Capítulo 2

Samuel ficou olhando para a pasta em cima da mesa, sem se mexer, então Charles decidiu continuar.

“A causa da morte foi ferimento por arma de fogo na cabeça”, disse ele, mantendo o tom cuidadosamente neutro enquanto vigiava o cliente como um falcão, procurando qualquer sinal de que precisava parar de falar.

“Quando?”, Samuel falou por fim.

Sem saber a que “quando” ele se referia, Charles arriscou um palpite e respondeu: “Eles acham que ela morreu há oito anos.”

Samuel abaixou o rosto até encostar a testa nos dedos entrelaçados. “E antes disso?”

“Isso é… outro assunto”, respondeu Charles, hesitando em falar sobre a próxima parte. “Parece que a sua esposa deu à luz uma filha dezesseis anos atrás, e essa menina está sob responsabilidade do serviço de assistência à infância há quase oito anos.”

“Quem é o pai?”

“Você.”

Isso fez Samuel levantar a cabeça de volta para encarar o advogado, os olhos se estreitando, desconfiados. “Isso é impossível.”

“Eu entendo”, o advogado concordou com um aceno, enxugando o pescoço de novo, “mas eu me certifiquei de conferir os resultados três vezes.”

“Nós nunca conseguimos conceber um filho, Charles, você sabe disso. É por isso que usamos barrigas de aluguel pros meninos. Como é que ela conseguiu levar uma gravidez até o fim se nós nunca…”

“Pelo que eu imagino — e isso é só um palpite — ela estava nos estágios bem iniciais da gravidez quando desapareceu. De alguma forma, ela conseguiu levar a gestação até o fim e depois criou essa criança até morrer.”

Eu tenho… uma filha… Samuel não conseguia superar esse fato. Eles sempre tinham planejado ter mais filhos, mas depois que Annie desapareceu ele jogou fora a ideia de um dia ter mais.

Sem Annie, não fazia sentido.

“Qual é o nome dela?”

Charles se remexeu desconfortável na cadeira de novo. “Vivian St Peter.”

Não era um nome que eles tivessem escolhido, caso um dia tivessem uma filha. Samuel se perguntou por que ela teria escolhido esse nome.

“Vivian foi encontrada na frente da igreja de São Pedro, numa cidade a cinco horas ao norte da capital, há oito anos. Ela estava gravemente desnutrida e machucada, mas desde então virou uma jovem normal.”

“O que você não está me contando? Tem mais coisa, não tem?”

“Tem, sim… bem… A Vivian nunca falou sobre o passado dela com ninguém; terapeutas, assistentes sociais, famílias acolhedoras, polícia, amigos… Ela recebeu esse nome por causa de onde foi encontrada — a Igreja de São Pedro fica na Rua Vivian — e não porque fosse o nome de nascimento dela.” Enquanto falava, Charles abriu a pasta que ainda estava no colo e puxou uma foto, colocando-a sobre a mesa para que Samuel pudesse ver a filha.

Com certa hesitação, Samuel pegou a foto e ficou olhando.

A menina estava na metade da adolescência, o cabelo negro preso num rabo de cavalo meio desleixado. Ela estava encolhida numa cadeira, provavelmente em alguma sala de espera pelo que parecia, com os pés dobrados para um lado enquanto lia o livro que segurava nas mãos.

Era a cara da Annie, se aquela foto quisesse dizer alguma coisa, e isso fez o coração de Samuel doer.

“Vivian…”, murmurou ele, acariciando a foto com o polegar enquanto fitava, faminto, a garota que supostamente era sua filha.

— Eles fizeram a conexão porque o DNA da Vivian foi colocado no sistema quando ela foi apreendida ainda criança; quando rodaram o da Annie, apareceu como parentesco — explicou Charles.

— Por que não descobriram isso antes? A Annie está no sistema desde que desapareceu — perguntou Samuel, a voz um pouco rouca enquanto tentava controlar a onda de emoções que vinha à tona. — Eu fiz questão de deixar o DNA dela arquivado caso… caso isso acontecesse.

A esposa dele estava morta. Ele tinha uma filha. A filha dele tinha sido encontrada oito anos atrás e ninguém tinha contado nada? Se eles soubessem…

— Pelo que eu entendi, eles só rodaram no banco de dados local, não no estadual — respondeu o advogado, agora com uma expressão fechada. — Não consigo entender por que não ampliaram pelo menos pro estadual, principalmente no caso de uma criança. Mas a Vivian não falava nada e apareceu em péssimo estado — provavelmente acharam que ela não ia querer voltar pros pais e mantiveram a busca restrita.

— Ela fala alguma coisa?

— Ah, fala sim — Charles não conseguiu impedir um leve riso. — Este é o prontuário dela, que agora é seu pra analisar. Aqui explica tudo com mais detalhes. Eu sugiro que você leia antes de conhecer ela.

— Conhecer ela… — Samuel se deu conta de que nem sequer tinha cogitado encontrar a filha até aquele momento. — Quando eu posso ver ela?

— Amanhã é o mais cedo que eu consigo — explicou o advogado, erguendo a mão para impedir que Samuel exigisse que fosse ainda naquele dia. — Você precisa entender a situação dela. Ela não sabe que você é o pai — pode muito bem ser que o que aconteceu antes de encontrarem a Vivian tenha sido feito por um homem fingindo ser pai dela, ou pior. Tem muita coisa que a gente simplesmente não sabe porque ela não se abre sobre o passado.

— Você precisa se preparar pra possibilidade de que ela não vá querer morar com você, mesmo você sendo o pai biológico. Seus filhos também precisam ouvir isso de você, pra poderem entender o que sentem, tanto quanto você precisa de tempo pra processar tudo antes de conhecer a Vivian. Ela vai sair de famílias adotivas pra um pai e três irmãos.

— Essa ligação entre vocês só foi descoberta há poucos dias, e eu quis checar três vezes antes de trazer pra você porque é uma situação delicada pros dois lados, e eu preciso que você entenda isso, Samuel. Você entende?

Samuel deixou a máscara cair, revelando o rosto que usava quando estava sozinho — vazio de expressão.

— Eu entendo muito bem, Charles. Mas também não vou permitir que mais ninguém crie a minha filha agora que eu sei da existência dela.

Soltando um suspiro, Charles se levantou, colocando a segunda pasta ao lado da primeira.

— Eu imaginei que você reagiria assim, e vou dar um jeito de fazer isso acontecer de uma forma ou de outra, mas espero que você pelo menos tente entender se ela recusar, e como forçar a situação não vai te trazer o resultado que você quer.

Mas Samuel já não estava mais ouvindo, totalmente concentrado na foto que segurava.

Vivian…

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