Sete Palavras no Joelho

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Ana Beatriz Oliveira · Atualizando · 11.4k Palavras

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Introdução

Dois anos depois de ser largada com a desculpa do "momento errado", Mariana Ribeiro construiu um escritório, uma reputação e uma vida que não precisam de ninguém — especialmente não de Thiago Cavalcanti. Quando ele volta com um projeto de parceria e sete palavras que ela nunca havia ouvido de verdade, ela não foge nem perdoa: ela propõe um cronograma. A resposta final é sim — mas nas condições dela, no tempo dela, pela mulher que ela se tornou enquanto ele estava aprendendo o que havia perdido.

Capítulo 1

Dois anos depois de ser largada com a desculpa do "momento errado", Mariana Ribeiro construiu um escritório, uma reputação e uma vida que não precisam de ninguém — especialmente não de Thiago Cavalcanti. Quando ele volta com um projeto de parceria e sete palavras que ela nunca havia ouvido de verdade, ela não foge nem perdoa: ela propõe um cronograma. A resposta final é sim — mas nas condições dela, no tempo dela, pela mulher que ela se tornou enquanto ele estava aprendendo o que havia perdido.

——

Ele voltou numa terça-feira, com um buquê de flores que eu havia mencionado uma vez, dois anos antes, como as flores que eu não gostava — e eu percebi que ele havia passado dois anos lembrando das coisas erradas.

Mas isso eu só fui entender três dias depois, quando ele apareceu na minha obra.

Naquela terça, eu estava sentada na minha mesa do escritório, revisando a planta do complexo residencial que a Construtora Moura havia nos contratado para desenvolver. Era um projeto grande, o maior que o Escritório Ribeiro havia fechado desde que abriu as portas — cinco anos de existência, construídos do zero, com as mãos, com os erros, com as madrugadas de café frio e orçamento apertado. Eu havia aprendido que os melhores projetos chegam depois de muito trabalho invisível: reuniões que parecem não levar a nada, propostas que voltam revisadas, relacionamentos de confiança que demoram anos para se formar.

Esse projeto havia chegado assim. Com paciência. Com persistência. Com o tipo de consistência que eu havia aprendido a cultivar quando todas as outras coisas deixaram de ser garantidas.

Eram dezesseis horas da tarde quando Camila apareceu na porta com uma expressão que eu conhecia bem. Aquela expressão de quem está prestes a entregar uma notícia que não pediu para ter — o rosto de quem sabe que a mensagem vai causar alguma coisa, mas não sabe exatamente o quê.

— Alguém deixou isso para você na recepção — disse ela, segurando um buquê com certo cuidado, como se as flores fossem frágeis de uma forma além do biológico.

Flores do campo. Exatamente do tipo que eu havia mencionado, numa tarde de dois anos atrás, que achava artificial demais. Aquelas flores cultivadas para parecer silvestres, industrializadas para parecer espontâneas — o tipo de contradição que me irritava em qualquer contexto, não apenas no floral. Eu havia dito isso numa conversa despretensiosa sobre um restaurante que tinha flores de campo na decoração. Uma observação pequena, quase descartável.

Ele havia guardado.

Não havia cartão. Mas eu sabia.

— Obrigada, Camila.

Esperou que ela saísse para olhar de verdade para o buquê. Não com raiva — a raiva era uma resposta que eu havia reservado para coisas que me surpreendiam, e Thiago Cavalcanti voltando não me surpreendia completamente. Era mais uma hipótese que eu havia mantido arquivada, suspensa num estado de "talvez, eventualmente", sem data definida. A raiva não chegou porque a surpresa não chegou.

O que chegou foi curiosidade clínica — o mesmo sentimento que eu tinha quando analisava uma planta mal executada. O que você estava tentando dizer, e por que saiu torto?

Dois anos. Dois anos desde a ligação de dez minutos em que Thiago Cavalcanti me disse que "o momento não era o certo". Que tínhamos tomado caminhos diferentes. Que ele me desejava tudo de bom — essas palavras exatas, nessa ordem, que ficaram marcadas na minha memória com a precisão de uma nota taquigráfica. Palavras educadas demais para uma relação de dois anos. Palavras que não explicavam nada ao mesmo tempo que explicavam tudo o que ele escolheu dizer.

Naquele momento, eu havia ficado sentada na cama do meu apartamento durante quarenta minutos sem conseguir me mover. A cidade barulhava lá fora, alguém no andar de cima estava arrastando móveis, e eu estava parada no meio da cama com o telefone na mão e a sensação estranha de ter ouvido palavras que não faziam sentido ainda — como quando você lê uma frase e precisa reler porque o significado não entrou da primeira vez.

Depois tinha levantado, lavado o rosto, e voltado a trabalhar.

Não porque eu fosse fria. Mas porque foi o que eu aprendi a fazer: transformar o que dói em movimento. Não em fuga — em movimento com direção. A diferença importa.

Nos dois anos seguintes, o escritório foi de dois funcionários para sete. Fechei três contratos grandes. Reformei o apartamento que era para ter sido o nosso, mas que acabou sendo só meu — e ficou melhor do que eu havia planejado para dois. A reforma demorou quatro meses e envolveu escolhas que eu não teria feito se estivesse pensando em compromisso: as cores que eu realmente queria, a iluminação que eu preferia, a organização que funcionava para o meu modo de viver e não para um modo de viver compartilhado que nunca havia existido de fato fora da minha cabeça.

Fiz amizades que eu havia adiado quando ele era o centro gravitacional da minha agenda. Reencontrei hobbies que havia deixado de lado. Li livros que ele nunca teria paciência para discutir. Fiz uma viagem sozinha para o Sul do país, numa semana inteira sem planejar muito nada, e voltei mais inteira do que quando fui.

Não fiz nada disso para ele ver. Fiz porque eu precisava provar para mim mesma que eu não precisava dele para ser inteira.

Provei.

E então as flores erradas chegaram, e eu entendi que ele estava de volta — e que chegou com a ferramenta errada para a situação certa. Porque trazer flores que eu não gostava não era uma falha de memória. Era um teste. Ele queria ver o que eu fazia com elas.

Coloquei o buquê no canto da sala de reuniões, num vaso que geralmente ficava vazio. Ficou bonito, de um jeito que me irritou levemente — flores que eu não gostava, no vaso errado, no dia errado, e mesmo assim com uma certa graça. Como se beleza não dependesse de intenção, o que talvez fosse uma lição em si.

Voltei à planta.

Havia uma questão de drenagem no subsolo que me preocupava há três dias. As especificações do terreno apresentavam uma variação de composição do solo que o laudo inicial havia subestimado — eu havia pedido um segundo laudo e os resultados chegavam na manhã seguinte. Concentrei-me nisso.

Mas naquela noite, quando cheguei em casa e tirei os sapatos no corredor, fiquei parada por um segundo no meio-fio entre a sala e o quarto, e pensei: ele vai tentar.

E a segunda pergunta veio rápido, quase na sequência, como costumava acontecer comigo — a mente que sempre pula da observação para a implicação, do fato para o que o fato significa:

E o que eu vou fazer quando isso acontecer?

Não tinha resposta. Fui dormir sem uma, o que era incomum para mim — eu costumava ter pelo menos uma hipótese de trabalho. Mas dessa vez deixei a pergunta aberta, como se soubesse que a resposta precisava de mais dados antes de poder ser formulada.

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