Capítulo 1 1
Lilian
Quatro anos depois…
Morar em Nova York é praticamente uma aventura. Um desafio, na verdade. Eu amo essa cidade — o ritmo frenético, o trânsito caótico, as pessoas correndo apressadas de um lado para o outro, todas tentando dar conta da própria vida. Essa energia me lembra a minha cidade natal. Desde que me formei, decidi recomeçar aqui. Trabalho como psicóloga em um dos maiores hospitais de NY, o Mount Sinai, e já se passaram quatro anos desde então.
Quatro longos — e ao mesmo tempo, maravilhosos — anos longe do meu país.
Mas não longe do meu passado. Parece irônico pensar que mudei o rumo da minha vida por causa de uma mentira brutal… uma mentira que me destruiu de todas as formas possíveis. Meus planos foram jogados na lama. Meus sonhos, despedaçados. Tive que aprender a respirar sozinha. A juntar meus cacos e erguer novas muralhas, só para continuar de pé.
Um futuro sem ele. Sem o nosso amor. Com o meu coração frio e vazio.
— Bom dia, doutora Lilian! — A voz de Lídia, minha assistente, me desperta dos devaneios. Ela entra na sala com o seu jeito sempre animado. — A senhora tem cinco consultas marcadas para esta manhã — avisa. E sou obrigada a empurrar essas lembranças para o fundo da minha mente.
— Obrigada, Lídia!
Portanto, abro meu melhor sorriso, porque foi isso que aprendi com a dor – a sorrir, mesmo quando o peito quer chorar.
— Pode trazer alguns formulários para mim? Os meus acabaram.
— Claro, doutora.
— Obrigada. Ah, eu vou à copa tomar um café antes de começar. Tudo bem?
— Sem problema, doutora. Eu posso ir organizando os formulários enquanto isso.
— Você é maravilhosa!
Saio da sala, mas sou interrompida por uma notícia que me faz revirar os olhos.
— O doutor Peter ligou — Minha assistente informa, abrindo um sorriso um tanto malicioso. Mas o meu semblante se fecha. — Ele disse que precisava conversar com você — completa, divertida.
Solto um suspiro cansado, porque eu já faço ideia do que se trata.
Peter Maison vem tentando me convidar para jantar há meses. Entre um flerte e outro nos corredores do hospital, ele deixa bem claro o interesse. E talvez eu devesse dar uma chance. Ele é gentil, divertido, um homem que sabe o que quer. Mas o problema é que o meu coração ainda está preso ao passado — a alguma parte esquecida do Rio de Janeiro. E por mais que eu tente seguir em frente, simplesmente não consigo.
— Ok. Depois eu falo com ele — murmuro, desviando o meu olhar e saio da sala.
Na copa, sirvo uma xícara de café fumegante com bastante leite, do jeito que eu gosto. Dou um gole e, entre um suspiro e outro, penso em como escapar da insistência de Peter sem parecer grosseira. Minutos depois, retorno ao consultório. Sobre a mesa, meu bloco de anotações, canetas coloridas e o divã — o meu refúgio de histórias, dores e recomeços. E ali, sentado diante de mim, está Richard, meu primeiro paciente do dia. Há algo que eu nunca mencionei: eu amo a minha profissão. E o motivo que me trouxe até ela tem nome e sobrenome — Luís Renato Alcântara, meu irmão mais velho.
Luís viveu a pior desilusão de sua vida — uma traição brutal quase o destruiu. Vê-lo desabar sem poder ajudá-lo foi o que me fez escolher esse caminho. A psicologia se tornou o meu modo de curar o mundo — já que não consegui curar quem eu mais amava. E quanto ao meu irmão, ele recebeu a segunda chance que merecia. Quem sabe um dia eu receba a minha também?
— Bom dia, Richard! — falo com um tom calmo. Profissional, observando o rapaz de dezoito anos, deitado em um divã e encarando o teto branco. — Como está se sentindo hoje?
Ele hesita um pouco. Mexe nos dedos. Um gesto de puro nervosismo.
— Estou melhor… eu acho — responde, ainda fixo no teto. Mas percebo o leve sorriso no canto de sua boca. — Eu conheci uma garota.
Três meses de acompanhamento, e pela primeira vez, Richard fala de algo que o faz sorrir. Talvez esse seja o começo da sua cura.
Horas mais tarde…
— Sonhando acordada, doutora? — Cristina Steel, uma das melhores ortopedista deste hospital e, minha melhor amiga, pergunta invadindo o meu consultório com seu habitual sorriso extravagante.
Dou de ombros.
— Sonhar não custa nada, certo? — resmungo.
— Nisso você está certa. Sonhar é de graça. Mas, realizar os sonhos é bem melhor do que apenas vivê-los dentro da sua cabeça, não acha?
— Você sabe que esse sonho nunca vai se realizar, não é? — retruco, e automaticamente o sorriso some do meu rosto.
Cris conhece a minha história como ninguém. Ela foi o meu alicerce quando tudo desabou sobre a minha cabeça.
— Nunca é uma palavra muito distante, Lilian Alcântara — rebate com humor, tentando me animar.
Suspiro alto, arrumando algumas fichas sobre a minha mesa.
— E, como foi o seu dia, doutora? — mudo de assunto.
— Tranquilo. Mas, eu vim até aqui com um propósito — ralha, arqueando as sobrancelhas. — Uma noite dançante, regada a bons drinks. O que me diz?
— Hum, gostei dessa ideia! — Um sorriso se abre nos meus lábios. — No mesmo barzinho?
— No mesmo barzinho. E, no mesmo horário — confirma animada. — Ah, eu tomei a liberdade de convidar o Peter.
Congelo por um segundo, porque essa ideia me deixa um pouco desconfortável. Entretanto, disfarço.
— Espero que isso não seja um problema?
Mas é claro que é um problema. Penso. Ainda assim, forço um sorriso.
— Não é um problema — falo com firmeza. — Desde que ele não insista em nada comigo.
Cris revira os olhos.
— Por que você não dá uma chance pra ele, amiga?
Por que eu não estou pronta?
Por que o meu coração não aceita outro homem?
A verdade, é que existem tantos motivos. E o maior deles é… eu não quero me machucar outra vez.
