Capítulo 3 Capítulo 3: O ponto de vista de OLIVE

Capítulo 3: PONTO DE VISTA DA OLIVE

Quando eu disse que tinha um plano, eu estava mentindo na cara dura.

Eu era uma mulher de vinte e quatro anos, parada no saguão de um hotel de luxo, usando um moletom enorme e legging, com o cabelo preso num coque bagunçado que tinha desistido da vida em algum lugar lá pelo interiorzão dos Estados Unidos, e com exatamente zero estratégia além de: “não pensar no Cole e sobreviver a esta semana sem ter um colapso em público”.

Era isso. Esse era o plano.

Três dias tinham se passado desde aquele surto no escritório. Três dias fazendo e desfazendo aquelas malas idiotas que a Brenda tinha enchido de “looks de vingança” que eu provavelmente nunca ia usar.

E uma mensagem do Cole que eu apaguei sem ler.

O voo tinha sido seis horas da minha mãe tagarelando sobre a grande chance do Hunter e o Grayson fazendo ligações de negócios e eu fingindo que estava dormindo.

Agora a gente estava aqui. Chicago. O hotel.

E, puta merda, esse hotel.

O piso de mármore parecia não ter fim sob lustres enormes. Janelas do chão ao teto davam para o skyline de Chicago. E por toda parte — literalmente por toda parte — tinha gente.

Gente bonita, com roupa cara. Flashes estourando. Repórteres gritando perguntas.

Jogadores de hóquei.

Eu sabia pelo jeito como eles andavam. Aquela confiança casual. O jeito como todo mundo abria caminho pra eles como se fossem realeza.

— E aí, Olive, o que você acha? — Minha mãe estava praticamente tremendo de empolgação.

— Mãe. — Eu cortei. — Eu vim pelo Hunter. Só isso.

— Diane, deixa ela respirar. — Grayson apertou meu ombro. — Vamos, vamos fazer o check-in.

Eu fui atrás deles até a recepção, tentando manter a cabeça baixa.

Mas, quando eu levantei o olhar pra ver pra onde a gente ia, meus pais tinham sumido.

Evaporado.

— Ah, qual é… sério?

Eles já tinham feito isso antes. Minha mãe se distraía e saía andando, e de repente eu ficava sozinha tentando descobrir onde diabos eles tinham se metido.

Eu puxei o celular, procurando o contato dela.

— Ai, graças a Deus! Eu estava te procurando em todo lugar!

Duas mãos agarraram meu braço antes que eu pudesse reagir.

Eu dei um gritinho, tropeçando quando alguém me puxou para longe da área da recepção.

— Espera — acho que você pegou a pessoa errada—

— Sem tempo! O time está esperando e a gente já está quinze minutos atrasada. — A mulher que me arrastava devia ter uns quarenta e poucos, olhar afiado, andando rápido. — Por que você estava parada ali? Vamos—

— Senhora, sério, houve um engano—

Ela passou um cartão numa porta enorme e me empurrou pra dentro antes que eu conseguisse protestar.

Eu cambaleei para dentro do cômodo e congelei.

Aquilo não era um quarto de hotel. Aquilo era um ensaio.

Estruturas de iluminação montadas por toda parte. Um fundo que parecia coisa de revista.

Que porra era aquela?

— Eu sei que isso assusta um pouco — disse a mulher. — Mas essa oportunidade é enorme. Sua conexão mexeu uns pauzinhos pra te colocar aqui.

Minha cabeça virou num estalo. — Minha conexão?

Ela sorriu. — Seu irmão. Hunter Sinclair? Ele ralou muito pra fazer isso acontecer pra você.

Meu cérebro deu tela azul. — O Hunter fez o quê?

— Você vai liderar a sessão de fotos hoje. O senhor Mercer pediu especificamente que a direção criativa fosse alguém jovem, com uma perspectiva fresca, e quando o Hunter comentou que você vinha pra cidade—

— Espera. Senhor Mercer? Tipo—

Uma porta do outro lado do estúdio se abriu.

E todo pensamento na minha cabeça evaporou.

Um homem saiu.

Alto. Ombros largos. Sem camisa.

Meus olhos foram direto pro peito dele — oito relevos perfeitos de músculo, pele bronzeada que, sob as luzes do estúdio, parecia ter sido mergulhada em ouro.

Não. Isso não podia ser real.

Meu olhar subiu.

Maxilar marcado. Cabelo escuro, bagunçado, como se ele tivesse acabado de passar a mão. E então os olhos.

Azuis. Penetrantes. Frios.

Cravados direto nos meus.

Zane Mercer.

Parado ali, de calça preta baixa, sem camisa, parecia ter saído direto daquela foto de revista — só que de algum jeito ainda melhor, porque ele era de verdade e estava bem ali, na minha frente.

Eu ia morrer num quarto de hotel cinco-estrelas encarando um abdômen que nem parecia humano.

— Sr. Mercer, mil desculpas pela demora — disse a mulher, dando um passo à frente. — Esta é Olive Monroe, a diretora de criação de quem falamos.

— Não tem problema, Sheila. — A voz dele era grave. Lisa. — Estou pronto quando ela estiver.

Os olhos dele não saíram dos meus.

E eu odiei o jeito como meu estômago revirou. Como o calor subiu pelo meu pescoço. Como minhas coxas se apertaram uma contra a outra, involuntariamente.

— Maravilha! Srta. Monroe, você pode assumir daqui. Vou ficar logo ali fora se precisar de qualquer coisa.

Eu abri a boca. Não saiu nada.

Os lábios de Zane se contraíram de leve. Como se ele soubesse exatamente o que estava fazendo, ali, meio nu, me fazendo esquecer como se monta uma frase.

— Você pode sair, Sheila — ele disse. — Só preciso ficar a sós com a minha diretora de criação.

Sheila me lançou um olhar — preocupação misturada com inveja — antes de sair de fininho.

A fechadura fez clic.

Só nós dois.

O silêncio se esticou. Ele não se mexeu. Não falou. Só ficou ali, com os braços cruzados de um jeito relaxado, esperando.

Eu me forcei a respirar. A encontrar a minha voz.

— Olha, eu não sei o que está acontecendo, mas eu não sou diretora de criação. — As palavras saíram mais secas do que eu pretendia. — Aquela mulher me pegou no saguão e me arrastou até aqui achando que eu era outra pessoa. Então, seja lá o que for isso, você está com a pessoa errada e eu só... eu vou embora.

Ele inclinou a cabeça, me analisando.

O jeito como ele me olhou — como se estivesse arrancando camadas, enxergando coisas que eu não queria que ninguém visse — fez minha pele parecer apertada demais.

— É mesmo? — A voz dele veio baixa. Quase divertida.

— É. Então, se você me dá licença... — Eu me virei em direção à porta.

— Você realmente acha que isso foi um engano, Olive?

Meu nome na boca dele me paralisou.

Eu me virei de volta, devagar.

— Como você sabe o meu nome?

Ele se desencostou do que quer que estivesse apoiado e deu um passo na minha direção. Só um. Mas o quarto pareceu encolher.

— Eu sei que você não é diretora de criação — ele continuou, a voz ficando ainda mais baixa. — Eu sei exatamente quem você é.

Meu coração bateu com força contra as costelas.

— Então por que...

— E eu sei exatamente por que você está aqui.

O ar entre nós estalou.

Eu queria me mexer. Sair. Colocar distância entre nós.

Mas eu não conseguia.

Porque o jeito como ele me olhava — como se eu fosse um quebra-cabeça que ele já tinha resolvido — deixava uma coisa muito clara.

Isso não era um acidente.

— O que você quer dizer? — Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Eu estou aqui para apoiar meu meio-irmão. Só isso.

Os lábios dele se curvaram. Quase nada.

— É isso que você contou pra si mesma?

— É a verdade.

— Então por que você concordou em vir depois de ver a minha foto naquela revista?

Minha respiração travou.

Como ele...

— Seu padrasto me odeia — Zane continuou, dando mais um passo. Mais perto. — Há anos. Sua mãe conhece a história. E, ainda assim, você concordou em vir pra Chicago, para um jogo em que você sabia que eu ia jogar, logo depois de pegar seu namorado te traindo. — Outro passo. — Então me diz, Olive. Por que você está aqui de verdade?

Eu não conseguia respirar. Não conseguia pensar além do martelar nos meus ouvidos.

— Eu não sei do que você está falando.

— Não sabe? — Ele estava perto o bastante agora para eu ver uma cicatriz discreta acima da sobrancelha. Perto o bastante para eu ter que inclinar a cabeça para trás e manter o olhar. — Vou facilitar pra você.

Ele parou bem na minha frente.

O calor dele irradiava. Aquele cheiro caro, limpo, masculino, que fazia minha cabeça girar.

— Eu tenho uma proposta — ele disse, baixo. — Uma que beneficia nós dois. Mas antes eu preciso saber de uma coisa.

— O quê? — eu sussurrei.

Os olhos dele se prenderam nos meus.

— O que você está disposta a me dar?

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo