Capítulo 1 1
CLARA
Isso não pode estar acontecendo.
Eu devo ter enlouquecido de repente, porque não existe a menor chance de eu estar vendo esta máquina piscar aquela palavra gigante na minha frente.
Jackpot.
A caça-níquel está berrando alarmes altos e felizes para comemorar; isso explica por que tantas cabeças se viraram na minha direção para encarar. Alguns parecem animados por mim; outros parecem frustrados.
A maioria parece puta da vida.
Uma em particular, uma senhora mais velha de agasalho e pochete, está formando xingamentos com a boca com tanta intensidade que a dentadura quase cai. E eu nem posso culpá-la — ela tinha acabado de sair exatamente deste assento instantes atrás.
Mas eu não ouço nada disso.
Nem os palavrões da vovó, nem os cochichos, nem os sinos e apitos anunciando a sorte grande que eu passei a vida inteira implorando para receber. Estou um pouco ocupada demais tentando refazer mentalmente meus passos para garantir que isso não é algum delírio febril que eu estou tendo jogada numa valeta por aí.
A questão é: eu não jogo. Jogo é coisa de gente que não tem nada a perder, e eu—
Espera. Retiro o que eu disse.
Eu nunca tinha jogado antes, porque jogo é coisa de gente que não tem nada a perder, e eu sempre tive coisa demais em jogo.
Isso mudou hoje à noite.
Hoje à noite, enquanto eu mancava a caminho de um turno noturno no meu segundo emprego, servindo bebidas como garçonete de coquetéis em uma das casas noturnas mais exclusivas de Las Vegas, eu percebi que eu literalmente não tinha nada a perder.
Nada de palpável, pelo menos.
Eu sempre fui dura. Trabalho horas intermináveis e durmo pouquíssimo só para conseguir juntar dinheiro e tempo suficientes para a minha filha. Willow tem só cinco anos, e merece ter a mãe presente e ativa no dia a dia. Foi por isso que comecei a pegar turnos noturnos sempre que possível — para poder estar com ela, atendendo às necessidades emocionais dela, mesmo que eu mal conseguisse bancar as necessidades práticas.
Martin prometeu cuidar da gente. Prometeu cuidar de mim até antes de eu engravidar, na verdade, e a musiquinha bonita dele só ficou mais alta conforme minha barriga crescia. Quando ele segurou nossa recém-nascida nos braços pela primeira vez, lágrimas escorreram pelo rosto dele enquanto jurava cuidar de nós pelo resto da vida.
Claro que eu acreditei. Quem não acreditaria? Ele não era só meu namorado e meu tipo-assim-meio que um dia vira noivo; ele é policial do Departamento de Polícia de Las Vegas.
Por isso eu desconfiei quando as promessas dele perderam a força poucos meses depois do parto.
Eu deveria ficar em casa, algo com que nós dois concordamos. Ele não ganha seis dígitos nem de longe, mas está a um passo de virar detetive e os bônus que recebeu tinham sido suficientes para manter a gente com a cabeça fora d’água.
Ou pelo menos eu achei que tivessem sido. Até que, de repente, eu me senti afundando.
A primeira vez que ele me bateu foi quando eu perguntei por que ele só tinha me dado trinta dólares para fazer compras no mercado.
A segunda vez foi quando eu questionei aqueles “Avisos Finais” vagos e ameaçadores aparecendo na caixa de correio como um relógio.
A terceira vez que ele me deu um tapa na cara aconteceu no escuro, porque a luz tinha sido cortada.
Eu consegui relevar todas as vezes por causa do trabalho dele. O estresse que ele aguenta, e numa cidade dessas? Dá para fazer até a Madre Teresa perder a linha. Ele sempre ficava arrasado com o que tinha feito e passava os dias seguintes me adorando como se eu fosse uma deusa. Me dava um pouco mais para as compras, e os Avisos Finais sumiam. Dizia que tinha resolvido o problema da eletricidade — um simples mal-entendido, algo arquivado errado no setor de cobrança.
Ou pelo menos foi o que ele disse.
Mas nada disso durava muito.
A quarta vez que ele me bateu foi quando eu contei que tinha conseguido um emprego. Ele levou como um ataque à identidade dele de provedor, como sinal de que eu não confiava nele. “Uma manobra feminista, sorrateira e de merda pra me emascularem, pra arrancarem minhas bolas” — foram as palavras exatas dele.
A verdade é que eu estava cansada de pesquisar no Google oitenta maneiras diferentes de cozinhar batata. Estava cansada de fingir que eu não tomo café da manhã só para racionar aveia suficiente para a Willow. Estava cansada de estar cansada de ser pobre demais para ser mãe.
Eu comecei como garçonete num daqueles restaurantes de rede grandona em que fazem todos os atendentes cantarem uma versão boba de “Parabéns pra Você”, mas eu logo percebi que o dinheiro de verdade estava na vida noturna. Eu nunca pisaria num clube de striptease, não me entenda mal, mas garçonetes de coquetel ainda ganham muito mais do que garçonetes de casa de panqueca.
Acabei convencendo o Martin de que era uma boa ideia. Mais dinheiro, menos perguntas.
Isso não quer dizer que ele tenha parado de me bater.
Ele não gosta de como eu borrifo perfume no meu cabelo comprido para arrancar gorjetas maiores dos executivos bêbados, que respiram aquilo toda vez que eu me inclino sobre os sofás de couro para servir os coquetéis deles. Ele não gosta do jeito que os uniformes de poliéster grudam nas minhas curvas, ou mostram minhas pernas, ou deixam meu decote à mostra para qualquer idiota com uma nota de cinco dólares queimando no bolso.
Se é algo que ele acha que vai fazer os homens me secarem com os olhos, Martin odeia.
E ele é muito eficiente em deixar isso bem claro.
A boate onde eu trabalho atualizou recentemente o figurino, e meu novo uniforme chegou ontem. É um tecido cor de champanhe com lantejoulas, com laterais franzidas, um decote profundo para mostrar os peitos, e alças tipo toga em cada ombro para manter tudo no lugar.
Em alguém menos voluptuosa, talvez ficasse logo acima do joelho. Mas em mim, para no meio da coxa. Tem um par de saltos combinando que a gente é obrigada a usar no salão, mas a gerência nos incentivou a levar sapatilhas para os intervalos e o caminho. Que gentileza.
O Martin me deixou bem claro o que achou do meu novo visual quando chegou em casa e me encontrou experimentando os sapatos. Dessa vez, ele não se importou que a Willow estivesse bem ali do meu lado.
Mas eu me importei.
Então, quando ele me deu um tapa tão forte no rosto que eu quase caí do sofá — quando ouvi os gritos apavorados da Willow — eu decidi, ali mesmo, que já tinha dado.
— E você vai fazer o quê, hein? Que porra você vai fazer? — ele riu de mim.
Ele não ligou que eu estava fervendo de raiva.
Não ligou que eu encarava ele de baixo, com um ódio assassino nos olhos, nem que nossa filha estava soluçando e se encolhendo para longe dele.
— Você não vai sair dessa casa parecendo uma vadia de dois dólares! — Quando viu minhas lágrimas, Martin inclinou a cabeça para o lado, numa falsa compaixão debochada. — Aaaah, doeu? Desculpa, bebê...
Willow deu um soluço no meio do choro e espiou para ele.
— Papai?
— Cala a boca! — ele berrou para ela.
Eu não sei o que deu em mim, além de puro instinto materno. Só sei que, num momento, eu estava no sofá, com o rosto ardendo do tapa...
E no seguinte, eu estava voando na direção dele.
Eu me choquei contra o Martin com tanta força que ele tropeçou na poltrona reclinável, e nós dois despencamos no chão, num amontoado dolorido de braços e pernas.
Não perdi tempo checando se ele tinha se machucado. Pulei de pé, me virei, peguei a Willow e corri com ela para o quarto dela. Assim que me certifiquei de que a porta estava trancada, abracei minha filha e nós nos embalamos juntas na caminha dela.
Você provavelmente está se perguntando: por que eu não chamei a polícia?
Resposta: porque o Martin é da polícia.
Apertei minha filha contra mim enquanto os punhos dele socavam a porta do quarto dela. Alto. Furioso. Violento. Beijei as lágrimas dela enquanto continuavam a cair. Eu precisava que ela soubesse que eu estou aqui. Vou estar sempre aqui. Nunca vou deixar que ela cresça no inferno que eu tive de aguentar.
Com o tempo, ela conseguiu parar de soluçar o bastante para cantar comigo a nossa música favorita, sobre arco-íris e devaneios e passarinhos azuis voando para lugares que a gente só consegue imaginar.
Com o tempo, as pancadas viraram um bater insistente.
Com o tempo, os gritos dele se desfizeram em desculpas e súplicas.
E, por fim, finalmente, ele foi embora.
Esperei até ouvir a porta da frente bater e o som do carro dele sumir estrada afora antes de ousar sair da cama. Então, quando tive certeza de que ele tinha ido, enfiei algumas mudas de roupa da Willow na mochila dela e liguei para minha melhor amiga, para avisar que finalmente ia acontecer.
Nós estávamos indo embora.
Roxy entrou com tudo na garagem em menos de dez minutos. Eu apostaria tudo o que já tive na vida que ela passou em todos os sinais vermelhos no caminho.
Ela cumprimentou a Willow como sempre, escondendo a preocupação nos olhos atrás de um sorriso brilhante.
— Oi, princesa! Quer uma noite das meninas? Eu trouxe pizza e sorvete e três tipos de refrigerante!
— Quero! — Ainda com os olhos inchados, Willow praticamente se jogou no SUV da Roxy.
