Capítulo 3 Acho que depende da pessoa

— Nem fudendo! — eu arquejo, virando de volta pro Nico, me inclinando sobre o balcão e arrancando o rádio da cintura dele. — Sel! — sibilo no aparelho.

— Quê? Ele é muito feio? — vem a voz dela pelo alto-falante chiado.

— É o porra do David! — cuspo de volta.

— Para! Você tá zoando? — O rádio dá um estalo, mostrando que ela soltou o botão, e eu quase consigo ver ela girando na cadeira, clicando nas telas das câmeras do computador pra tentar achar ele.

— Puta que pariu.

— Eu não vou fazer isso — digo no rádio, olhando rápido por cima do ombro pra ele.

É. É definitivamente ele.

Ele tá olhando pra Violet, que tá dançando no pole agora, bebendo um uísque, completamente alheio ao fato de que a secretária dele tá a seis metros de distância.

— Olha, eu realmente preciso terminar a folha de pagamento, e eu tava falando sério quando disse que você tem que fazer alguma coisa hoje. Você só precisa fazer a parte de apresentação, não é como se eu fosse te empurrar pra cima dele — Sel fala, e eu fecho os olhos, minha testa batendo no balcão enquanto o Nico só observa, de braços cruzados no peito.

— Ele não vai te reconhecer — o Nico diz. — E se reconhecer, eu vou lá te tirar de lá antes dele conseguir falar qualquer coisa.

Eu olho pro Nico, sabendo que ele vai fazer exatamente o que tá dizendo. Ele já fez isso várias vezes por mim, me puxando quando as situações começaram a ficar meio esquisitas. Eu realmente não consigo parar de pensar que isso é uma ideia muito, muito ruim.

As apresentações não são exatamente… sem contato.

— Eu te dou uma noite de folga do Casey — Sel diz pelo rádio. — Na real, te dou a noite inteira de folga. Vai, gata — ela insiste. — Eu não confio em mais ninguém pra fazer intro, você sabe disso.

— Você me deve essa porra — eu sibilo de volta, jogando o aparelho em cima do balcão. Nico pega o rádio e leva até a boca.

— Você vai ficar de olho nela? — ele pergunta pra Sel.

— Porra, com certeza. Nem fodendo que eu vou perder um segundo do que vem agora — ela ri em resposta. Eu olho pro Nico, um olhar bem significativo, mas ele só prende o rádio de novo na cintura e dá de ombros.

— Você sabe que ela quer dizer isso no bom sentido — ele fala, a boca dele lutando pra segurar o sorriso que tá ameaçando aparecer. — Provavelmente — ele dá uma risadinha curta e se segura.

Eu fuzilo ele com o olhar, giro nos calcanhares e me afasto.

Enquanto caminho, respiro e penso em todas as coisas que eu tenho que fazer. E também em todas as coisas que eu deveria fazer, mas provavelmente dá pra escapar de não fazer, porque eu não quero fazer essas coisas com o meu chefe.

Conversa? De boa. Ver os quartos? Também de boa.

Arrancar os desejos dele? Isso talvez já seja forçar um pouco a barra. Testar uns brinquedinhos “luz verde”? Não. Definitivamente não.

Tento puxar mais um ar quando chego perto da parte de trás da cadeira dele, mas esse parece especialmente difícil. Eu rolo os ombros, tentando aliviar o nervosismo, e, meio sem graça, toco na máscara e na peruca, conferindo se ainda estão no lugar.

Lá vamos nós, penso. Só mais um cliente. Só mais um cara qualquer, comum, como todos os outros.

Me posiciono ao lado dele, meu peso indo pra perna direita, coloco as mãos na cintura e limpo a garganta, o volume suave da música sendo suficiente pra ele me ouvir.

Ele se vira e, como sempre, os olhos dele travam na minha roupa.

Usar esses espartilhos sempre me deixa mais confiante. E quem não ficaria, do jeito que as pessoas olham pra mim neles?

O espartilho em si é de um roxo profundo, com renda preta detalhando os bojos e descendo em arabescos pela barriga, combinando com a máscara. Do jeito que eu aperto as fitas, ele me dá uma cintura de violão perfeita, com o volume dos meus seios quase transbordando por cima. Tem uma sainha que abre em leque na barra, que eu sempre uso com uma calcinha roxa e preta, estilo hipster, combinando, ligas presas em meia-calça cor da pele com uma simples barra de renda preta, e um robe de cetim preto praticamente transparente. É a mistura perfeita de mostrar o produto sem mostrar quase nada de verdade.

As reações são sempre as mesmas. Os caras babam pela lingerie, principalmente pela área dos peitos, e só levantam o olhar quando eu falo.

Eu espero pra ver o que ele vai fazer.

Os olhos dele descem pros meus saltos e sobem de volta, mais rápido do que eu tô acostumada. Ele mal para na altura do meu peito, os olhos encontrando os meus em questão de segundos. Eu engulo em seco, tentando fazer isso do jeito mais discreto possível, tentando não entregar que os olhos azuis dele tão me deixando quente.

Ele se levanta de repente, deixa o copo na mesinha ao lado da poltrona, abotoa o paletó e dá alguns passos até ficar bem na minha frente.

Depois estende a mão.

Eu olho para ela, com vontade de rir. Ninguém nunca me ofereceu um aperto de mão antes.

— Reid. David Reid. — ele diz, a voz conhecida e aveludada percorrendo o meu corpo inteiro.

Levanto os olhos de volta para os dele, que não vacilam nem um milímetro, e avanço um passo, encaixando minha mão na dele e apertando de leve.

— Prazer em conhecer, David. — respondo fria, baixando o tom da voz um ou dois pontos na esperança de que ele não reconheça. Não que eu chame ele de David, de qualquer jeito.

Ele leva minha mão até a boca, beija de leve, com respeito, os meus dedos. Seus olhos procuram os meus enquanto eu solto a mão dele.

— Fiquei sabendo que você tem interesse em se tornar membro do The Red Room? — pergunto, e ele faz que sim com a cabeça uma vez. — Então, por favor, me acompanha. — digo com confiança, já caminhando em direção a um dos reservados na lateral, certa de que ele vai vir atrás de mim.

Eles sempre vêm atrás de mim.

Eu me acomodo no reservado, sentando bem no meio do sofá, apoiando as mãos dos dois lados e me recostando um pouco enquanto observo, atenta, ele analisar os lugares. Ele decide sentar no assento à minha frente, e eu dou um sorriso de canto.

Quando ele desabotoa o paletó pra se sentar confortável, me pego observando o movimento, minha língua passando pelo lábio inferior pra disfarçar a sensação de que ficaram subitamente secos.

Ele se recosta, e eu consigo ver que a famosa arrogância que ele costuma exalar está começando a aparecer na forma como apoia o cotovelo no braço da poltrona, levando a mão à boca, o dedo deslizando pelo lábio enquanto me encara.

Eu sustento o olhar, mesmo quando Nico passa pra deixar meu drink na mesa, e outro pra ele, mesmo quando eu agradeço e ele se afasta. Pego meu copo, um martíni de gim, e tomo um gole, mantendo o Sr. Reid no meu campo de visão por cima da borda.

Devolvo o copo à mesa.

— Quem foi que indicou você? — pergunto, quebrando finalmente o silêncio tenso.

— Isso importa? — ele devolve.

— Importa. — admito. — Alguns clientes foram colocados na lista negra. A gente precisa garantir que nenhum dos associados deles também seja autorizado. — Ele respira fundo algumas vezes antes de responder.

— Kieran Voss. — declara, e sinto meu estômago dar um tranco desconfortável.

Eu não sabia que o Kieran era membro. Talvez ele esteja com uma das outras meninas. O Kieran trabalha no setor de TI lá no escritório.

Agora eu nunca mais vou conseguir olhar pra ele do mesmo jeito.

Assim como também não vou conseguir olhar pro Sr. Reid do mesmo jeito.

— E o que é exatamente que você acha que a gente faz aqui? — pergunto, tentando desviar meu cérebro das imagens do Kieran em um desses quartos.

— Não é você que devia estar me contando isso? Me vendendo a ideia ou algo assim? — ele diz, com um meio sorriso, ao mesmo tempo em que estreita os olhos pra mim. Como se desconfiasse do modelo de negócio.

Dou um sorrisinho mínimo pra esconder o quase riso.

— A gente percebe que muita gente que vem pra cá chega com ideias prontas do que está esperando. Eu consigo dizer em dois segundos se a gente consegue atender essas expectativas. Então, Sr. Reid — digo, deixando um pouco da minha respiração escapar junto com as palavras, inclinando o corpo pra frente no sofá e cruzando uma perna sobre a outra devagar, antes de entrelaçar as mãos ao redor dos joelhos. — pode compartilhar.

A posição em que eu me coloco faz as “meninas” se apertarem um pouco, e geralmente é uma tática bem sutil pra deixar o cliente no clima… certo.

Dou um risinho de canto quando vejo os olhos dele baixarem por uma fração de segundo. Ele se mexe um pouco na poltrona e toma um gole do uísque. Depois se inclina pra frente pra apoiar o copo na mesa e descansa os cotovelos nos joelhos, as mãos entrelaçadas à frente do corpo.

Parece que nós dois estamos jogando com a linguagem corporal.

— Ouvi dizer que as pessoas podem vir aqui, explorar os próprios desejos e deixar o dia a dia pra trás. — ele diz, simples.

— E quais são exatamente os seus desejos? — pergunto no automático. É a pergunta que eu tenho que fazer pra todo mundo, então ela sai naturalmente da conversa. Só depois que falo é que me dou conta de que acabei de perguntar pro meu chefe o que ele quer, sexualmente.

Sinto calor.

— Acho que isso depende da pessoa. — ele responde, inclinando um pouco a cabeça.

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