Capítulo 1 1
Kate
O jardim tem um gramado tão extenso que parece não ter fim. Corro por ele junto com todas as crianças sem me cansar, enquanto olho toda a extensão do jardim. Depois, corro em direção aos balões coloridos que formam um enorme arco no portão. Sim, há muitas crianças espalhadas por aqui, rindo e se divertindo por toda parte, e há muitos adultos também.
— É hora de cantar os parabéns, Kate, vem, princesa! — minha mãe grita.
Empolgada, corro em sua direção, abrindo um enorme sorriso. É meu aniversário de sete anos e há um enorme bolo das princesas com uma vela brilhante no topo, bem no centro da mesa. Há também muitas bandejas com docinhos de todas as formas e cores. Papai me olha sorridente e as crianças se juntam para cantar parabéns para mim. Meus olhos percorrem ávidos os balões coloridos, os enfeites e os convidados felizes, que batem palmas enquanto cantam animadamente. Estou feliz. Estou muito feliz.
— Vamos brincar de pique-esconde, Kate. Vem! — meu irmão me chama.
Claro que me animo. Deixo o lanche de lado e corro em sua direção. Caio começa a contar e todas as crianças se espalham pelo grande jardim, tentando se esconder. Imediatamente corro para a área da piscina, onde há uma casinha — o meu esconderijo preferido.
“Aqui ninguém me encontrará”, penso, e sorrio para a minha astúcia.
Ofegante, abro a porta da casinha, entro e fico lá quietinha, esperando Caio me encontrar. Passo longos minutos lá dentro até ficar entediada, pois, exatamente como pensei, ninguém me encontrou.
“Já está ficando chato esperar!”, penso, e decido sair do meu esconderijo.
Assim que abro a porta, encontro um par de sapatos pretos parados bem na saída da casinha. Sigo com os olhos as pernas acima até ver um homem alto vestindo um conjunto de terno cinza. Ele tem um chapéu no alto da cabeça, porém não consigo ver o seu rosto. Ele diz algo que não consigo entender e me estende a mão. Sem contestar, seguro a mão dele e ele caminha comigo pelo jardim. Contudo, entro em pânico quando percebo que está me levando para longe da minha casa e da minha festa.
— Quero voltar para a minha casa — peço, mas ele não me escuta e não faz o que peço.
Ao invés disso, o homem abre a porta do seu carro e me tranca dentro dele. Agitada e com medo, peço para sair, mexo na porta, mas não consigo abri-la. Então começo a chorar e a gritar.
— Mamãe!!! — olho para trás e grito por ela.
Entretanto, ela não me escuta. Entre lágrimas, olho para o seu rosto sorridente, que fica cada vez mais distante de mim.
— Abre! Abre! Eu quero sair! — berro e bato no vidro. — Mamãe! Mamãe! Por favor!
(…)
Acordo com um grito desesperado e choro, abraçando as minhas pernas, encolhendo-me em cima da cama de solteiro. Tenho esse tipo de pesadelo desde que me entendo por gente. Não faz sentido sonhar com uma família que nunca tive na vida, nem sequer vi.
A minha vida inteira vivi em um orfanato aqui na Inglaterra, e as freiras sempre me contaram que fui a única sobrevivente daquela tragédia. O fato é que não me lembro de exatamente nada daquele dia e não encontraram parentes vivos para cuidar de mim, o que me levou direto para um orfanato. Os psicólogos achavam que eu acabara transferindo a ideia de ter uma família para os meus sonhos, como uma fixação; porém, eles não conseguiam explicar o homem estranho e sem rosto que aparecia nos meus sonhos e que me carregava para longe da minha suposta família. Ainda dentro do orfanato, fiz diversos acompanhamentos com psicólogos e psiquiatras; contudo, os pesadelos sempre me acompanharam. Não importa onde eu esteja ou aonde eu vá.
Suspiro baixinho depois de um tempo, observando a chuva forte caindo lá fora. As gotas de água grossas e pesadas molham a vidraça da janela do meu quarto e descubro que o som forte que me tirou do pesadelo foi um trovão intenso, seguido de um luminoso raio. Com outro suspiro, seco as minhas lágrimas e decido tomar um banho quente para tentar me acalmar.
Amanhã é o meu primeiro dia de trabalho graças a Quênia, uma senhora que conheci após três dias perambulando pelas ruas de Londres, desde que saí do orfanato Strawberry Fields, em Liverpool, na Inglaterra. Confesso que tenho boas lembranças daquele lugar; era a única família que eu conhecia de verdade. Lá eu tinha centenas de irmãos e irmãs, e as freiras cuidavam bem da gente. Tínhamos uma rotina de estudar, fazer orações, brincar no pátio, ler e até horário certo para dormir e acordar.
Encerro o banho demorado, me seco e visto uma roupa quentinha, pois a Inglaterra está especialmente mais fria nessa noite. Por fim, dedico-me a secar os meus cabelos com a ajuda de uma toalha e volto para a cama. São três da madrugada e perdi completamente o sono. É sempre assim: depois dos pesadelos tomo um banho e não tenho mais sono; então leio até o dia amanhecer e eu poder me ocupar de verdade.
Pego um livro sobre fotografias e suas artes, porque dona Quênia me informou que irei trabalhar para um fotógrafo brasileiro reconhecido mundialmente e preciso ter algum conhecimento no assunto. Horas depois, olho pela janela e encontro o dia amanhecendo. A chuva já parou; porém, o céu continua demasiadamente nublado.
Agora são cinco da manhã; no entanto, o meu despertador está programado para tocar às seis. Ainda assim, resolvo sair da cama e procurar uma roupa adequada para o frio e para o trabalho. Escolho uma blusa de lã azul-marinho, um jeans desbotado, uma bota de cano curto e um casaco igualmente escuro. Opto por deixar os meus cabelos escuros e ondulados soltos e cubro a cabeça com uma touca de lã preta. Só então saio do quarto.
Desço as escadas e encontro dona Quênia acordada, preparando o café da manhã na cozinha. Confesso que o cheiro está delicioso! Ela me sorri carinhosamente e me convida para a mesa.
Dona Quênia é uma senhora de pelo menos sessenta anos e seus cabelos, antes negros, agora têm a maior parte grisalhos. Ela é corpulenta, tem as bochechas rosadas e seus olhos verdes estão sempre risonhos. O mais interessante é que, mesmo sem me conhecer direito, ela tem por mim o carinho de uma mãe.
