Capítulo Três

A Cidade de Gray Harbor nunca tinha vivido uma manhã tão soturna. A chuva ácida, como se fosse refinada a partir de metais pesados de resíduos industriais, trazia um fedor amargo e enferrujado, transformando o concreto armado da cidade numa lápide colossal.

Eu estava de pé no alto das ruínas da cidade velha, a poucos quarteirões do Edifício Vientiane. Daqui, o arranha-céu que um dia se ergueu no centro parecia uma besta gigantesca sem carapaça — ameaçadora e frágil sob a luz da manhã.

Julian Vance, meu antigo irmão, agora despencava no primeiro abismo que eu tecera para ele.

Na interface do meu terminal, várias correntes de dados complexas corriam como cachoeiras — o resultado da infiltração do meu tecnólogo na cadeia de suprimentos central do Consórcio Vance. Todas as mercadorias do consórcio tinham virado sucata naquele instante, todo o capital de giro, evaporado. Não era apenas uma perda financeira total; era também arrancar dele a dignidade de “quem manda”.

Acendi um cigarro; a chama tremeluziu no vento gelado. Meu ajudante ficou atrás de mim, a voz plana, uniforme:

— Comandante Long, o depósito foi isolado. As ações do Grupo Vance caíram além do limiar histórico em três minutos de pregão. A pressão do conselho já está batendo na porta do escritório dele.

Eu não disse nada, apenas encarei o prédio. Eu sabia o que Julian estava pensando. Ele se perguntava se aquilo era algum tipo de ataque de um conglomerado rival. Na lógica estreita dele, nunca conseguiria compreender como um homem cuja dignidade ele esmagara pessoalmente durante cinco anos podia voltar a subir do lodo.

Ele achava que eu travava uma “guerra”, mas eu estava, na verdade, “demolindo” coisas.

Enquanto isso, no último andar do Edifício Vientiane, Julian chutou a porta de madeira do escritório, e o baque alto ecoou pelo corredor. O rosto dele se retorcia de raiva, com uma palidez mórbida. Atrás da mesa grande, os executivos financeiros que ele antes considerava seus pilares agora estavam encolhidos num canto, tremendo, com os relatórios nos celulares piscando como um dobre fúnebre.

— Investiguem! Achem a origem! — Julian agarrou um caro peso de papel de cristal sobre a mesa e o arremessou contra a tela grande. — Essa é a especialidade de vocês! Backdoors, bombas lógicas — se não me derem uma solução em cinco minutos, vocês, seus idiotas, estão na rua!

Mas ninguém conseguia responder. Eles não enfrentavam uma extorsão tradicional, e sim a “lógica tática” que eu trouxera de volta do campo de batalha na fronteira. Era um ataque de redução dimensional: aplicar teoria de guerra ao mundo dos negócios.

Usando meu terminal pessoal criptografado, eu acessei à força o sistema de controle predial do Edifício Vientiane. Naquele instante, todos os elevadores travaram, todas as saídas de segurança se fecharam, e o prédio inteiro virou a prisão particular de Julian.

Na sala de reuniões, quando as minhas instruções pré-programadas foram executadas, a enorme tela principal de controle ficou preta. Então, a gravação que deveria ter sido destruída para sempre cinco anos antes ressoou por todo o topo daquela pirâmide de poder.

— Liam Thorne? Aquele lixo… se eu der um jeito nele direitinho, todos os bens da família vão ser meus, certo? Lembrem-se: eu quero ele morto, sem sobrar nem um osso, de preferência apodrecendo e fedendo naquele chão enlameado…

Aquela voz era a que eu gravara anos atrás, numa sala de interrogatório infestada de moscas. Agora, tocada por um sistema de som de alta fidelidade, tinha uma qualidade metálica capaz de fazer a espinha gelar.

Ao ver os rostos horrorizados dos diretores na tela, eu enviei, sem volta, o pacote bruto de dados — preparado havia muito tempo — contendo toda a lavagem de dinheiro, as desapropriações ilegais de terra e os laudos de invalidez falsificados da família Vance nos últimos três anos, para todos os servidores de monitoramento de Gray Harbor. Não era apenas um relatório; era o veredito final que faria a família Vance ser investigada e sofrer uma operação da polícia federal em menos de duas horas.

Eu não entrei no prédio. Apenas me sentei no alto das ruínas, observando o interior mergulhar no caos, como formigas numa panela em ebulição. Julian tinha enlouquecido no escritório. Esmagava tudo o que aparecia pela frente; o terno, antes impecável, agora estava desleixado, a gravata torta e afrouxada. Tentou ligar para os seguranças, de novo e de novo, só para descobrir que todos os números da agenda do celular estavam fora de serviço — meu tecnólogo já tinha reescrito o código-base de comunicação deles.

Era um encarceramento silencioso.

Ele parecia uma besta enjaulada, presa dentro de uma esfera de vidro transparente, berrando para fora, mas ninguém atenderia.

Eu enviei um comando final, um código disparado diretamente para o telefone particular dele pela linha corporativa: “Seus bens mais preciosos agora são degraus para eu limpar o lixo de Gray Harbor.”

Quando aquelas palavras se projetaram no monitor no centro do escritório, senti uma satisfação há muito perdida. Mas essa satisfação não bastava para preencher o vazio dos últimos cinco anos de escuridão.

Ainda assim, a mudança sempre acontece nos momentos mais silenciosos.

As defesas do prédio foram violadas à força, e uma limusine blindada, discretamente luxuosa, deslizou lentamente para dentro. Um homem de terno cinza-escuro saiu; tinha um ar refinado e calmo, e era ainda mais imponente do que Julian. Era o Rei de Gray — o controlador de fato do Morgan Group em Gray Harbor.

Ele não demonstrou impaciência; simplesmente entrou com passos leves no prédio, chegando até a endireitar com elegância uma cadeira caída ao passar pela sala de reuniões em caos. Caminhou até o escritório de Julian e, ao encarar os cristais estilhaçados espalhados pelo chão e o surto de Julian, seus olhos estavam tão frios como se assistisse a uma demolição trivial:

— Já ficou com medo?

Ele lançou um olhar para a minha imagem ainda nítida no monitor, os dedos batucando de leve na tela, num gesto tão despreocupado quanto o de acariciar uma obra de arte:

— Liam Thorne — murmurou para si, com uma sombra indecifrável na voz. — Você até trouxe uns “planos de limpeza” interessantes, mas é só isso.

Virou-se para a figura sombria ao lado dele, envolta em equipamento tático preto, e ordenou com frieza:

— Ativem a autorização de eliminação “Cleaner”. Tragam de volta esse cachorro escondido nas sombras.

Naquele instante, senti a umidade do ar mudar. Era o cheiro de um dispositivo de morte sendo ativado.

Os “Cleaners” eram o lendário esquadrão de assassinos de Gray Harbor; nunca falavam em estratégia, eram responsáveis apenas pela eliminação — nesta cidade, quem era marcado por eles não deixava nem a alma para trás.

Eu me levantei e joguei a ponta do cigarro em direção a uma poça distante; as faíscas desenharam um arco decidido na escuridão.

O nível da guerra foi redefinido. Não era mais só negócios, nem apenas disputa de gangues; a partir deste momento, seria uma guerra até a morte.

No meu fone, a voz do meu ajudante assumiu um tom sombrio:

— Comandante Long, foram detectadas cinco fontes infravermelhas de alta frequência entrando no raio da sua cidade. Estão selando todas as saídas.

Apertei a adaga na mão, sentindo a textura fria e dura, e um sorriso gélido curvou meus lábios.

Se eles querem brincar, eu vou achatar esse jogo por completo.

— Transmita a ordem — determinei, despejando no fone minha mobilização final para a batalha, com voz fria. — Suspendam todas as operações de compensação financeira, ativem o bloqueio tático pesado. Esta noite, quero que a escuridão de Gray Harbor lute pelo nosso retorno.

A chuva torrencial enfim virou um dilúvio. Esta vingança por Liam Thorne começará seu desfecho sangrento a partir das brasas desta ruína comercial.

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