Capítulo 2
POV da Arlene
A porta do meu quarto no hospital escancarou com um estrondo.
Caspian entrou a passos largos, com Serafina Cross pendurada no braço dele. Eu estava em trabalho de parto havia mais de vinte e quatro horas, e ele — porque Serafina tinha dado um ataque — me abandonou para ficar fazendo companhia a ela.
“Caspian.” Eu falei primeiro. “Vamos nos divorciar.”
Ele parou na hora.
“O que foi que você disse?”
“Eu disse que vamos nos divorciar.” Encarei os olhos dele, calma e firme. “Mas a nossa filha fica comigo.”
Rowena soltou uma risada gelada. “Você tá sonhando? Essa criança tem sangue Valcour. O que te faz pensar que você pode levar ela?”
“O fato de que ela saiu do meu corpo.” Apertei minha filha com mais força. “Eu pari ela. Eu vou levar ela comigo.”
“Você—”
“Arlene”, Serafina puxou de leve a manga do Caspian, com os olhos enchendo de lágrimas, “por favor, não faz isso... Eu sei que você me odeia, mas a criança é inocente... Só deixa ela ficar com os Valcour. Eles podem dar pra ela oportunidades que ninguém mais pode...”
Na minha vida passada, era exatamente esse tipo de encenação que me destruía.
Por fora, ela parecia estar falando por mim. Na prática, ela estava dizendo para todo mundo: Olha como eu sou boa. Olha como ela é ingrata.
“Senhorita Cross”, eu me virei para encará-la, com a voz sem emoção, “isso é um assunto de família entre o Caspian e eu. O que você tem a ver com isso — você, que é de fora?”
A expressão da Serafina oscilou por um instante.
“Arlene!” A voz do Caspian trovejou. “Como você se atreve a falar com a Serafina desse jeito?”
“Como eu me atrevo?” eu rebati. “Caspian Valcour, quem é ela? Com que direito ela está no quarto onde eu acabei de dar à luz?”
“Ela é a minha—”
“Sua o quê? Sua amante? Seu primeiro amor?” Eu cortei. “Mas ela não é sua esposa. Eu sou.”
O rosto do Caspian virou pedra.
Rowena bufou ao nosso lado. “E você tem o quê pra se achar? Se a Helen não tivesse obrigado, você acha que meu filho teria casado com você?”
“Você tem razão. Eu não sou digna da família Valcour.” Eu assenti. “Por isso eu estou concordando com o divórcio. Mas a minha filha vai comigo.”
“De jeito nenhum!” Aldrich finalmente se pronunciou. “Essa criança é uma Valcour. Ela fica!”
Eu recostei no travesseiro e fechei os olhos. “Se vocês não vão aceitar, então a gente fica nisso. Eu tenho todo o tempo do mundo.”
“Você—”
“Caspian”, Rowena se virou para o filho, “ela enlouqueceu de novo? Que golpe ela tá armando agora?”
O rosto da Rowena tinha ficado branco de raiva. A expressão do Aldrich parecia de tempestade. Caspian me encarava como se estivesse olhando para uma desconhecida.
Só Serafina puxou, em silêncio, a manga da Rowena.
“Rowena, não desce ao nível dela... Ela acabou de dar à luz, tá fraca, a cabeça não tá boa. Você sabe como ela é — quando ela quer uma coisa, ela sempre dá um jeito de conseguir...”
As palavras dela vinham carregadas de um sentido oculto.
Três anos atrás, quando Helen anunciou que eu me casaria com Caspian, ele se ajoelhou diante da avó, implorando para ela mudar de ideia. Jurou que Serafina era a única mulher com quem ele se casaria na vida.
Helen recusou.
Naquela noite, eu encontrei no quarto dele o anel de noivado que ele tinha preparado para Serafina. No meu desespero, eu engoli meia garrafa de remédio para dormir.
Quando me encontraram, eu estava inconsciente.
O problema no coração da Helen piorou com o choque, e ela obrigou Caspian a seguir com o nosso casamento.
Aos olhos deles, eu sempre seria a louca manipuladora que não parava por nada.
“Vamos deixar isso pra depois”, Rowena disse, impaciente.
Apesar do desprezo que tinha por mim, ela ainda tinha curiosidade pela própria neta. Ela não era burra a ponto de fazer mal ao próprio sangue.
Ela foi até a beira da cama e olhou para o bebê nos meus braços.
“Ela parece com o Caspian.” O canto da boca dela se mexeu de leve quando estendeu as mãos e tirou a criança de mim.
Eu não a impedi.
“Tão pequenininha.” Rowena segurou o bebê, e o rosto dela suavizou por um breve instante. “Aldrich, olha — ela tem os olhos da nossa família.”
Aldrich se inclinou para olhar e assentiu. “Tem mesmo.”
Foi então que Serafina se aproximou, de mansinho.
“Ai, que coisa mais fofa...” Ela estendeu as mãos, tentando pegar o bebê dos braços da Rowena. “Rowena, posso segurar ela?”
“Não!”
Eu me sentei de supetão, ignorando a dor rasgando o meu corpo, e empurrei Serafina para longe.
“Não encosta nela!”
Serafina cambaleou dois passos para trás e bateu no Caspian.
“Ah—” Ela soltou um grito, segurando o braço, e os olhos dela ficaram imediatamente marejados e vermelhos.
