group no setor da construção são realmente admiráveis.
William fez um gesto para que eu me sentasse e pessoalmente serviu uma xícara de café para mim.
— Drake Investment Company... Para ser sincero, esse nome não me é familiar. Poderia me falar um pouco sobre o histórico da sua empresa?
Eu já tinha minha resposta pronta:
— Somos uma empresa de private equity focada em investimento de valor de longo prazo, com sede na Suíça e aproximadamente 30 bilhões de dólares em ativos sob gestão. Raramente aparecemos em público e preferimos construir parcerias profundas com empresas excepcionais.
William assentiu; sua perspicácia nos negócios lhe dizia que eu poderia ser um parceiro valioso.
— Então, o que você sabe sobre a Howard Corporation?
— De acordo com nossa pesquisa, o Howard Group construiu 15 por cento dos edifícios residenciais e comerciais de alto padrão da região de Nova York nas últimas duas décadas, desfrutando de uma excelente reputação no setor. No entanto, também notamos que sua empresa tem enfrentado recentemente alguns desafios em relação ao fluxo de caixa.
A expressão de William mudou levemente. Como um homem de negócios experiente, ele não gostava que as dificuldades da empresa fossem mencionadas de forma direta demais.
— Você está muito bem informado.
— É exatamente por isso que estamos interessados — continuei. — Quando empresas excelentes enfrentam dificuldades temporárias, isso muitas vezes representa uma excelente oportunidade de investimento. Estamos dispostos a fornecer apoio financeiro para ajudar o Howard Group a superar seus desafios, ao mesmo tempo em que participamos de seu crescimento futuro.
Nesse exato momento, a porta do escritório foi aberta de repente. Uma figura familiar entrou — era Emily Howard.
Ela era tão bonita quanto eu me lembrava, com longos e elegantes cabelos dourados caindo sobre os ombros, e vestia um tailleur azul-escuro que a fazia parecer inteligente e competente. Mas, no instante em que a vi, a imagem que atravessou minha mente foi a do sorriso frio dela naquela noite chuvosa.
— Pai, desculpe incomodar. Eu não sabia que o senhor estava recebendo visitas — disse Emily e então se voltou para mim. — Olá, eu sou Emily Howard, vice-presidente da empresa.
Levantei-me e estendi a mão:
— Alexander Drake, é um prazer conhecê-la.
No momento em que nossas mãos se tocaram, senti uma sensação estranha. As mãos dela continuavam tão macias, mas, para mim, foi como segurar uma cobra venenosa.
— O Sr. Drake veio conversar sobre uma cooperação de investimentos — explicou William à filha. — Talvez você deva ficar e ouvir.
Emily se sentou com elegância.
— Tenho muito interesse. Sr. Drake, quanto o senhor pretende investir?
— Inicialmente, estamos considerando investir quinhentos milhões de dólares na forma de debêntures conversíveis — respondi. — Claro, os termos específicos da cooperação ainda precisam ser discutidos em detalhes.
William e Emily trocaram um olhar. Quinhentos milhões de dólares era uma quantia que a Howard Corporation, no nível em que estava, mal podia se dar ao luxo de recusar.
— É, sem dúvida, uma proposta atraente — disse William com cautela —, mas precisamos de mais detalhes. Por exemplo, quais são as suas exigências em relação à estrutura de governança corporativa?
— Não vamos interferir nas operações do dia a dia da empresa — respondi —, mas esperamos ter uma cadeira no conselho para entender melhor a situação da companhia. Essa é uma condição padrão para o nosso investimento.
Nesse momento, outra pessoa empurrou a porta e entrou. Desta vez era Richard Conway.
No instante em que o vi, o ódio no meu peito quase explodiu. Aquele desgraçado loiro, de olhos azuis, um dos assassinos de William, vinha agora na nossa direção com o seu sorriso encantador característico.
— Desculpem o atraso — disse Richard, e então olhou para mim. — E este é...?
— Richard, este é o Sr. Drake — apresentou Emily, com uma gentileza especial no tom. — Ele representa a Drake Investment Company e está interessado em nos oferecer apoio financeiro.
Um brilho de esperteza passou pelos olhos de Richard. Eu sabia no que ele estava pensando: mais um investidor para explorar, mais uma quantia para desviar.
— Isso é ótimo! — Richard apertou minha mão com entusiasmo. — Sr. Drake, eu sou Richard Conway, vice-presidente da empresa. Estamos mesmo precisando de capital para iniciar alguns projetos novos.
Vice-presidente? Parece que ele foi promovido mais rápido do que eu me lembrava.
Na hora seguinte, discutimos em detalhes a possibilidade de cooperação. Observei com cuidado a dinâmica entre os três: embora William demonstrasse confiança em Richard, ainda havia um traço de cautela em seus olhos quando se tratava de decisões importantes; a atitude de Emily em relação a Richard já estava bem clara e, embora tentassem esconder, eu ainda conseguia sentir a ambiguidade entre eles; e Richard, aquele hipócrita, aos poucos ia se infiltrando na família com seu charme e suas mentiras.
Ao fim da reunião, William disse que precisava de alguns dias para considerar a proposta. Eu entendia perfeitamente; afinal, quinhentos milhões de dólares não eram pouca coisa, e eu ainda era um estranho para eles.
— Sr. Drake — disse Emily, de repente, quando eu já estava prestes a sair —, a empresa vai fazer hoje à noite um pequeno jantar de celebração, para comemorar um grande projeto que acabamos de fechar. Se o senhor estiver disponível, será bem-vindo para se juntar a nós. Isso vai lhe dar uma compreensão melhor da nossa cultura empresarial.
Olhei para William, e ele assentiu em concordância.
— Eu adoraria participar — eu disse.
Depois de sair da Howard Tower, sentei no meu carro, com a mente a mil. O jantar desta noite seria a oportunidade perfeita para observar mais de perto a relação deles e começar a armar minha armadilha.
Richard achava que podia me usar, o “investidor”, para alcançar os objetivos dele, como da última vez. Mas, desta vez, ele não estava lidando com o ingênuo Marcus Chen, e sim com um vingador ressuscitado.
Peguei o celular e disquei um número.
— James, arranje algumas pessoas para mim. Preciso dos melhores investigadores particulares e auditores financeiros, quanto antes melhor.
— Entendido, jovem mestre. Há mais alguma coisa de que o senhor precise?
— Prepare alguns presentes, o melhor champanhe e flores. Vou a um jantar esta noite e preciso agir como um investidor bem-sucedido.
Depois de desligar, fechei os olhos, relembrando a dor e a humilhação da minha vida passada. William Howard, eu vou proteger você. Emily e Richard, vocês acharam que poderiam nos enganar e explorar de novo, mas desta vez enfrentam um adversário completamente diferente.
O jogo começou.
Pontualmente às oito da noite, cheguei ao clube privativo do Howard Group, no Upper East Side de Manhattan. Aquele era o local dos eventos importantes da empresa; a decoração era elegante e exalava a atmosfera da alta sociedade americana de outros tempos.
William já havia chegado e conversava com vários clientes. Ele acenou calorosamente para mim assim que entrei. Emily, vestida com um vestido de gala preto, circulava graciosamente entre os convidados, enquanto Richard estava no bar, taça de champanhe na mão, flertando com várias mulheres jovens.
— Sr. Drake, bem-vindo! — William veio até mim e apertou minha mão. — Deixe-me apresentá-lo a alguns amigos.
Na meia hora seguinte, William me apresentou a várias figuras importantes do mundo da arquitetura em Nova York. Descobri que William realmente tinha uma reputação altíssima no setor, e todos demonstravam por ele um respeito genuíno. Isso fortaleceu ainda mais minha determinação de protegê-lo.
— Sr. Drake — Emily se aproximou de mim com uma taça de vinho —, como está se sentindo?
— É um ótimo encontro — respondi. — As conexões do seu pai no setor são impressionantes.
— Sim, meu pai trabalha nesse setor há trinta anos e construiu muitas amizades profundas. — Uma emoção complexa passou pelos olhos de Emily. — Mas às vezes sinto que ele confia demais nas pessoas.
Essas palavras me deram um choque. Será que Emily ainda desconfiava de Richard?
— A confiança é a base da cooperação nos negócios — eu disse, cauteloso —, mas certo grau de prudência também é necessário.
— Você tem razão — Emily assentiu, pensativa. — Tivemos alguns rostos novos na empresa recentemente, e embora tenham tido um desempenho muito bom, mas...
As palavras dela foram interrompidas pela chegada de Richard.
— Querida, sobre o que vocês dois estão conversando com tanta seriedade? — Richard se aproximou e, com naturalidade, passou o braço pela cintura de Emily.
Percebi que Emily enrijeceu levemente por um instante, mas logo voltou ao normal.
— Estou discutindo colaborações comerciais com o Sr. Drake — disse Emily.
— Ah, negócios. — Richard soltou uma risada baixa. — Sr. Drake, para ser sincero, acho que agora é o momento perfeito para investir na Howard Corporation. Temos muitos projetos novos e empolgantes em andamento.
— Ah, é? Poderia me contar mais? — perguntei.
Um brilho ganancioso passou pelos olhos de Richard.
— Por exemplo, estamos considerando entrar no setor de imóveis tecnológicos, construindo prédios comerciais inteligentes e complexos residenciais. O potencial de mercado é ilimitado, mas isso exige um investimento inicial muito alto.
Assenti com interesse, mas por dentro eu zombava. Aquele cara já tinha começado a tecer suas mentiras, como na minha vida passada. Só que, desta vez, eu faria das mentiras dele a corda no próprio pescoço.
Nesse instante, meu celular tocou. Era uma mensagem de James: “A investigação começou, e surgiram alguns achados iniciais interessantes. Richard Conway trocou de emprego com frequência nos últimos dois anos, e cada saída foi acompanhada de disputas financeiras.”
Sorri para mim mesmo. Parecia que meu plano de vingança tinha dado o primeiro passo.
— Desculpem, preciso responder essa mensagem — eu disse a Emily e Richard.
— Claro, fique à vontade — disse Emily.
Fui até um canto relativamente silencioso e respondi rápido para James: “Continue investigando, com foco nas transações financeiras e nos relacionamentos pessoais dele. E prepare também um contrato de investimento detalhado; quero garantir que cada centavo esteja sob a nossa vigilância.”
Depois de enviar a mensagem, virei para voltar à multidão, mas encontrei Emily a uma curta distância, me observando.
— Sr. Drake, você parece muito jovem, mas tem um jeito de fazer as coisas bem maduro — ela disse.
— No mundo dos negócios, não há espaço para ingenuidade — respondi. — Fui ensinado desde pequeno a ser cauteloso.
Emily me lançou um olhar profundo.
— Você me lembra alguém.
Meu coração disparou.
— É mesmo? Quem?
— Alguém... que já foi muito importante para mim. — A voz de Emily ficou um tanto etérea. — Mas isso já ficou no passado.
Naquele momento tão delicado, um suspiro assustado ecoou de repente. Nós nos viramos e vimos William segurando o peito, o rosto pálido, como se estivesse lutando para respirar.
— Pai! — Emily correu até ele imediatamente.
Meu sangue gelou na hora. Aquela cena era familiar demais; eram exatamente os sinais do ataque cardíaco de William. Na minha vida passada, foi a partir desses sintomas que a saúde de William começou a piorar aos poucos, até culminar na morte dele, pelas mãos de Emily e Richard.
Mas não desta vez.
Corri até lá e ajudei William a se levantar.
— Sr. William, como o senhor está se sentindo? Quer que a gente chame uma ambulância?
— Não é nada... Só estou com um aperto no peito... — disse William, fraco.
Richard veio depressa, o rosto cheio de preocupação.
— William, vamos ao hospital fazer um check-up.
Observei Richard com atenção e, no fundo dos olhos dele, vi passar um lampejo de satisfação. Esse monstro... ele já começou a mirar no William?
— Eu faço questão de levar o senhor ao hospital — eu disse, firme. — Meu carro está lá fora; a gente chega ao melhor hospital particular em pouco tempo.
Com a minha insistência, William foi levado ao Hospital NewYork-Presbyterian. Depois de um exame completo, o médico diagnosticou uma arritmia leve, possivelmente causada por excesso de esforço, e recomendou mais descanso.
Mas eu sei que isso é só o começo. Se eu não agir, o estado de William vai piorar até...
Naquela noite, ao voltar para a Mansão Drake, elaborei imediatamente um plano detalhado. Meu objetivo era proteger William e, ao mesmo tempo, encurralar Emily e Richard aos poucos.
Primeiro, eu precisava conquistar a confiança total de William e me tornar um grande acionista da Howard Corporation. Depois, precisava investigar em segredo todos os crimes de Richard e reunir provas suficientes. Por fim, eu queria que eles se vissem perdendo tudo, do mesmo jeito que fizeram comigo.
A hora da vingança está chegando.
