Capítulo 1 Traumas do passado

Dizem que o amor pode transformar uma vida. No meu caso, ele transformou‑se na minha maior prisão.

Tudo começou quando eu tinha dezoito anos. Naquela época, eu ainda acreditava em contos de fadas, naquele amor calmo e duradouro que a minha mãe sempre me contou. Foi nessa idade que conheci Salvatore. Ele tinha 26 anos, já era um homem formado, respeitado, com uma postura séria e palavras que pareciam sempre carinhosas e certas. Aos olhos de todos, ele era o homem perfeito , responsável, trabalhador, de boa família. Aos meus olhos, era o príncipe que eu esperava.

Durante cinco anos, fui a mulher mais feliz do mundo. Ele me tratava com carinho, fazia promessas de um futuro tranquilo, incentivava‑me a sonhar ,mas sempre com ele ao meu lado. Quando completei vinte e três anos, decidimos casar. Para mim, era a realização de um sonho ,queria me guardar para o casamento, tal como a minha mãe tinha feito, e acreditava que essa entrega seria o início de uma vida plena.

Mas a realidade chegou na primeira noite de núpcias, e foi um pesadelo.

Assim que estivemos sozinhos, tudo mudou. O olhar que antes era doce tornou‑se duro, possessivo. Sem pedir, sem esperar o meu consentimento, ele agarrou‑me á força, rasgou a minha roupa como se fosse um objeto qualquer e tomou‑me para si. Eu tentei resistir, pedir que parasse, dizer que não estava pronta, mas a minha voz parecia não chegar aos seus ouvidos. Naquela noite, percebi que o homem com quem me casei não existia . Era apenas uma máscara cuidadosamente construída.

Salvatore: Isto é o que as esposas fazem, Daniela. Aprende a obedecer.

As suas palavras frias ecoaram na minha cabeça, enquanto eu sentia que o meu mundo desabava. E foi só o começo.

Nos dias seguintes, começou a controlar cada passo meu. Não queria que eu continuasse os estudos de Investigação Criminal que tinha acabado de começar. Dizia que aquilo não era profissão para mulher, que o meu lugar era em casa, ao seu serviço.

Salvatore :Para quê perder tempo com livros e casos policiais? Eu sou o teu sustento, sou a tua proteção. Não precisas de nada disso.

Daniela : E o que gosto de fazer, Salvatore. É o meu sonho

Salvatore : O teu sonho agora é o que eu decidir. Entendido?

Quando eu ia à praça fazer compras, não podia sequer olhar para outro homem. Se alguém por acaso me cumprimentasse, ele fazia‑me passar vergonha, gritava comigo , quando estamos sozinhos, as mãos levantavam‑se contra mim. Depois, vinha com o rosto suave, pedia desculpas, dizia que era o stress do trabalho, que era apenas uma fase e que me amava mais do que tudo. E eu, confusa e com medo, acabava por acreditar.

Um mês depois do casamento, descobri que estava grávida. Corri para lhe contar, com o coração cheio de esperança ,talvez um filho o mudasse, talvez trouxesse paz à nossa casa. No primeiro momento, ele sorriu, pareceu feliz. Mas naquela mesma noite, voltou diferente. Tinha ouvido uma mentira contada por uma vizinha , que disse ter‑me visto com um homem e que parecíamos muito íntimos. Sem ouvir a minha versão, sem provas, ele entrou numa fúria cega. Espancou‑me com tanta violência que caí no chão, sentindo uma dor insuportável no ventre. Quando acordei, já não sentia vida dentro de mim. Tinha perdido o nosso primeiro filho.

Os dois anos que se seguiram foram um ciclo interminável de medo, dor e mentiras.

Tentei fugir uma vez. Saí de casa de madrugada, mas ele descobriu antes que eu chegasse á um lugar seguro. Ao ver‑me na rua, ele acelerou o carro e atropelou‑me de propósito, me deixou caída no chão, ensanguentada. Perdi o segundo bebê naquele dia. A última agressão foi ainda pior ,ele entrou no quarto, furioso, e me deu vários chutes no ventre, sem parar até que perde a consciência. Quando acordei no hospital, os médicos disseram que tinha que fazer uma cirurgia de emergência e que, devido aos ferimentos, as minhas hipóteses de voltar a engravidar eram quase nulas.

Graças as minhas amigas que ainda acreditaram em mim, consegui sair daquela casa, e após uma luta árdua, obtive o divórcio. Mas a justiça não foi feita como devia. Quando fui à esquadra contar tudo o que sofria, ninguém me deu ouvidos. Salvatore era Policial, uma autoridade respeitada, com poder e influência. Para todos, ele era o homem íntegro . Eu era apenas a mulher que queria difamá‑lo, que traía e inventava histórias. Ele espalhou por toda a cidade que eu era mentirosa e desequilibrada, e a sociedade acreditou nele.

Foi então que tomei a minha decisão.

Se ninguém quer ouvir a verdade, eu mesma vou aprender a encontrar

Aos 26 anos, concluí os meus estudos e me formei como detetive particular. Tornei‑me observadora, atenta a cada detalhe que os outros ignoram. Escolhi esta profissão porque percebi que a verdade muitas vezes se esconde por trás do silêncio, do medo e do poder. Quero dar voz a quem não tem força para falar, provar que nem sempre quem usa a farda ou o cargo de autoridade é quem defende a lei.

Mas mesmo livre, ele não me deixa em paz.

Ainda sinto a sua presença. Sempre que saio do escritório, vejo o seu carro parado ao longe, ou ele aparece de repente na rua, com aquele ar de dono da razão.

Salvatore: Ainda pensas que és alguém sem mim, Daniela? Não passas de uma mulher vazia, que ninguém quer. Volta para casa, que eu sei perdoar.

Daniela :Já não tenho nada a ver contigo, Salvatore.Me deixe em paz.

Salvatore : Nunca serás livre de mim. Nem no pensamento, nem na vida.

Eu nunca lhe respondo com mais do que um olhar frio. Aprendi que palavras não mudam quem já está corrompido por dentro.

Chego finalmente ao meu apartamento, fecho a porta tranco várias vezes, como se aquela fechadura pudesse proteger a minha alma. Sento na cama e olho para o vazio do quarto. Lembro da minha mãe, das suas palavras doces ,“Quando casares, minha filha, terás uma vida cheia de amor e felicidade.”

Uma lágrima escorre pela minha face.

Depois, o pensamento vai para os dois bebês que nunca pude ver crescer, para o ventre que já não poderá gerar mais vidas. Sinto uma dor tão funda que parece fazer parte do meu próprio corpo.

O amor me trouxe até aqui, mas foi a dor que me ensinou a sobreviver.

Fecho os olhos, limpo as lágrimas e respiro fundo. Decidi que o meu coração estará fechado para qualquer sentimento romântico. Não quero mais amarras, não quero mais sofrer. A partir de agora, a minha única prioridade é a verdade, a justiça que me foi negada. E se para isso tiver de enfrentar o perigo, a mentira e até o próprio Salvatore, eu estou pronta.

As sombras do meu passado ainda me acompanham, mas agora já não me assustam. Aprendi a caminhar entre elas.

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