Capítulo 2 2
Kate
Quando me encontrou na praça Trafalgar Square, eu estava sentada em um banco de concreto bem próximo a uma fonte. Lembro-me de que me sentia perdida naquele mundo e já tinha andado o dia inteiro entregando currículos que continham as informações dos cursos básicos que fiz no orfanato. Algo triste das empresas por onde passei era que algumas me pediam números de telefone para contato — coisa que eu não tinha — e outras me davam um “não” de cara. Eu estava com fome, com sede e cansada, e ela se aproximou e começou a conversar comigo. Surpreendi-me quando me pagou um lanche e me ajudou. Ofereceu-me um lugar para ficar, comida e um emprego. Enfim, ainda não sei bem o que farei nesse trabalho, mas estou ansiosa para começar.
— Tome, querida, coma e tome seu café. Richard virá buscá-la para levá-la ao seu trabalho.
— O que exatamente vou fazer nesse trabalho, Quênia? — pergunto enquanto tomo um gole do meu café preto fumegante.
— Você vai trabalhar para o senhor Reid Maddox. Como te contei, ele é brasileiro e está abrindo uma filial aqui na Inglaterra. Pelo que entendi, você vai ajudá-lo no que ele precisar. Não sei exatamente em quê, mas é como se fosse a assistente dele.
Apenas assinto com a cabeça e mordo um pedaço do meu bolo de cenoura. Assim que termino o café, subo as escadas apressada e volto ao meu quarto. Escovo os dentes, faço uma maquiagem rápida, pego as luvas e a bolsa e desço para esperar Richard me buscar.
Richard é irmão de Quênia; vive na casa ao lado com a esposa e dois dos três filhos. O mais velho já se casou e mora no centro de Londres. Ele é mais velho do que Quênia, é alto e magro, mas tem uma barriga um pouco saliente. Tem uma barba grisalha bem tratada e é calvo.
Às sete e meia escuto a buzina na frente da casa e, no segundo seguinte, a porta se abre e o homem entra, abraçando a irmã com carinho. Ansiosa demais, sigo para a caminhonete dele, um Toyota azul. Logo estamos seguindo pelas ruas de Londres até chegarmos a um prédio luxuoso, com janelões de vidros escuros. Na frente dele há uma fachada com o nome Photos Tech & Cia, na cor prata.
Richard me ajuda a descer da caminhonete e me pede para procurar uma mulher chamada Aretuza. Explica que é ela quem me dará as devidas instruções. Empolgada, aceno com a cabeça e entro no prédio. Inevitavelmente observo o ambiente ao meu redor e me deparo com uma decoração totalmente moderna: poltronas de couro em tons pastéis com preto, vasos com plantas, quadros de fotos de vários estilos — natureza, pessoas, carros, animais… cada um mais lindo que o outro!
Ainda admirada com tudo o que vejo, vou direto à recepção, que tem um balcão todo de vidro escuro em formato de U; atrás dele há uma atendente. Limpo a garganta antes de falar qualquer coisa, chamando-lhe a atenção.
— Bom dia! Estou procurando a Aretuza.
A morena de porte elegante tira os olhos do computador e me olha nos olhos.
— Sou eu mesma. Em que posso ajudá-la? — fala, abrindo um sorriso tranquilo.
— Meu nome é Kate Schmid, e vim…
— Ah, claro! Eu estava te aguardando — informa, sem deixar o sorriso. — Venha comigo; o senhor Reid chegou há dois minutos. Vou levá-la até a sala dele.
Ela contorna o balcão e faz sinal para que eu a siga até um elevador com portas de aço. Dentro da cabine de paredes espelhadas, concentro-me nos números vermelhos logo à frente, porque não sei exatamente para onde olhar nem o que falar.
— Você será assistente de Reid. Ele vai te ensinar algumas coisas, já que é o seu primeiro emprego e você não deve ter experiência alguma. Faça tudo como ele disser e, se em trinta dias fizer tudo direitinho, o emprego será seu; caso contrário, Reid a dispensará. Ele é um homem muito ocupado e precisa de alguém dinâmico e que aprenda rápido para conseguir trabalhar bem.
— Não se preocupe; ficarei atenta e darei o meu melhor — digo.
Ela me lança um olhar complacente e continua:
— Eu espero que sim. Só estou te dando essa chance porque Quênia me pediu, mas se não der certo para você, lavo as minhas mãos.
Meneio a cabeça e o elevador faz sinal de que chegamos. As portas duplas se abrem e o que vejo parece mais um gigantesco estúdio de cinema do que de fotos. Há uma variedade enorme de figurinos, enormes painéis em vários lugares, pessoas vestidas só com roupas íntimas, glamourosas, estilo cowboy e muito mais… estantes com uma variedade assustadora de lentes, câmeras e…
— Reid? — desperto do meu “tour” quando Aretuza o chama.
O rapaz se vira para a nossa direção e eu me pego vidrada em seu rosto. Santo Deus! O cara parece um galã de cinema. Sem conseguir evitar, passo os olhos discretamente pela pele morena que cobre um corpo alto e paro na barba bem desenhada no rosto quadrado. Os cabelos escuros têm um corte moderno, bem rente à nuca. Os olhos castanhos escuros…
— Aretuza! Que bom vê-la por aqui! — Ele beija o rosto da garota e, na sequência, a abraça. Quando se afasta, o par de olhos escuros vem para mim.
Aretuza se afasta e faz sinal para eu me aproximar. Com um suspiro sutil, dou alguns passos para perto dele e ela faz as devidas apresentações.
— Essa é a garota de que te falei. O nome dela é Kate Schmid e será a sua nova assistente. Lembra que te falei, não é?
O homem me olha da cabeça aos pés, assentindo com a cabeça.
— Ótimo! Kate, esse é o seu chefe, Reid Maddox.
Estendo-lhe a mão para cumprimentá-lo, mas ele apenas olha para ela. Constrangida, a recolho imediatamente.
— Prazer em conhecê-lo, senhor Reid.
Aretuza se retira logo em seguida, desejando-me boa sorte, e eu bufo mentalmente, pois não sei exatamente o que fazer aqui.
