Capítulo 4 4
Reid
Pego o celular e envio uma mensagem para mamãe, avisando que já cheguei, para tranquilizá-la. O relógio em cima do criado-mudo marca três da madrugada; então, no Brasil ainda é meia-noite. Ela visualiza a mensagem e me manda um beijo em seguida.
Vou para a sala, bem decorada com móveis modernos, e me sirvo de um drink no frigobar, que fica bem próximo a uma parede de vidro. Sento-me no sofá de camurça cor de mostarda e bebo o uísque enquanto fito a cidade quieta demais. Minutos depois, visto uma boxer preta e me deito na cama, apagando em seguida.
Acordo disposto e cedo no dia seguinte, encontrando um céu escuro que promete mais chuva. Após tomar uma ducha rápida, ponho uma roupa à vontade e vou para a academia que há aqui no hotel. Malho por pelo menos duas horas e só quando o corpo reclama de exaustão volto para o quarto.
Após um banho quente e demorado, separo uma camisa de mangas longas, um suéter de lã branca, uma calça jeans preta e um sobretudo azul-marinho. Visto tudo e calço os sapatos. Para finalizar, arrumo o cabelo e vou para a sala, onde um carrinho com um farto café da manhã já me espera. Opto por comer um croissant com café preto bem quente e, minutos depois, pego as chaves e a carteira no aparador, na entrada do hall, e finalmente vou conhecer a minha filial Photos Tech & Cia.
Caminho pelos corredores do meu mais novo xodó, a minha nova empresa, e, orgulhoso, fito os quatro cantos, cada parede decorada com as imagens que escolhi a dedo. Faço um lembrete mental para agradecer à tia Ana pelo excelente trabalho de decoração.
Ansioso, aproximo-me da recepção e observo Aretuza atrás do balcão. Ela é realmente uma garota muito linda! Uma morena de olhos verdes, com o corpo cheio de curvas, e seus cabelos longos e escuros estão soltos, dando-lhe um ar exuberante. Assim que me vê, abre um sorriso profissional que retribuo sem titubear.
— Bom dia, Nick! Como foi a viagem? — indaga assim que me aproximo do balcão.
Conheço Aretuza Sanders desde a faculdade. Sim, estudamos artes e fotografia juntos e, depois da formatura, ela se casou e veio morar aqui em Londres com o marido, que é dono de uma rede de limusines de luxo. Quando lhe contei que montaria essa empresa aqui, ela ficou estupidamente animada com a ideia e não medi distâncias para a convidar a administrá-la ao meu lado. E, como se pode comprovar, ela não pensou duas vezes em aceitar.
— Foi tranquila. Na verdade, dormi quase a viagem inteira. Cheguei aqui de madrugada e confesso que estou ansioso para começar o meu primeiro trabalho.
O sorriso dela se amplia e ela me acompanha até o estúdio, que agora está completamente vazio. Suspiro audivelmente, observando o lugar amplo demais.
— Temos muito o que fazer esta semana — diz ela. Porém, continuo maravilhado, fitando o meu sonho se realizando bem diante dos meus olhos. — Fechei um contrato com uma agência de modelos e mais um com uma agência de carros esportivos. Ambas as empresas estão loucas para iniciar as sessões de fotos o quanto antes.
Sorrio e giro nos próprios calcanhares para fitá-la.
— Mas isso é maravilhoso! — sibilo com empolgação. — Com você trabalhando a todo vapor, iremos longe! E, por falar em trabalho, conseguiu uma equipe para mim?
— Sim. Só falta você analisar os trabalhos deles. Consegui três fotógrafos experientes e cada um deles trouxe seus assistentes. Também consegui uma assistente para você.
Ela me aponta um dedo em riste e eu arqueio as sobrancelhas diante de tamanha competência. Contudo, ela faz um som engraçado com a boca.
— O problema é que ela nunca trabalhou na vida; é o seu primeiro emprego. Então você terá de ensiná-la tudo do zero.
— Ela? — franzo o cenho.
Ela meneia a cabeça.
— Exatamente! O nome é Kate Schmidt.
— Espero que ela aprenda rápido, Tuza. Não tenho muita paciência para gente lerda — ralho, e mais uma vez ela assente. — Enfim, vamos trabalhar!
Bato palmas pela minha empolgação e vamos para o meu escritório. Após deixar tudo pronto em cima da mesa, Tuza volta para o seu posto na recepção e eu começo a separar alguns materiais para ir ao haras. Não demora e algumas pessoas já começam a chegar ao estúdio: algumas modelos e fotógrafos, como a minha amiga havia me falado. Como um bom profissional, começo a observar os trabalhos deles enquanto manuseio algumas lentes de que irei precisar.
— Reid? — ouço a voz de Aretuza atrás de mim, minutos depois de ter saído do estúdio, e estranho o fato de ela não me chamar pelo apelido, como sempre faz.
Olho em sua direção e percebo uma garota ao seu lado. Provavelmente a assistente de que havia me falado. A moça parece um tanto acanhada, ou nervosa. Aretuza se afasta e só então posso vê-la por inteiro. Jovem e linda, porém aparenta ser jovem demais para esse trabalho.
Após uma apresentação rápida, a menina me estende a mão e, não sei por quê, ajo de maneira rude, não retribuindo o cumprimento. Minha amiga se afasta e ficamos apenas ela e eu. Estupidamente, dou-lhe as costas para continuar o que estava fazendo.
— Em alguns minutos terei de ir a um haras. Preciso ver como será o trabalho por lá. Mas, antes, vou separar alguns materiais e quero que preste bastante atenção, porque, quando voltarmos de lá, é você quem vai separá-los e guardá-los corretamente na bolsa. Entendeu? — digo sem ao menos olhá-la.
Ela se aproxima, para ao meu lado e assente com a cabeça.
— Entendeu? — repito a pergunta, agora com um tom mais firme.
— Sim, senhor Reid — responde com um tom baixo, porém firme, e me olhando direto nos olhos.
— Quando eu estiver te ensinando alguma coisa, quero que me responda para que eu tenha certeza de que aprendeu. Nada de sim ou não com a cabeça.
A maneira ríspida com que falo com ela me surpreende a mim mesmo, porque eu não sou assim com ninguém.
