Capítulo 4

POV da Arlene

Os dias viraram um borrão enquanto eu cuidava da minha filha sozinha.

Foi mais difícil do que eu jamais imaginei.

Dar de mamar, trocar fralda, ninar até ela dormir — cada tarefa me deixava atrapalhada e exausta.

Mas, toda vez que eu olhava para o rostinho dela, eu sabia que valia a pena.

Numa tarde, meu celular tocou.

Era a Helen.

Ela andava com a saúde debilitada nesses últimos dois anos, se recuperando fora do país.

Naquela família inteira, ela tinha sido a única pessoa que já tinha me tratado com bondade.

Na minha vida passada, foi ela quem mandou o Caspian me buscar e me levar de volta para a mansão depois que eu dei à luz.

— Vovó… — minha voz falhou.

— Arlene, eu voltei. — A voz da senhora era quente e gentil. — Soube que você teve o bebê… uma menina? Quero conhecer vocês duas.

— Vovó, eu…

— Venha à mansão amanhã — ela disse. — Tem uma coisa que eu preciso te contar.

Eu hesitei.

Voltar para a mansão?

Onde o Caspian estaria. Os pais dele. E… a Serafina.

Eu nunca mais queria colocar os pés naquele lugar.

Mas a Helen tinha sido boa comigo.

— Tudo bem — eu disse. — Amanhã eu levo a bebê para te ver.


Na noite seguinte, eu cheguei à mansão dos Valcour com a minha filha nos braços.

Parada diante dos portões, eu puxei o ar bem fundo.

Na minha vida passada, eu tinha parado ali incontáveis vezes, esperando como uma mendiga por qualquer migalha de atenção que o Caspian resolvesse me dar.

Agora, eu estava ali só para ver a vovó. E depois eu iria embora.

O mordomo me acompanhou para dentro.

— Arlene. — Caspian veio na minha direção, com a voz pingando deboche. — Eu sabia que você ia voltar rastejando.

Ele achou que eu tinha mudado de ideia?

— Eu vim ver a vovó — eu disse, fria. — Isso não tem nada a ver com você.

O sorriso de canto dele vacilou.

— Arlene — Serafina deu um passo à frente, com uma expressão ensaiada de preocupação. — Faz tempo.

Eu nem olhei para ela. — Onde está a vovó? Eu vim por ela.

— Estou bem aqui, minha filha.

Uma voz envelhecida veio da escada.

Helen desceu devagar, apoiada na bengala, com uma funcionária segurando o braço dela para firmá-la.

— Arlene, deixa eu ver a bebê.

Eu fui até ela e coloquei minha filha nos braços dela.

Helen embalou a pequena com um cuidado impecável, e um sorriso se abriu no rosto marcado pelo tempo.

— Linda… Ela se parece com você.

Meu nariz ardeu com a vontade de chorar.

— Vovó, tem uma coisa que eu preciso te contar.

— Por coincidência — ela levantou os olhos para mim — eu também tenho algo para te contar. Vamos para o meu quarto.


O quarto da Helen ficava no segundo andar.

Eu ajudei ela a se acomodar numa poltrona, enquanto a minha filha ficava tranquila no moisés ali perto.

— Vovó, eu…

— Espera. — Ela me interrompeu, enfiando a mão na mesinha de cabeceira para pegar um cartão. — Pega isso primeiro.

Eu encarei, sem entender.

— O que é isso?

— Vinte milhões de dólares. — Ela pressionou o cartão na minha mão. — Fica com isso.

— Vovó…

— Arlene — ela segurou minhas mãos, com o olhar firme — eu sei o quanto você foi infeliz nessa família. Eu sei exatamente como o Caspian e os outros te trataram.

— Eu estou velha. Minha saúde piora um pouco a cada ano. Eu tenho medo de que um dia, quando eu não estiver mais aqui, não tenha ninguém para te proteger.

— Por isso eu quero que você vá embora. E eu apoio a sua decisão.

Eu fiquei paralisada.

— Vovó… você está dizendo que apoia o divórcio?

— Sim. — Ela assentiu. — Minha filha, você ainda é jovem. Não tem motivo para desperdiçar sua vida aqui. Se o Caspian não consegue enxergar o seu valor, então deixe ele.

— Esses vinte milhões são das minhas economias pessoais. E, quando eu não estiver mais aqui, tudo o que eu tenho vai para você e para a bebê.

As lágrimas que eu vinha segurando finalmente transbordaram.

“Vovó...”

“Não chora.” Ela deu uns tapinhas na minha mão. “Só viva bem. Crie aquela menininha.”

Eu assenti, engolindo em seco para conter o nó na garganta.


Quando chegou a hora do jantar, Helen insistiu para eu ficar.

Eu queria recusar, mas a esperança nos olhos dela me fez ceder.

Nós cinco nos sentamos à mesa — Helen, Rowena, Aldrich, Caspian e Serafina.

O clima estava sufocante.

Rowena e Aldrich mal reconheciam a minha existência. Serafina ficava me lançando olhares de canto. O rosto de Caspian era uma nuvem carregada do começo ao fim.

Só Helen demonstrava alguma acolhida.

“Arlene, come mais. Cuidar de um bebê acaba com a gente.”

“Obrigada, vó.”

Serafina ergueu a taça e deu um gole.

“Helen, eu estive estudando violino fora nesses últimos dois anos. Tenho uma apresentação no mês que vem — você precisa ir.”

Helen assentiu, educada, mas não disse mais nada.

Eu mantive a cabeça baixa, concentrada na comida, me recusando a entrar na conversa.

E então—

“Ahh—!”

Serafina levou a mão à barriga, o corpo ficando mole enquanto ela escorregava da cadeira.

“Serafina!” Caspian saltou de pé e correu para segurá-la. “O que foi?”

“Minha barriga... tá doendo demais...” O rosto dela estava branco como papel, encharcado de suor. “Meu bebê...”

Bebê?

Eu congelei.

Ela estava grávida?

“Chama uma ambulância!” Aldrich gritou.

O caos se instalou. Colocaram Serafina numa maca.

Bem antes de levarem ela para fora, Serafina ergueu um dedo trêmulo e apontou para mim, com a voz falhando—

“Foi ela... Foi a Arlene... Ela colocou alguma coisa na minha bebida...”

Todos os olhos na sala se viraram para mim.

“Arlene!” Caspian avançou e agarrou meu pescoço, os olhos ardendo de raiva. “O que você fez?!”

O aperto dele esmagou minha traqueia. Meu rosto ficou em brasa, vermelho.

“Eu não—”

“Não? Você foi a única que encostou na bebida da Serafina!” Os dedos dele apertaram mais. “Você é mãe agora também — como você consegue ser tão cruel?”

Eu encarei o rosto dele, distorcido, e, apesar de tudo, eu ri.

“Caspian Valcour”, eu forcei cada palavra com o pouco de ar que ainda tinha, “você—ficou—maluco?”

Levantei a mão e dei um tapa no rosto dele com toda a força que eu tinha.

Ele ficou rígido.

Todo mundo ficou rígido.

“Acabou?” Eu esfreguei a garganta, fuzilando-o com um frio correndo nas veias. “Você me fez uma única pergunta antes de me atacar? Você me deu um segundo pra explicar?”

“Eu tô dizendo — eu nunca encostei na bebida dela.”

“Não acredita? Ótimo. Olha as câmeras.”

“E tem mais uma coisa —” Eu recuei um passo, sustentando o olhar dele sem piscar. “A minha bebida também estava naquela mesa. Como é que eu ia saber qual copo era o dela? Se você vai armar pra alguém, pelo menos inventa uma mentira mais inteligente.”

A expressão de Caspian mudou, escureceu, mudou de novo.

“Você—”

“Caspian”, eu interrompi, “você acabou de me perguntar como eu posso ser tão cruel. Deixa eu te perguntar uma coisa: você botou as mãos no meu pescoço sem uma migalha de prova. Quem é o cruel aqui?”

Eu me virei para Helen.

“Vó, me desculpa. Eu não posso ficar pro jantar.”

Então eu peguei minha filha no colo e fui em direção à porta sem olhar para trás.

“Arlene!” A voz de Caspian veio atrás de mim. “Volta aqui!”

Eu não parei.

Na soleira, eu pausei e olhei por cima do ombro.

“Caspian, a gente já se divorciou.” Minha voz saiu perfeitamente calma. “A partir de agora, você e eu não temos mais nada a ver um com o outro.”

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo