Capítulo 6 Lobinho Ferido

POV da Gen

A xícara tremia na minha mão. Três coisas se encaixaram ao mesmo tempo — o cheiro de pinheiro e ar de montanha, o timbre áspero da voz dele e a menção ao hospital.

Minha loba se agitou violentamente sob a minha pele, reconhecendo algo que a minha mente consciente não conseguia alcançar. O mesmo cheiro que tinha me envolvido quando aquelas garras enormes me pegaram no meio da queda. A mesma presença impositiva que tinha me mandado viver.

“Foi você”, eu soprei, com a voz trêmula. “Você que me salvou e me levou para o hospital?”

Um sorriso brincalhão curvou os lábios dele, deixando mais evidente a cicatriz fina que atravessava a sobrancelha direita. “A enfermeira não te contou? Eu sou o lobinho ferido.”

Atrás de mim, alguém soltou uma risada pelo nariz — e então o som morreu de repente.

Olhei por cima do ombro e vi que o estudante que estava dando risadinhas agora tinha travado no lugar, o sorriso se apagando na boca. Os outros estudantes da mesa dele tinham ficado rígidos, com os olhos arregalados e fixos em alguma coisa atrás de mim. A mão de uma garota tremeu de leve quando ela foi pegar a xícara de café.

O próprio ar parecia mais pesado, carregado de uma pressão invisível que fazia a minha loba querer expor o pescoço em submissão. Mais cabeças se viraram na nossa direção; estudantes se inclinavam uns para os outros para cochichar por trás das mãos, os olhos indo e voltando entre mim e o estranho na minha mesa.

O calor subiu para o meu rosto. Eu me virei de volta para encará-lo, e a vergonha rapidamente virou raiva. Ele claramente estava tirando sarro de mim, usando um apelido ridículo para debochar da mulher patética que ele tinha salvado de se matar.

“Eu sou muito grata pela sua ajuda”, eu disse, dura, com a voz apertada de humilhação. “Mas, por favor, não—”

“Meu Deus!”

O grito veio de trás. Eu me virei e vi um estudante se levantando num salto, a cadeira arranhando alto no chão. Ele segurava um exemplar do Financial Times, e com a outra mão apontava direto para a minha mesa.

“Ry… Ryker Sterling!” A voz do estudante falhou de empolgação. “É o Ryker Sterling! O herdeiro Alfa do Consórcio Sterling!”

O café explodiu. Cadeiras arrastaram. Celulares apareceram. Sussurros animados viraram conversa aberta enquanto todas as cabeças se viravam na nossa direção.

Eu fiquei paralisada, o nome entrando devagar. Ryker Sterling.

Eu estava afastada do mundo dos negócios havia anos, desde que Dominic me tirou do cargo e me empurrou para as margens da Propriedade Whitmore. Mas, mesmo no meu isolamento, eu sabia quem eram os Sterling.

Todo mundo em Oakhaven sabia quem eram os Sterling. O império financeiro deles dominava o horizonte da cidade, com influência enfiada em todas as grandes indústrias. O nome Sterling tinha um peso que nem os Whitmore conseguiam igualar.

E o herdeiro de todo aquele poder estava sentado no café da Piper, dizendo que tinha salvado a minha vida.

Minha loba se agitou de novo, atraída pela presença dele de um jeito que me apavorava. Eu dei um passo para trás sem querer, quase esbarrando na mesa atrás de mim.

“Eu não entendo”, eu disse, minha voz quase inaudível por cima da comoção crescente. “Por que um herdeiro Alfa salvaria alguém como eu?”

Ryker se levantou num movimento só, e eu precisei inclinar a cabeça para trás para manter o olhar. Ele devia ter perto de um metro e noventa, só músculo enxuto e uma elegância predatória.

“Você acabou de tentar me agradecer pela minha ajuda”, ele disse, e aquele sorriso brincalhão voltou. A voz dele desceu, só para mim, apesar da plateia nos observando. “É assim que você trata alguém que salvou a sua vida? Que de cortar o coração.”

Meu rosto queimou ainda mais. “Me desculpe, senhor Sterling. Eu não sabia quem o senhor era. Eu não quis—”

Ele ergueu uma das mãos, interrompendo meu pedido de desculpas. — Eu já coloquei meu número no seu celular. Quando você lembrar quem eu sou, você pode me ligar.

Antes que eu conseguisse processar aquilo, minha mão foi automaticamente até o bolso do jeans, onde meu celular estava.

— Aquele menininho nas suas fotos é muito fofo — ele disse, os olhos cinzentos presos nos meus. — Ele tem os seus olhos.

Então ele se virou e caminhou até a porta, as passadas longas levando-o através da multidão de estudantes boquiabertos. Eles se afastaram para ele sem nem pensar, os instintos de Alfa reconhecendo a dominância dele.

Eu fiquei parada, imóvel, encarando-o até a porta se fechar e ele sumir de vista.

A cafeteria ficou em silêncio por exatamente três segundos. Aí todo mundo começou a falar ao mesmo tempo.

Minhas mãos tremiam quando eu peguei o celular e rolei a lista de contatos. Lá, quase no fim, tinha uma entrada nova: Lobinho Ferido.

Eu levei a mão à boca, e escapou de mim um som em algum lugar entre uma risada e um soluço. Um herdeiro Alfa de um dos impérios financeiros mais poderosos do país, e ele tinha colocado em si mesmo aquele nome de contato ridículo.

Lembrei das palavras da enfermeira de ontem. “Seu amigo fez questão de devolver pra você.”

Amigo. Como se Ryker Sterling pudesse ser amigo de alguém, ainda mais meu.

Eu me movi no automático, recolhendo copos e pratos vazios das mesas próximas. Minha cabeça girava de perguntas. Por que ele tinha estado naquele penhasco? Como ele sabia que eu estaria lá? O que ele quis dizer com “quando você lembrar”?

Uma mão pousou no meu ombro.

Eu dei um pulo, e a louça nas minhas mãos inclinou perigosamente. O copo de cima deslizou na direção da borda da bandeja.

— Ei! — a mão da Piper disparou, agarrando o copo antes que ele espatifasse. — Calma aí. Você tá bem?

Eu pressionei a mão livre contra o peito, sentindo o coração martelar. — Você me assustou.

— Dá pra ver. — Piper tirou a bandeja das minhas mãos e colocou em segurança no balcão. Ela examinou meu rosto, preocupada. — Você tá com cara de quem viu um fantasma. Senta antes que você quebre alguma coisa de verdade.

Eu afundei na cadeira, minhas pernas de repente incapazes de me sustentar.

Piper puxou uma cadeira e sentou na minha frente, os olhos escuros brilhando com uma empolgação mal disfarçada. — Tá, desembucha. Você saiu da Whitmore Estate ontem à noite e hoje o Ryker Sterling aparece no meu café procurando por você? A sua sorte com homem ou é absurdamente boa ou é absurdamente complicada.

— Eu não conheço ele — eu disse depressa. — Eu juro, Piper. Tirando a parte em que ele me mandou pro hospital—

— Sei. — a expressão da Piper deixava bem claro que ela não acreditava em uma palavra. — Ele só “por acaso” te rastreou até uma cafeteria minúscula perto do campus pra bater um papo. Super normal pra um herdeiro Alfa.

— Eu tô falando sério. Eu não entendo nada disso.

— Gen. — Piper se inclinou, baixando a voz. — Aquele homem veio aqui especificamente pra te ver. Ele colocou o número pessoal dele no seu celular. Ele mencionou seu filho. Isso não é atitude de alguém que “só tá ajudando”.

Eu abri a boca pra discutir, mas fechei de novo. Ela tinha razão. Nada daquilo fazia sentido. Por que alguém como Ryker Sterling se importaria com uma ninguém como eu?

Meu celular estava na mesa entre nós, e aquele nome de contato ridículo me encarando como um desafio.

Eu tentei pensar em qualquer ligação que eu pudesse ter com Ryker Sterling. Qualquer momento em que nossos caminhos pudessem ter se cruzado. Mas minhas lembranças de antes do meu casamento pareciam distantes, embaçadas por seis anos do Dominic repetindo que o passado não importava.

Então eu lembrei da cicatriz.

— Aquela cicatriz — eu murmurei, minha mão indo sem perceber até a minha própria sobrancelha direita. — Na sobrancelha dele. Eu acho... que eu já vi antes.

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