Capítulo 4 Capítulo 3

Faltando poucos minutos para às cinco da tarde, começo a juntar meus pertences, imaginando o trânsito caótico que teria que enfrentar até chegar na escola de Renata.

–  Tem algum cliente para amanhã? – Maurício pergunta, sem tirar os olhos da tela do computador.

–  Os que estão agendados estão na agenda.

           Ele estende a mão.

–  Seu Maurício, preciso ir. Ainda tenho que buscar minha filha na escola.

           Ele me olha estreitando os olhos, com a expressão incrédula.

–  Você pode chegar atrasada. Mas não pode se atrasar para buscar sua filha?

 –  Ela é uma criança – argumento.

–  E você está trabalhando – Ele força um sorriso.

            Me aproximo da mesa, abrindo na página da agenda do dia seguinte.

–  Leia para mim, Gabriela.

           Leio cada horário o mais calma que posso.

           Quando termino, fecho a agenda, colocando a alça da bolsa em meu ombro.

–  Tenha uma boa noite, senhor Maurício.

–  Espero que não chegue atrasada amanhã.

          Não respondo, invés disso, saio de cabeça baixa.

         O ônibus da volta estava cheio como na ida, esvaziando apenas poucos pontos antes de eu descer.

          Praticamente corro até a escola, após saltar na minha parada, encontrando a escola já fechada e Renata me esperando com a porteira.

–  Obrigada. Deus abençoe – digo para a  porteira que apenas sorri, antes de ir embora.

–  Você demorou – Renata comenta quando começamos a andar na direção de casa.

–  Eu sei.

           Ficamos em silêncio por alguns segundos.

–  Tenho lição de casa.

–  Ajudo você.

–  É de matemática.

            Balanço a cabeça assentindo.

            Estava quase escurecendo quando finalmente chegamos em casa.

–  Olha quem chegou – diz vô Alceu, sentado diante da TV.

–  Fiz um desenho pra você, biso – Renata tira uma folha um pouco amassada de dentro da mochila lilás.

–  Ah, mais é muito bonito – diz vovô estreitando os olhos – Foi você mesmo que fez? – Ela assentindo sorrindo – Está de parabéns.

–  Renata – Chamo, a fazendo me olhar de imediato – Para o banho. Agora.

–  Ah, mãe, deixa eu descansar.

–  Agora, Renata – Paro ao lado dele, afagando seu ombro – Oi, vô.

       Ele fecha a cara, voltando a olhar para a televisão.

–  Não devia ser tão dura com a menina.

       Solto o ar dos pulmões, indo para a cozinha no intuito de começar a fazer o jantar.

        Abro a geladeira notando as poucas verduras e legumes, mas principalmente a mistura que só daria para aquela noite.

–  Não tem mais mistura, não é? – pergunto quando dona Marta entra na cozinha.

–  Este mês o dinheiro mal deu para pagar as contas e fazer alguns exames do seu avô.

–  Vou resolver isto com as meninas – digo tirando o pote da geladeira.

–  E como foi lá no estágio hoje?

–  Como todos os dias, vô. Sempre com alguém precisando de um advogado.

–  Logo será você que as pessoas irão procurar – diz sonhadora, afagando meu braço.

       Como queria poder mostrar que era capaz e fazer todo o sacrifício valer a pena.

        Só quer infelizmente me via sem muitas opções naquele escritório.

         O jantar naquela noite foi o básico de todos os dias, o velho arroz, feijão e carne moída.

–  Será que a Gio vai demorar? – Ela pergunta pouco depois de eu tirar os pratos da mesa para lavar.

–  Pode deitar. Tranco tudo.

–  Verifica se tá bem fechado, tá bom?

        Balanço a cabeça assentindo.

       Com um copo de água, ela deixa a cozinha, chamando em seguida meu avô para se deitar.

        Era sempre a mesma rotina.

         Pratos lavados e cozinha limpa, desligo a luz, encontrando Renata dormindo no sofá, após quebrar a cabeça com a lição de matemática enquanto eu fazia o jantar.

         Depois de colocar ela na cama, volto para a sala, onde me coloco a esperar minhas irmãs em frente a TV.

         Não demora para que Gio entre em silêncio em casa, respirando fundo ao se sentar no sofá.

–  Ainda tem comida? – pergunta com os olhos fixos na TV, a expressão cansada.

–  Guardei um pouco para você e a mistura acabou.

          Para a alegria de dona Marta, Gio e Giulia havia optando também pela advocacia e sempre dizia com o maior orgulho que tinha três netas doutoras. Apesar de ainda não podermos lhe dar uma vida tranquila e confortável, éramos seu orgulho.

         Gio havia conseguido fazer uma parceria com uma amiga e alugado uma sala em um prédio na zona leste. Aos poucos, conseguiam clientes e pagar o aluguel e a conta de energia.

          Assim como Giulia que atuava na profissão, porém precisava trabalhar como vendedora em uma loja de sapatos para conseguir pagar a especialização que queria.

- Vai dormir, Gabi. Amanhã irei dar um jeito na mistura.

          Minha vontade era dormir ali mesmo, por todo o cansaço físico e mental que estava sentindo. Como sabia

que acordaria toda dolorida, optei por dormir na minha cama.

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