Capítulo 1
EVE
Sou Eve Carter, filha de Robert Carter, o prefeito de LR City. No papel, eu devia estar vivendo o sonho americano — escolas particulares, conexões de família, uma vida perfeita para o Instagram. A realidade passava a quilômetros dessa fantasia.
Com 1,68 m e olhos cor de âmbar, eu estudava música em Columbia. Comecei no piano aos quatro anos e desenvolvi ouvido absoluto, mas meus talentos não passavam de enfeites para a carreira política do meu pai. Minha educação, minha aparência — tudo cuidadosamente cultivado como acessórios para a imagem pública dele.
Minha mãe acabou em estado vegetativo persistente depois de uma “queda” da escadaria da nossa mansão. Isso aconteceu logo depois de ela ameaçar meu pai com divórcio. Coincidência suspeita? Com certeza. Em seis meses, papai levou a amante, Jessica, para dentro de casa. Nove meses depois, nasceu meu meio-irmão, Ryan.
Papai criou Ryan como o príncipe herdeiro que ele nunca teve. Eu sempre soube que aquele garoto ia dar um problema sério um dia — só não imaginava que eu pagaria o preço. E que preço: Sean Winters.
Segundo meu pai, Sean era “só o filho do motorista” — alguém abaixo do nosso círculo social. Mas Sean contrariava todas as expectativas. Enquanto Ryan batia carros de luxo e sempre dava um jeito de se safar, Sean tirava notas máximas nas matérias avançadas e ganhava competições de ciência. Quando a gente se apaixonou, isso despedaçou os planos de todo mundo. Principalmente os do meu pai.
6 de junho, meu aniversário. A noite em que tudo mudou.
Os lábios de Sean desceram devagar pelo meu pescoço enquanto o luar atravessava as persianas do seu apartamento fora do campus. A cama de solteiro rangia sob nós, um contraste brutal com a minha cama king em casa, mas eu não teria trocado aquele momento por nada.
O quitinete dele revelava quem ele era — livros empilhados com cuidado ao lado de uma mesa gasta, certificados de bolsa fixados com capricho num quadro de cortiça, uma foto nossa no baile de inverno ao qual eu tinha escapado para ir.
“Tem certeza?” ele sussurrou, os olhos escuros procurando os meus à caça de qualquer hesitação.
Eu assenti, o coração batendo tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. As mãos calejadas dele se moveram pela minha pele com uma ternura inesperada.
“Pode doer”, ele avisou, afastando uma mecha do meu rosto com uma delicadeza que fez meu peito doer.
“Eu quero isso”, respondi, puxando-o para mais perto. “Eu quero você.”
Ele foi com cuidado, conferindo minha reação a cada passo. O desconforto se misturou com algo mais fundo, algo esmagador. No apartamento apertado dele, cercados por móveis de segunda mão, nós criamos algo profundo.
Enquanto a gente se movia junto, eu agarrei os ombros dele, de repente apavorada com a intensidade do que eu estava sentindo.
“Sean”, eu arfava, “a gente vai ficar junto para sempre?”
Os olhos dele se prenderam aos meus, suor brilhando na testa. Sem promessas floreadas, sem declarações elaboradas. Só uma palavra, sólida como rocha: “Sim.”
“Sean Winters, eu te amo.” As palavras escaparam antes que eu pudesse analisá-las.
Ele me puxou contra si, o coração dele martelando contra o meu. A voz saiu áspera quando ele falou no meu ouvido: “Eve, você é minha... sempre vai ser.”
Para sempre. Que piada essa palavra acabou sendo.
Eu já acreditei que promessas feitas pelados tinham mais peso. A verdade é que elas quebram ainda mais fácil. Naquela noite, buscamos a eternidade nos braços um do outro, cegos para a contagem regressiva que já tinha começado.
Seis semanas depois, eu estava no banco das testemunhas, as palmas suadas e uma pedra no estômago. O Fórum do Condado de Princeton estava lotado — imprensa local ao fundo, estudantes curiosos enchendo as galerias. O ar-condicionado estava no máximo, mas eu não conseguia parar de suar dentro do meu vestido azul comportado — aquele que a assessora de PR do meu pai tinha escolhido para “máxima simpatia”.
Sean estava na mesa da defesa, o macacão laranja pendendo folgado no corpo. Ele tinha emagrecido durante as duas semanas de detenção pré-julgamento. O advogado dele — algum defensor público sobrecarregado com uma gravata torta — ficava sussurrando em pânico no ouvido dele. Sean não estava ouvindo. Ele olhava direto para mim, a expressão indecifrável.
“Srta. Carter”, disse o juiz Harmon, ajustando os óculos, “por favor, confirme: a senhora estava com o réu, Sean Winters, no campus de Princeton na noite de 6 de junho?”
O microfone amplificou minha respiração. 6 de junho. Meu aniversário. A noite em que eu dei tudo ao Sean. A noite que eu achei que seria o começo da nossa história, não o fim.
“Sim, meritíssimo.”
“E a senhora presenciou o sr. Winters agredir outro estudante na festa do campus mais tarde naquela noite, resultando em ferimentos graves?”
Minha garganta se apertou. A verdade queimava dentro de mim. Ryan — meu meio-irmão arrogante, com aquela pose de colégio particular e o cartão de crédito de platina do papai — tinha sido quem espancara aquele bolsista quase até a morte. Não Sean. Nunca Sean.
Mas meu pai tinha tornado a escolha brutalmente simples: “Ou seu namorado vai para a prisão, ou o suporte de vida da sua mãe vai ficar ‘complicado’.” Foram essas as palavras exatas dele.
Sean ainda me observava, um lampejo de esperança nos olhos. Esse cara brilhante que tinha lutado para sair do nada e chegar a Princeton, que dava monitoria para calouros para ganhar um dinheiro extra, que resolvia equações diferenciais de cabeça — ele ainda acreditava em mim.
— Srta. Carter? — a impaciência do juiz cortou meus pensamentos.
Evitei olhar para meu pai na plateia. Em vez disso, encarei o selo do estado de Nova Jersey na parede.
— Sim — eu disse, com a palavra envenenando minha boca. — Por volta das 22 horas do dia 6 de junho, eu presenciei Sean Winters agredindo a vítima na festa do campus de Princeton.
O tribunal explodiu em sussurros. Eu me obriguei a olhar para Sean.
Aconteceu num instante — a luz nos olhos dele não se apagou aos poucos. Foi extinta como se alguém tivesse apertado um interruptor. A expressão dele se endureceu numa coisa que eu nunca tinha visto antes, uma coisa que não pertencia ao rosto dele. Naquele momento, eu soube: o Sean que eu amava tinha acabado de morrer, e eu era a executora.
— Sr. Winters — perguntou o juiz —, o senhor tem algo a dizer em sua defesa?
Os olhos de Sean não saíram dos meus.
— Não, meritíssimo — respondeu, com a voz desprovida de emoção. — Não tenho nada a dizer.
O juiz assentiu, consultando suas anotações.
— Dada a gravidade dos ferimentos, as potenciais incapacidades de longo prazo da vítima e seus conflitos anteriores documentados com a vítima, eu o condeno a três anos em prisão estadual e ao pagamento de uma multa de cinquenta mil dólares.
O martelo desceu com um estalo que ecoou dentro dos meus ossos.
Enquanto os agentes se aproximavam para escoltar Sean para fora, ele finalmente desviou o olhar de mim. Os promotores apertaram as mãos. Meu pai fez um leve aceno de onde estava sentado. Missão cumprida.
Três dias depois, eu estava na sala de visitas da cadeia do condado, um vidro grosso me separando de Sean. Nós dois segurávamos aqueles telefones antigos — nada de videochamadas chiques para detentos do condado.
— Eu vou dar um jeito de consertar isso — prometi, pressionando a palma contra o vidro gelado. — Vou dizer a verdade, Sean. Eu juro.
Ele me encarou de volta, olheiras escuras sob os olhos, o rosto magro.
— Eve Carter — ele disse, e meu nome soou imundo na boca dele —, acabou.
— Sean, por favor, escuta—
— Cala a boca. — Ele tirou algo do bolso: meu caderno de desenhos. Aquele cheio de desenhos que eu tinha feito dele ao longo do nosso tempo juntos. Desenhos dele dormindo, rindo, estudando. Desenhos que ele disse, um dia, que guardaria para sempre.
— Lembra disso? — perguntou, com a voz lisa.
Sem esperar resposta, começou a rasgar as folhas. Metodicamente. Uma por uma. Cada rasgo ecoava pelo fone.
— Sean, para— — Minha voz falhou.
— Sean e Eve — ele disse, frio. — Acabou. Para com esse teatrinho de namorada preocupada. Volta pro seu casarão e pra sua vida privilegiada. Eu vou apodrecer aqui como seu pai queria.
— Me desculpa — sussurrei, as lágrimas descendo pelo meu rosto. — Eu não tinha escolha.
— Sempre existe uma escolha. — Ele amassou os papéis rasgados dentro do punho. — Você fez a sua.
— Por favor—
— Terminou. Graças a você. — Cada palavra acertou como um tapa.
Graças. A. Você.
O guarda anunciou que o horário de visita tinha acabado. Sean se levantou e, de propósito, pisou nos pedaços espalhados da minha arte.
— Sean! — eu gritei, batendo a palma no vidro.
Ele foi embora sem olhar para trás.
Apertei o fone com força contra a boca, sussurrando palavras que ele nunca ouviria:
— Estou grávida. A gente vai ter um bebê, Sean.
O guarda fez sinal para eu sair. Eu desliguei o telefone, a mão tremendo.
Para sempre. Uma promessa vazia agora, enterrada sob traição e perda.
A vida crescendo dentro de mim — nossa filha — seria minha expiação. Eu tinha escolhido minha mãe em vez de Sean, sacrificando a liberdade dele e o nosso amor. Agora eu carregava o peso de duas vidas arruinadas, uma salva, e uma que mal começava.
Meu pai tinha me forçado a uma escolha impossível. Ele nunca soube que me fez escolher entre dois pais.
Coloquei a mão na barriga. Sean podia me odiar para sempre, mas uma parte dele viveria nessa criança — o único pedaço dele que eu ainda podia proteger.
De algum jeito, um dia, eu consertaria tudo. Mesmo que isso significasse destruir meu pai.
Algumas dívidas nunca podem ser pagas. Mas esta... eu passaria a vida tentando.
