Capítulo 4 Eu quero dominar
Não me surpreendo com a resposta vaga dele. Ele nunca foi aberto sobre a vida pessoal em todo o tempo em que eu o conheço.
“Como funciona essa coisa de ser designado pra alguém?”, ele pergunta.
Eu me inclino pra frente pra pegar meu drink de novo.
“Se chegarmos ao ponto de considerar a sua ficha, temos uns formulários que você precisa preencher.” Dou um gole. “A gente pergunta sobre a sua experiência, coisas em que você tem interesse, coisas em que você não tem.”
A sobrancelha dele dá uma leve contraída, e eu me pergunto se existe muita coisa em que ele não teria interesse em pelo menos tentar.
“Depois a gente tem os perfis de todo mundo que trabalha aqui, e te combina com alguém que seja o mais adequado às suas… necessidades.” Explico. “A gente faz uma checagem de antecedentes e, desde que não apareça nada, você pode começar assim que o primeiro pagamento cair.”
“Tenho certeza de que vai cair.”
“Disso eu não tenho dúvida. Eu não sou cega a quem você é, senhor Reid.”
Dessa vez a sobrancelha dele realmente sobe pra mim. Eu dou um sorriso de boca fechada, de repente me sentindo bem mais confiante nesse cenário do que estava no começo.
“O que você precisa ver pra considerar a minha ficha?”, ele pergunta.
“Eu preciso ver o que você quer.” respondo, em tom malicioso, pousando meu drink e me levantando.
Ele se levanta na mesma hora.
Eu caminho até ele, enquanto ele mantém os olhos presos em mim, e, quando estou bem na frente dele, desvio o olhar pra colocar a mão no peito dele. É outra tática que ajuda meus clientes a entrarem no clima e, embora eu tivesse decidido antes que não faria isso com o meu chefe, conforme a conversa foi avançando, me vi morrendo de vontade de tocar nele.
Então eu toco.
Minha mão desce pelo peito dele, depois eu deslizo pela barriga até meus dedos passarem pelo antebraço. Ergo os olhos de novo, sentindo uma onda de excitação ao ver ele me encarando de cima, e tiro o copo da mão dele, me inclinando um pouco para deixá‑lo na mesa ao meu lado.
“Vem comigo.” sussurro quando volto a ficar ereta e, mais uma vez, atravesso a sala, sabendo que ele já está me seguindo.
Passo pelo bar, e Nico ergue dois números com os dedos – 2 e 4. Um gesto silencioso pra me dizer quais quartos estão ocupados e que vão mostrar ao senhor Reid extremos opostos do que eu posso oferecer aqui.
Cada quarto do clube tem um espelho. Um espelho unidirecional. Tem a porta por onde a equipe e os clientes entram, do lado oposto ao espelho. Atrás dos espelhos há uma passarela, acessível só por uma porta à qual só quem trabalha aqui tem chave. Essa porta também fica convenientemente ao lado do posto do segurança, pra que eles controlem quem entra e quem sai. Não é comum clientes ficarem aqui sozinhos; nem todo mundo consente em ser observado.
Os quartos que o Nico me indica, porém, esses clientes aceitaram ser observados nos formulários.
Faço um sinal com a cabeça pro Kai no posto, e ele me retribui com um sorriso. Destranco a porta, empurro para abrir e dou uma olhada por cima do ombro pra ver o David não mais do que dois passos atrás de mim.
O corredor é mal iluminado, mas, quando eu abro as cortinas dos espelhos unidirecionais, eles deixam entrar mais luz. Enquanto caminho, continuo meu processo de triagem.
“Em que você está interessado principalmente?”, pergunto.
“Quais são as opções?”, ele rebate, e eu viro de novo pra frente pra poder esconder o sorriso. Eu conheço essas habilidades de debate das salas de reunião – fazer os outros responderem primeiro.
“Os principais aspectos são dominação ou submissão. Temos muitos clientes interessados nos dois; alguns têm uma… preferência bem forte por um ou por outro. Aí a gente explora os interesses específicos dentro de cada dinâmica. Você só precisa escolher qual papel vai assumir.” Paro de andar quando chego ao Quarto 2 e me viro pra encarar ele. Ele para na minha frente. Tão perto que eu quase sinto o terno dele roçar em mim.
“Nunca fui muito bom em me submeter.” ele diz, com um olhar divertido no rosto.
“Você ia se surpreender com a quantidade de homens de negócios que pensa isso, e aí descobre que é justamente o que eles estavam precisando.” sussurro, fazendo o sorriso sumir do rosto dele. Estendo a mão pro lado e aciono um interruptor, o que revela o quarto através do espelho pra mim. A cabeça dele se vira na mesma hora.
Então ele dá um passo à frente, absorvendo a cena.
Harper está sentada numa poltrona macia, comendo uma maçã, enquanto um dos clientes está ajoelhado no chão ao lado dela. O pescoço dele está preso por uma coleira, com uma guia que ela mantém frouxa, enrolada no pulso, enquanto o ignora. David observa com curiosidade quando o cliente ergue o olhar pra ela, depois volta rápido pro chão, mas ela percebe mesmo assim.
“Eu disse que você podia se mexer, Dylan?” Harper pergunta com uma voz docemente enganosa.
— Não, me desculpa, meu amor, me desculpa mesmo. — o cliente se apressa em dizer, o olhar voltando pro chão.
Mas Harper não deixa passar. Ela sai da cadeira, puxando a guia pra fazer com que ele a siga. Ela apoia a maçã e pega o chicote de montar na mesa, voltando-se pra ele.
— De quatro. — ela ordena, e Dylan imediatamente encosta o rosto no chão, o pé dela vindo descansar na omoplata dele, dando a ela acesso à bunda dele, que se ergue no ar.
— Isso é submissão? — David pergunta, a voz falhando um pouco no meio das palavras, e os olhos dele não saem da cena enquanto o estalo seco do chicote ecoa pelo cômodo ao encontrar a pele de Dylan.
Eu dou um passo à frente, deslizando a mão pelo braço dele, passando pelo ombro e descendo pelas costas, me inclinando até o ouvido dele.
— Ele não é muito bom nisso, mas é. Ele é o submisso. — eu sussurro. Não deixo de notar o canto da boca dele tremer pra cima. — Eles trabalham juntos há muito tempo, então nem sempre são noites cheias de sexo. Isso dá tanto prazer pra ele quanto o resto: as regras, a estrutura, saber quando vai ser punido e por quê. Ele também tem uma coisa por salto alto, então ela tá garantindo que ele foque neles.
Tiro a mão dele quando vejo que ele inspira fundo.
— Como eu disse, muitos homens de negócios preferem esse lado. O dia deles é tão caótico que eles precisam dessa previsibilidade pra realmente conseguir se soltar. — digo, antes de apertar o interruptor pra desligar e trazer a atenção dele de volta pra mim. Viro e sigo em direção à Sala 4, deixando-o em silêncio pra pensar no que acabou de ver.
Quando chego na Sala 4, minha mão paira sobre o interruptor, e só quando sinto o corpo dele perto do meu ombro é que eu acendo a luz.
Essa cena é diferente.
Sophia, minha colega, está amarrada em pé numa espécie de armação em formato de cubo, mãos e pés em cada canto, esticando cada membro o máximo possível. O cliente, alguém que eu sei que é relativamente novo no clube, está amarrando uma venda nos olhos dela, beijando-a de leve antes de se afastar, e eu vejo o sorriso dela.
Dominantes nunca são dominantes o suficiente aqui, penso, e sei que ela está pensando o mesmo. Eles sempre tentam ter certeza de que são suaves o bastante pra não me machucar, pra confirmar o tempo todo que a gente tá bem.
Quando o cliente se move até a escrivaninha, eu noto a diferença na reação de David. A Sala 2 era curiosidade. Observação. Já essa sala… eu reparo que os olhos dele estão grudados em Sophia, percorrendo a armação, a posição dela. Reparo no peito dele se movendo de um jeito mais marcado. Lento, mas perceptível. Como se ele estivesse tentando controlar a própria respiração.
O cliente pega um chicote de nove tiras. Também é um dos meus preferidos. Sentindo uma pontada surda no centro do meu corpo, de repente eu me sinto quase desesperada pra fazer alguma coisa. Pra tocar em alguma coisa.
E a única coisa por perto é Reid.
Passo a mão pelo ombro dele e depois empurro de leve, incentivando-o a sentar no banco na frente do espelho. Ele obedece sem nem olhar pra trás, e só esse gesto já me faz morder o lábio. Eu me posiciono atrás dele, a outra mão indo pro outro ombro, e demoro de propósito deslizando as mãos por ele, indo em direção ao peito, minha boca indo até o ouvido dele.
— Esse cliente é novo, então é mais sobre explorar corpos, descobrir o que funciona pra ele, pra ela. — eu sussurro, meus dedos abrindo com habilidade os dois primeiros botões da camisa dele, enquanto ele só fica ali, encarando o vazio à frente, quase em transe.
Deslizo a mão por dentro da camisa, as pontas das unhas roçando na pele dele, e eu quase fecho os olhos ao sentir os pelos, os músculos debaixo da minha palma. Consigo sentir a leve batida do coração dele quando o cliente começa a circular Sophia, arrastando as pontas do chicote de nove tiras pela pele dela, e nós dois assistimos ela estremecer e se remexer nas amarras.
Quando a mão dele de repente agarra meu pulso, eu paraliso. Depois tiro as mãos, dou a volta nele e desligo o interruptor. Eu só preciso dar um gostinho pros potenciais novos membros, e nós dois já tivemos isso por hoje.
Ele pigarreia e se levanta, ajustando o cós da calça com a maior discrição que consegue. O movimento não é nada sutil pra mim, no entanto, já que eu vi centenas de homens fazendo a mesma coisa de centenas de jeitos diferentes.
— Então, o que parece mais interessante pra você, senhor Reid? — pergunto, o mais suave que consigo, com ele me encarando de cima, as pupilas dilatadas.
— Aquela. — ele solta, quase sem ar, e eu balanço a cabeça, meio que já esperando essa resposta. — Eu posso escolher com quem eu vou ser pareado?
— A gente pode anotar, mas se a pessoa que você quer não tiver as mesmas preferências que você, não tem muito o que eu possa fazer.
— E você? — ele pergunta, dando um passo à frente.
— Eu o quê? — retruco, com uma leve gaguejada que eu me xingo mentalmente por deixar escapar.
— Eu quero dominar. E eu quero dominar você.
