Capítulo 1 — Samuel
As coisas estavam indo bem para o baile de gala beneficente daquele ano.
Todo ano alguma coisa dava errado na semana que antecedia o evento, causando uma correria maluca para consertar tudo e colocar as coisas de volta nos trilhos.
Samuel Devreaux observava sua equipe separando os materiais que ele mandara entregar, para que, no dia, pudessem começar a montar tudo sem atrapalhar a festa de aniversário que havia reservado o salão até o meio da tarde daquele mesmo dia.
Seria apertado, com apenas duas horas para esvaziar o espaço e preparar tudo para o evento, mas Samuel sabia que sua equipe era eficiente. Eles terminariam com alguns minutos de folga, se dependesse dele.
O tema de abertura de Law & Order começou a tocar e Samuel baixou o olhar enquanto puxava o celular do bolso. Ele sabia, sem precisar olhar para a tela, que era seu advogado, Charles Montague.
— Sim? — disse, assim que atendeu e levou o aparelho ao ouvido.
— Samuel — devolveu o advogado em cumprimento, com a voz de quem fumava dois maços por dia, quando na verdade nunca havia sequer tocado num cigarro. — Você está no Bolívar?
— Onde mais eu estaria? — Samuel respondeu, com um tom quase entediado, enquanto erguia a mão para corrigir um funcionário que estava colocando as cadeiras na área errada do depósito. Elas seriam a última coisa a ser montada no salão e precisavam ficar lá nos fundos.
— Ah, ótimo, ótimo. Eu preciso falar com você — em particular — quando chegar aí.
Aquela frase atiçou a curiosidade de Samuel.
— Sobre o quê? — Havia várias possibilidades passando por sua cabeça quanto à natureza daquela conversa.
Como dono de vários hotéis de luxo e restaurantes de alto padrão, Samuel tinha sua cota de boa e má imprensa. Processos por difamação vinham sendo um problema havia cerca de uma década, com gente espalhando boatos de que ele fazia parte do submundo do crime que, em segredo, comandava a cidade.
Não importava que ele, tecnicamente, não fosse parte do submundo, e sim um dos que mandavam nele; os rumores precisavam ser esmagados e seu bom nome mantido limpo se quisesse continuar tocando seus negócios na região.
A polícia adorava chamá‑lo para depor sobre vários crimes que aconteciam, mas Charles era impecável em fazer a contenção de danos e garantir que não encontrassem nada que não deviam encontrar.
O advogado era um tubarão, e era por isso que Samuel pagava o valor do contrato e ainda mais — ter uma boa assistência jurídica era essencial para alguém na posição dele, e ele não ia economizar justamente nisso.
— Estou aí em dez minutos — avisou Charles ao cliente, antes de desligar.
Com uma expressão franzida, Samuel olhou para o celular por um segundo antes de enfiá‑lo de volta no bolso.
Lançando um olhar de varredura pelo salão, fez sinal para que uma das funcionárias mais antigas se aproximasse.
— Sim, senhor? — ela perguntou, com as mãos cruzadas nas costas, parada diante dele.
— Você é a Claudia, não é?
Ele percebeu um leve rubor subir às bochechas dela e conteve um sorriso de canto. Decorar o nome de quem trabalhava para ele, tanto no lado legal quanto no ilegal de seus negócios, fazia parte do charme que ele havia construído em torno do Samuel Devreaux que o mundo via.
— S-sim, senhor, sou eu.
— Ótimo. Vou deixar você responsável; por favor, certifique‑se de que tudo seja organizado corretamente, ou a montagem do salão vai ser um desastre.
— Claro, senhor. Obrigada.
Samuel ofereceu à mulher um sorriso caloroso enquanto passava por ela e saía do depósito. Só quando não havia mais ninguém à vista ele deixou o sorriso desaparecer e deixou a expressão de indiferença — muito mais confortável para ele — tomar o lugar.
Embora sua vida estivesse indo muito bem, pelo menos no papel — seus negócios eram mais do que bem-sucedidos e seus filhos estavam quase todos adultos e, em sua maioria, longe de encrenca —, ele se sentia vazio, como se nada daquilo realmente importasse.
Todo dia ele colocava uma infinidade de máscaras para impedir que as pessoas percebessem que ele não passava de uma casca do homem que fora um dia. Pai, chefe, criminoso, empresário… as máscaras que usava eram impecáveis depois de quase duas décadas vestindo cada uma delas.
Quase duas décadas longas e agonizantes.
Com as mãos agora nos bolsos da calça, Samuel esperava o elevador que o levaria até seu escritório no sétimo andar.
Na verdade, ele tinha um no térreo, usado para receber pessoas importantes do mundo lá fora, mas o escritório do sétimo andar era para reuniões mais… sensíveis. Já que Charles tinha especificado “em particular”, era melhor usar o espaço adequado para conversas mais delicadas.
Samuel mal tinha se sentado atrás de sua grande mesa de carvalho quando alguém bateu na porta. Reclinando um pouco na cadeira, ele conferiu a imagem da câmera que mostrava a área do lado de fora do escritório e notou que Charles havia chegado mais cedo do que o combinado.
— Entre — chamou Samuel, apoiando os cotovelos na mesa enquanto entrelaçava os dedos. Com o queixo pousado logo acima das mãos, ele cumprimentou o advogado com um aceno de cabeça quando este entrou no escritório.
Charles Montague estava na metade dos quarenta anos, relativamente baixo para um homem e um pouco acima do peso. Seu cabelo ficara grisalho na tenra idade de dezenove anos, e ele o mantinha cortado relativamente curto. — Obrigado por me receber em cima da hora — disse o advogado ao cliente, sentando-se à sua frente.
— Do que se trata, Charles? Eu tenho muita coisa acontecendo no momento.
— Eu entendo, Samuel — respondeu Charles, tirando um lenço do bolso e enxugando o suor que tinha se acumulado em volta do pescoço. Os dois já se tratavam pelo primeiro nome havia anos, a relação entre eles beirando a amizade mais do que o profissional, embora nenhum dos dois dissesse isso em voz alta. — Isso não podia esperar.
Um minuto de silêncio se estendeu entre os dois antes que Samuel erguesse as sobrancelhas.
— E então? — Ele percebeu que o advogado parecia desconfortável, quase inquieto com o assunto que tinha vindo tratar.
— Não sei bem como dizer isso, então vou simplesmente dizer — Charles finalmente suspirou, apoiando a pasta no colo, de onde tirou dois envelopes pardo antes de colocar a pasta ao lado da cadeira. — Um mês atrás, encontraram alguns restos mortais não identificados e, agora, confirmaram que pertencem a Annie Devreaux.
Enquanto falava, Charles colocou o primeiro envelope sobre a mesa de Samuel, mas o cliente ficou paralisado ao ouvir o nome da esposa desaparecida.
Dezessete anos antes, ela tinha sumido sem deixar rastro. Eles tinham acabado de ser abençoados com o terceiro filho quando aconteceu. Samuel mobilizara todo mundo, usando cada conexão que cultivara ao longo dos anos — e até fez a polícia investigar o caso — mas não conseguiu chegar a nada.
A mulher tinha desaparecido da face da Terra.
Havia muita fofoca dizendo que ela tinha fugido ou que fora assassinada pelo próprio marido, já que os rumores sobre os negócios de Samuel no submundo do crime se espalharam nos anos seguintes ao desaparecimento, mas ninguém conseguia provar nada, nem de um lado nem de outro. O caso estava frio havia anos, embora Samuel sempre mantivesse gente trabalhando nele.
Annie tinha sido o mundo inteiro para ele, e Samuel ainda a amava mais do que jamais conseguiria expressar em palavras. O desaparecimento dela o tinha quebrado, deixando apenas uma casca do homem que fora antes.
Os três filhos do casal ficaram sem mãe e sem respostas sobre para onde ela tinha ido, e ele lutou para criá-los da forma como Annie gostaria.
Agora, depois de todos esses anos, ouvir que haviam encontrado os restos dela — que ela estava morta — era algo agridoce.
Dava a Samuel um fechamento quanto ao paradeiro da esposa, mas pouco além disso. Ela tinha desaparecido porque morreu? Ou isso acontecera depois?
