Capítulo 1 Capítulo 1: O ponto de vista de OLIVE
Capítulo 1: POV da OLIVE
Eu tinha três apresentações para clientes marcadas para amanhã e uma estratégia de marketing que nem de longe estava pronta, mas tudo em que eu conseguia pensar era no Cole voltando pra casa em duas semanas.
Fazia dois meses que eu não o via pessoalmente. Dois meses de chamadas de vídeo e mensagens que chegavam cada vez mais tarde, noite após noite.
O Grayson diria que eu estava pensando demais de novo. Meu padrasto tinha sido o lado estável desde que a Mamãe se casou de novo dez anos atrás — o tipo de pai que realmente aparece, que lembra do que importa.
Puxei o laptop pra cima da cama, encarando a campanha pela metade da Hopkins Company.
Patético.
Empurrei o laptop de lado e alcancei a gaveta do criado-mudo.
A sensação de ter meu vibrador pressionado bem onde eu precisava, imaginando o Cole com a camisa azul de treino, o cabelo penteado pra trás, as mãos apoiadas na cabeceira acima de mim…
Quase. Tão perto.
A porta escancarou.
Minha mãe parou no batente como se não tivesse acabado de entrar bem na hora errada — na hora em que ela definitivamente não devia ter visto. Quando eu me atrapalhei pra sentar, enrolada nos lençóis e tentando enfiar o vibrador debaixo do travesseiro, ela sorriu.
Sorriu de verdade.
— Ai, querida, me desculpa por interromper. Mas a brincadeira acabou.
— Meu Deus, mãe, bater na porta é uma coisa que adultos fazem. — Meu rosto queimava. Enfiei o vibrador na gaveta do criado-mudo tão rápido que quase quebrei o dedo.
— Sua porta estava escancarada, Olive. Agradeça por ter sido eu e não o Hunter.
Meu Deus, se meu meio-irmão tivesse entrado e visto aquilo, eu ia ter que me mudar pra outro estado.
— Mãe, para. Por favor, para de falar.
Ela apertou os lábios, mas o divertimento dançava nos olhos dela. Eu queria morrer ali mesmo.
Morar no espaço reformado em cima da garagem era pra me dar independência, mas não impedia minha mãe de invadir quando bem entendesse. Ainda assim, era melhor do que pagar uma fortuna por mês por um cubículo em Seattle.
— A gente precisa conversar com você. — A voz dela mudou, ficou séria. — Eu e o Grayson temos uma notícia empolgante.
Notícia empolgante nessa família normalmente significava alguma coisa que beneficiava todo mundo, menos eu.
— Olive Monroe, eu quero você lá embaixo em cinco minutos, ou eu mesma vou te arrancar dessa cama.
Assim que a porta fechou, peguei o celular. Eu precisava ouvir a voz do Cole, precisava de alguma coisa boa pra equilibrar qualquer desastre que meus pais iam jogar em cima de mim.
Toquei no contato dele. Um toque. Dois. Três.
Cole sempre atendia. Sempre atendia quando eu ligava.
A tela piscou — chamada de vídeo aceita — e, de repente, eu estava encarando uma câmera tremida apoiada em alguma coisa, num ângulo estranho.
Eu conseguia ver ele.
Cole.
E ele não estava sozinho.
— Ai, meu Deus, isso — Cole, bem aí —
A voz de uma mulher me atingiu primeiro, aguda e ofegante. Por um segundo, meu cérebro não conseguiu processar o que eu estava vendo.
Cole deitado de costas, a cabeça jogada no travesseiro, a boca aberta enquanto ele gemia. Uma garota em cima dele, cabelo loiro caindo pelas costas enquanto ela se movia.
— Porra, você é tão gostoso—
— Sophia — caralho, Sophia —
O nome dela na boca dele. O jeito que ele disse como se fosse uma coisa preciosa. O celular chacoalhava a cada investida.
Eu devia ter desligado.
Devia ter arremessado meu celular do outro lado do quarto e fingido que nunca tinha visto aquilo, nunca tinha ouvido aquilo.
Mas eu só fiquei ali, feito uma idiota. Congelada. Assistindo meu namorado de dois anos gemer o nome de outra mulher.
— Meu Deus, eu tô quase lá — Cole, eu tô quase lá —
As mãos dele agarraram os quadris dela e puxaram com mais força. Aquele gemido grave que eu achava que ele só fazia comigo—
O celular escorregou dos meus dedos.
Caiu na cama, com a tela pra cima. Eu ainda conseguia ouvir os dois — os sons molhados, os gemidos dela, o nome dele na boca dela, de novo e de novo.
Dois anos.
Dois anos em arenas geladas, em pé, assistindo ele jogar. Dois anos dirigindo três horas só pra ver ele num fim de semana. Dois anos vestindo a camisa dele como se qualquer coisa disso importasse.
Esse tempo todo ele tinha estado com outra pessoa.
Alguém chamada Sophia.
Peguei o celular e cutuquei a tela desesperada até a chamada terminar. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia apertar o botão certo.
Não chora. Não ouse chorar por ele.
Mas minha garganta estava apertada, meus olhos ardiam, e eu odiava que eu ainda conseguia ouvir a voz dela na minha cabeça.
Apertei as palmas das mãos contra os olhos, forte o bastante pra doer.
Ele não valia a pena. Não valia uma única lágrima, não valia os dois anos que eu tinha dado pra ele, não valia nada.
Mas meu rosto já estava molhado.
Nem me dei ao trabalho de arrumar o cabelo ou lavar o rosto antes de descer. Pra quê?
A casa principal tinha cheiro de café e do que quer que a minha mãe tivesse assado no começo da semana.
No instante em que eu abri a porta, meus pais viraram a cabeça na minha direção.
— Eu já ia subir pra te arrastar pra for— — Minha mãe parou no meio da frase. — Olive, o que foi?
Eu tentei dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas no segundo em que ela perguntou, foi como se uma represa arrebentasse dentro do meu peito.
Eu soluçava, feio, engasgando de tanto chorar.
Grayson já estava em movimento. Atravessou a sala em dois passos e me puxou contra o peito, uma mão indo para o meu cabelo e a outra para as minhas costas, me segurando enquanto eu desmoronava.
— Shh… ei. Tá tudo bem. Você tá bem.
— Eu peguei ele me traindo. — Minha voz saiu destruída.
Silêncio.
Silêncio absoluto.
Eu vi a boca da mamãe se abrir. Vi o maxilar do Grayson endurecer.
— Aquele bonitão de Buffalo com o cabelo perfeito? — a voz da mamãe saiu afiada. Com raiva.
— Diane — Grayson advertiu.
— Você merece coisa melhor do que ele, Olive. Sempre mereceu.
Eu queria acreditar nele. Agora, tudo em que eu conseguia pensar era no rosto do Cole, no jeito como ele tinha me olhado da última vez e dito eu te amo, bem antes de perguntar se eu podia buscar a roupa dele na lavanderia.
— Na verdade, a gente tinha uma coisa que queria te contar — a mamãe disse, mais suave. — O Hunter recebeu a ligação. Ele foi oficialmente chamado pra jogar no Chicago Wolves.
Meu estômago despencou.
— Chamaram ele?
A promessa que eu tinha feito oito meses atrás — “quando você chegar na NHL, eu vou estar na primeira fila no seu primeiro jogo” — bateu de frente com a realidade do rosto do Cole, do time do Cole, da cidade do Cole.
O Hunter tinha estado comigo em tudo. Em cada término, em cada dia ruim, em cada momento em que eu precisava de alguém que entendesse como era ser a peça sobrando na história de outra pessoa.
— O jogo é na semana que vem — Grayson acrescentou, baixinho. — Eu sei que o timing é complicado.
— O Cole tá nesse time. — Minha voz falhou. — Eu não consigo… eu não consigo ver ele agora.
— Então não olha pra ele — a mamãe disse, cortante. — Você fez uma promessa pro seu irmão.
A culpa se torceu no meu peito porque ela estava certa. Eu tinha prometido. Na época em que parecia um sonho distante, uma coisa doce e hipotética, que a gente brincava falando entre pizza e filme ruim.
Agora era real, e a hora não podia ser pior.
— A gente tem ingressos pro primeiro jogo dele. Acesso exclusivo…
— Eu não sei se eu consigo fazer isso.
Grayson apertou meu ombro.
— O Hunter ia entender se você não pudesse ir. Mas ele quer muito você lá, querida.
A mamãe pegou uma revista na mesa de centro e largou no meu colo.
— Tá aí o seu irmão. Capa da Sports Illustrated.
Eu baixei os olhos e encarei o rosto do Hunter me olhando de volta.
A manchete dizia: SANGUE NOVO: A Arma Secreta dos Wolves.
O orgulho inchou no meu peito apesar de tudo. Ele tinha trabalhado tanto pra chegar ali.
Virei pra página seguinte, tentando focar em qualquer coisa que não fosse a ideia de ver o Cole de novo.
O que eu vi fez meu corpo inteiro congelar.
Um anúncio de algum energético. Mas eu mal registrei qual era o produto.
O homem na foto estava com a camisa meio desabotoada. Um abdômen tão definido que nem parecia de verdade. A lata de energético encostada na boca, o líquido escorrendo pelo lábio inferior, descendo pelo maxilar e pelo pescoço.
Os olhos dele eram cortantes. Azuis, frios. Encarando direto a câmera como se pudesse ver através da página.
Como se pudesse me ver.
Minhas coxas se contraíram.
— Olive?
A voz do Grayson me puxou de volta. Eu tinha ficado encarando a foto por tempo demais.
— É… foi mal, eu só… — eu pigarreei. — Quem é esse cara?
A expressão inteira do Grayson mudou. Ficou sombria, tensa. Ele apertou a caneca de café com tanta força que eu achei que fosse rachar.
— Zane Mercer.
O jeito como ele disse o nome fez parecer que aquilo doía de verdade.
— Quem?
— Meu nêmesis. — A voz dele saiu completamente plana.
— Seu nêmesis? O que você é, um supervilão?
— Ele é o melhor jogador da NHL — a mamãe disse, com cuidado agora. — E ele transformou a vida do Grayson num inferno desde que ele começou a treinar. Aquele homem fez coisas que obrigaram ele a sair do esporte de vez.
Eu tinha ouvido histórias ao longo dos anos. Referências vagas a alguém que tinha arruinado tudo, alguém poderoso e intocável que tinha destruído a carreira dele como técnico. Mas eu nunca tinha ouvido um nome de verdade.
Zane Mercer.
O melhor jogador do Chicago Wolves.
E, pelo visto, a última pessoa em quem o Grayson queria que eu pensasse.
Eu encarei a foto de novo. Aqueles olhos azuis frios, o maxilar perigoso, o corpo que parecia esculpido em pedra.
Pelo menos, se eu tivesse que passar uma semana em Chicago assistindo meu ex-namorado fingir que eu não existia, ia ter alguma coisa que valesse a pena olhar.
Eu fechei a revista e me levantei, enfiando-a debaixo do braço antes que qualquer um dos dois pudesse tomar de volta.
— Tá. Eu vou pra Chicago.
A mamãe piscou pra mim.
— Sério?
— Sério. — Eu encarei o Grayson. — Eu prometi pro Hunter que ia estar lá no primeiro jogo dele. Eu não vou quebrar essa promessa porque o Cole acabou se revelando um baita de um babaca.
A expressão do Grayson suavizou. Alívio misturado com algo que parecia orgulho.
— Além disso — eu acrescentei, tentando soar casual mesmo com o coração disparado — talvez assistir a um pouco de hóquei me ajude a seguir em frente.
