Capítulo 2

EVE

Seis anos depois

A enorme tela de LED dominava o distrito financeiro de Manhattan, o rosto de Sean pairando acima da rua lotada. Parei do lado de fora de uma empresa, com mais uma carta de rejeição amassada na bolsa.

— Sr. Winters, a que o senhor atribui seu sucesso sem precedentes? — perguntou o entrevistador na tela.

Os olhos de Sean — mais duros e frios do que eu lembrava — encararam a câmera. — O ódio é um excelente motivador.

A multidão ao meu redor aplaudiu. Eles não podiam saber que aqueles olhos costumavam se estreitar quando ele ria. Que aqueles lábios costumavam sussurrar promessas no meu cabelo à noite.

O entrevistador insistiu: — Houve rumores sobre o seu passado. Seus três anos na prisão e a mulher que testemunhou contra o senhor—

Sean o interrompeu, a expressão se fechando. — Às vezes, curiosidade não é uma coisa boa.

Meu estômago se apertou. Seis anos, e ele ainda não conseguia nem se referir a mim diretamente.

Eu merecia. Cada pedaço do ódio dele. Cada segundo do desprezo.

— Você podia ter dito a verdade — minha mente berrou. — Você podia ter salvado ele.

Mas eu não podia. Não com a vida da minha mãe por um fio. Não com a faca de Jessica na garganta dela.

Meus dedos tocaram o anel de prata pendurado no meu pescoço. S&E gravado por dentro. Seis anos, e eu ainda o usava.

Continuei andando, a carta de rejeição na mão. Ter sido demitida da NBC New York me colocou na lista negra em todo lugar porque eu tinha ofendido Sean. Sem trabalho, sem renda.

Conferi minha conta bancária: US$ 214,63. Pensei em Grace, nossa filha. Ela nasceu com um problema no coração, uma vida frágil desde o começo — um eco aterrorizante do dia em que eu desabei sangrando naquela sala de espera da prisão, depois de perceber que estava grávida dela. E ainda tinha a mensalidade da escola vencendo na semana que vem e o aluguel na outra.

Sem trabalho. Sem economias. Sem opções.

Tirei o cartão que Natalie tinha me dado. “Mirage Lounge” em letras prateadas, com “Bob Johnson” e um número de telefone.

— Eles pagam quinhentos por noite para músicos clássicos — ela tinha me dito ontem. — Não é a Filarmônica, mas paga em dinheiro.

Engoli em seco. Por Grace. Tudo por Grace. Minha menina precisava de mim.

— Você toca lindamente — disse Bob, me observando afinar o violino na salinha dos fundos do Mirage Lounge. — Nossos clientes pagam caro por classe.

— Comece no salão principal — continuou ele. — Tem pedido de VIP hoje à noite. Gasta muito. Trabalho fixo se ele aprovar.

Minhas mãos tremiam ao ajustar as cordas. Aquilo não era mais o meu mundo. Mas o remédio para o coração da Grace não ia se pagar sozinho.

O lounge gritava dinheiro — lustres de cristal, sofás de couro, garçons em uniformes impecáveis. Toquei por duas horas seguidas, Bach e Vivaldi fluindo enquanto homens ricos observavam por cima de uísques caros.

Às dez, um funcionário se aproximou. — Sala VIP. Vem comigo.

Peguei o violino e fui atrás dele por um corredor até uma suíte privativa. Meu coração acelerou quando ele bateu.

— Senhores, o entretenimento de vocês chegou.

A porta se abriu, e meu mundo desabou.

Nathan Hall — o parceiro inseparável de Sean e marido de Natalie naquele casamento de fachada. Lucas James — colega de quarto de Sean na faculdade, segundo maior acionista da empresa dele, um garoto que eu conhecia do colégio e o braço direito de Sean. E lá estava o próprio Sean, de costas, como se eu não existisse.

Nathan abriu um sorriso torto, o reconhecimento acendendo nos olhos. — Ora, ora, vejam só quem é. A princesa caída de LR City.

Minha garganta se fechou quando Sean se virou.

Seis anos o tinham endurecido. O sucesso tinha esculpido o garoto que eu amei até sobrar esse homem frio e poderoso. Os olhos dele encontraram os meus, mostrando um lampejo de alguma coisa — raiva? dor? — antes de ficarem completamente vazios.

— Eu… eu devia ir — sussurrei, recuando na direção da porta.

— Fica. — Lucas se levantou, visivelmente desconfortável. — Eve, eu não sabia—

— Tudo bem — cortei, antes que ele terminasse. — Eu estou aqui para trabalhar. Meus dedos apertaram o estojo do violino com força suficiente para doer.

— Claro que está — Nathan zombou. — De âncora da NBC a entretenimento de boate. O que vem depois, Eve? Pedir esmola no metrô?

Mantive os olhos baixos, me perguntando se algum dinheiro valia aquela humilhação. O rosto de Grace brilhou na minha mente. Sim. Valia.

Toquei Tchaikovsky, meus dedos se movendo de forma mecânica enquanto minha cabeça gritava. Seis anos evitando ele, e agora era isso.

Depois de vinte minutos, guardei o violino. — Obrigada pelo tempo de vocês, senhores.

Virei para sair.

— Fique parada.

A voz de Sean cortou o ar. Baixa. Imperativa.

Congelei, incapaz de encará-lo de novo.

— Sr. Winters, o senhor tem mais algum pedido? — perguntei, de algum modo mantendo a voz firme.

—Podia se dizer isso.

Ouvi ele se mexer atrás de mim, perto o bastante para o perfume dele me alcançar, o mesmo de todos esses anos.

—Olha pra mim —ele exigiu.

Virei devagar. —O que posso fazer pelo senhor, Sr. Winters?

A boca de Sean se curvou num traço que não chegava a ser um sorriso. —Bebe com a gente.

—Eu estou trabalhando —respondi no automático.

Os olhos dele se estreitaram. —Eu pago.

Ele pegou uma garrafa de Grey Goose da mesa. Meu estômago despencou. Ele lembrava da minha alergia. Claro que lembrava.

Sean jogou um maço grosso de notas de cem dólares sobre a mesa. —Termina essa garrafa. O dinheiro é seu.

—Sean —Lucas começou—, isso é—

—Não se mete —Sean interrompeu, sem desviar os olhos de mim.

Meu coração disparou. Eu precisava desesperadamente daquele dinheiro. Mas álcool me levava a um choque anafilático — algo que Sean sabia melhor do que qualquer um.

—Sr. Winters, eu sou alérgica a álcool —eu disse, baixo.

A expressão dele continuou fria. —É mesmo? Não me lembro.

Mentiroso. Foi ele quem me levou ao pronto-socorro em Princeton quando eu bebi, sem querer, ponche batizado. Ficou a noite inteira. Prometeu que nunca mais ia me deixar chegar perto de álcool.

Encarei o dinheiro. Três mil cobririam a medicação da Grace por meses.

—Quanto? —perguntei.

—Três mil e quinhentos —Sean respondeu, seco. —Uma garrafa. Um belo pagamento.

A medicação da Grace. A mensalidade da escola. O aluguel atrasado.

—Tá bom —eu disse, forçando um sorriso. —Eu bebo.

Estendi a mão para a garrafa, mas Lucas segurou meu pulso. —Eve, para. Você pode morrer.

—Lucas —Nathan cortou—, desde quando o assunto do Sean com a Eve virou seu?

Eu me soltei, destampando a garrafa. —Tá tudo bem.

O primeiro gole queimou minha garganta, jogando um pânico imediato pelo meu corpo. Minha garganta apertou, o calor subiu para o rosto.

—Feliz aniversário, Sr. Winters —consegui dizer, dando outro gole.

Sean observou, impassível, enquanto vergões vermelhos surgiam no meu pescoço e nos meus braços. Não restava nada do homem que um dia me segurou a noite toda num pronto-socorro.

No quarto gole, minha visão embaçou. Lucas arrancou a garrafa da minha mão.

—Chega! Ela tá tendo uma reação. Isso é loucura.

Eu cambaleei, agarrando a borda da mesa. —Obrigada pela generosidade. Eu… eu devo ir.

Sean não respondeu, mas também não me impediu.

Nathan jogou o dinheiro em mim, e as notas se espalharam pelo chão. —Tá aí seu dinheiro, princesinha.

Caí de joelhos, juntando as notas com as mãos tremendo. —Obrigada, senhores.

O sapato polido de Sean pisou na última nota de cem dólares quando eu estendi a mão para pegá-la. Olhei para cima, as lágrimas se acumulando.

—Sr. Winters —sussurrei, e uma lágrima caiu no couro dele. —Por favor.

—Tá com pena de si mesma? —Sean perguntou, a voz perigosamente baixa.

Balancei a cabeça. —Não. Nunca. Eu mereço isso.

—Merece? —Os olhos dele perfuraram os meus. —Aqueles três anos na prisão… 1.095 dias… eu vivi exatamente assim. Humilhado. Desesperado. Lutando pra sobreviver.

Ele levantou o pé, me deixando pegar a última nota. —Considere isso como juros do que você me deve. Um presente de aniversário.

Apertei o dinheiro, me pondo de pé sem firmeza. Minha garganta estava se fechando de um jeito doloroso.

—Feliz aniversário, Sean —eu sussurrei, pegando o estojo do meu violino.

Na porta, a voz de Sean me parou. —O colar. Tira.

Minha mão tocou o aro de prata no meu pescoço. —Eu… eu não posso.

—É meu —ele disse, sem emoção.

Balancei a cabeça, recuando. —Eu uso isso há seis anos. Por favor, só deixa eu ficar com essa única coisa.

—Sai daqui —Sean rosnou. —Sai antes que eu tire mais do que só o que é meu.

Eu fugi, dinheiro numa mão, violino na outra. Atrás de mim, um vidro estourou contra uma parede.


O apartamento estava escuro quando eu tropecei para dentro, ainda lutando contra os efeitos do álcool. Eu tinha vomitado duas vezes no caminho de volta e engolido anti-histamínicos que não eram fortes o bastante.

—Grace? —chamei, acendendo as luzes. —A mamãe chegou, meu amor.

Nenhuma resposta.

O pânico me atravessou. —Grace!

Corri para o quarto dela. Ela estava encolhida, o rosto vermelho de febre.

—Mamãe —ela choramingou, a vozinha fraca. —Meu peito tá doendo muito.

Toquei a testa dela. Pegando fogo. Os lábios estavam com aquele tom azulado que eu tinha aprendido a temer.

—Vai ficar tudo bem, meu bem —eu disse, erguendo o corpinho dela. —A gente vai pro hospital.

Lá fora, a chuva desabava. Sem táxis. Sem carros. Meu celular, morto.

Enrolei Grace no cobertor e saí correndo pela rua, o corpo dela pesado nos meus braços. A chuva encharcou nós duas enquanto eu gritava para os carros que passavam.

—Por favor! Minha filha precisa de ajuda!

Os carros aceleravam, espirrando água suja em cima da gente.

—Por favor! Alguém! Ela precisa de um hospital!

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