Capítulo 3 Segredos sob o luxo

Daniela

Saio do carro, fecho a porta com cuidado ajusto a pasta de couro com todos os documentos e anotações que trouxe comigo. O calor da tarde já diminuiu, mas o ar ao redor da mansão da família Cruz parece mais pesado, como se guardasse um silêncio intencional. Dou alguns passos em direção à porta principal, antes mesmo que eu possa tocar a campainha, ela se abre. Um homem de meia-idade, vestido com um terno impecável e postura ereta, aparece na entrada é o mordomo, sem dúvida.

Mordomo: Por favor, entre, senhora. A família já a espera.

Assinto e passo por ele, assim que cruzo a soleira, o ambiente me deixa realmente impressionada. O hall de entrada é amplo, com pisos de mármore branco que refletem a luz dos lustres de cristal pendurados no teto alto. Nas paredes, grandes quadros com molduras douradas retratam pessoas de feições sérias e trajes antigos, figuras que reconheço de nomes conhecidos na história econômica e social da região. Móveis de madeira nobre, tapetes espessos e vasos com flores raras completam o cenário. Não há dúvida ,a riqueza aqui é antiga e consolidada.

Enquanto caminho pelo corredor em direção à sala principal, uma primeira hipótese passa rapidamente pela minha cabeça . Se têm tantos recursos, talvez o desaparecimento fosse um sequestro para exigir resgate. Mas logo descarto o pensamento , se fosse esse o caso, já teriam recebido um contato, uma mensagem ou uma ligação, até agora nada foi comunicado à polícia nem à família. Algo não se encaixa, guardo essa dúvida para mim mesma.

Chegamos à sala de estar, um espaço ainda mais amplo e decorado com o mesmo requinte. Sentados em sofás de couro e poltronas, vejo reunidos os familiares ,um homem de cabelos grisalhos e postura firme, que suponho ser o pai , uma senhora de rosto cansado e olhos vermelhos, certamente a mãe e ao redor deles, outros parentes tios, tias e dois irmãos mais velhos de Mariana, todos com expressões de preocupação.

O mordomo anuncia

Mordomo: Senhores, a senhora promotora Daniela Andrade.

Dou um passo à frente, mantenho calma e falo com tom respeitoso, mas firme

Daniela: Boa tarde a todos. Sou a promotora Daniela Andrade e fui designada para coordenar as investigações sobre o desaparecimento de Mariana Cruz. Estou aqui para ouvir tudo o que puderem contar e, juntos, encontrar respostas.

Mal termino de falar, ouço um soluço abafado. É a mãe de Mariana, que leva as mãos ao rosto e começa a chorar de forma contida. Por um instante, penso que talvez haja algo mais do que apenas a dor da ausência, mas deixo a impressão de lado e me aproximo dela com delicadeza.

Daniela: Senhora, por favor, tente manter a calma. Sei que é um momento muito difícil, mas cada detalhe que nos puder fornecer será essencial para encontrá-la.

Ela levanta a cabeça, enxuga os olhos com um lenço de seda e tenta responder com voz trêmula

Mãe de Mariana: Desculpe-me… é só a saudade, a preocupação. Minha menina , não consigo parar de pensar onde ela pode estar, se está bem. Não quero que nada de ruim lhe aconteça.

Daniela: Compreendo perfeitamente. Fique tranquila, faremos tudo o que for possível para localizá-la e descobrir o que realmente aconteceu. Nada será deixado de lado.

Viro então para o pai, que observa tudo com um olhar sério e atento. Abro o meu caderno, seguro a caneta e começo a fazer as perguntas, anotando cada palavra com precisão.

Daniela: Senhor Cruz, vamos começar pelo princípio. Segundo o relatório, Mariana saiu de casa ontem à noite por volta das 20h30. Ela tinha o hábito de sair a essa hora? Houve alguma discussão, desentendimento ou situação incomum antes dela partir?

Ele responde com voz grave, mas calma

Pai de Mariana: Não, promotora. Tudo estava como sempre. Ela saiu tranquila, disse apenas que ia até uma livraria especializada no centro da cidade para buscar livros novos para a faculdade , estuda Moda e Design, e esses materiais são fundamentais para os seus trabalhos. Não houve nenhuma briga, nenhuma preocupação aparente. Ela saiu como fazia tantas outras vezes.

Faço uma anotação rápida e continuo, dirigindo-me aos outros presentes

Daniela: E quanto a relações pessoais, amigos, colegas ou conhecidos? Ela mencionou alguma pessoa com quem tivesse desavenças, ou que lhe causasse insegurança? Alguém que vocês saibam que poderia ter alguma razão para lhe fazer mal?

Um a um, todos respondem da mesma forma, com a mesma incerteza

Tia de Mariana: Não, ela sempre foi muito querida, tranquila. Não sabemos de nada que pudesse ter provocado isso.

Irmão mais velho: Tinha muitos amigos, mas nunca falou em ameaças ou problemas. Tudo parecia correr bem na vida dela.

Tio de Mariana: Só queremos que ela volte em segurança. Não temos mais informações para dar, infelizmente.

Termino as perguntas com a sensação de que, por enquanto, só tenho uma versão ,a de uma jovem com vida organizada, sem conflitos, que saiu de casa e simplesmente desapareceu. Fecho o caderno, mas antes de me despedir, volto novamente para o pai.

Daniela: Senhor Cruz, se não for incômodo, poderia me permitir ir até a cozinha apenas para beber um copo de água? A viagem até aqui foi um pouco longa e sinto sede.

Antes que ele responda, a mãe intervém com educação

Mãe de Mariana: Claro que sim. Vou chamar a dona Lúcia, nossa governanta, para acompanhá-la até a cozinha.

Em poucos minutos, aparece uma mulher de idade já avançada, de expressão reservada vestida com uniforme simples mas bem cuidado. Ela faz um sinal com a cabeça e diz

Dona Lúci: Por favor, siga-me, senhora promotora.

Caminhamos por um corredor mais estreito, que leva para a parte de serviço da casa, bem diferente da decoração vistosa da sala principal. A cozinha é ampla, funcional, com armários de madeira e eletrodomésticos modernos. Ela enche um copo de vidro com água fresca e entrega-me.

Bebo devagar, e enquanto o faço, aproveito o momento para perguntar com tom calmo, sem pressa

Daniela: Trabalha aqui há muito tempo, dona Lúcia? Deve conhecer bem a rotina de todos, inclusive da Mariana. Como era o tratamento que ela recebia dentro desta casa? Era uma convivência tranquila?

A expressão dela muda imediatamente ,fica mais fechada, os olhos desviam e ela responde com voz seca e rápida

Dona Lúcia: Não estou autorizada a falar sobre assuntos da família. Desculpe.

Sem esperar por mais nada, ela recolhe o copo que eu já tinha terminado e sai da cozinha com passos apressados, deixando-me sozinha.

Fico ali por alguns instantes, refletindo. Essa reação não é comum. Uma simples pergunta sobre o dia a dia não deveria causar tanto receio nem uma resposta tão cortada. Agora tenho a certeza . A primeira pista, e talvez a mais importante, está aqui mesmo dentro desta mansão. Algo não foi dito, e os silêncios podem ser tão reveladores quanto as palavras.

Volto para a porta principal, onde o mordomo já me espera para me acompanhar até a saída.

Daniela: Agradeço muito a recepção e a atenção de todos. Voltarei em breve para trazer notícias e fazer novas perguntas, se necessário. Até lá, mantenham a calma e, se lembrarem de qualquer detalhe, por menor que pareça, entrem em contato imediatamente comigo.

Saio e caminho até o meu carro, mas antes de chegar, vejo outro veículo estacionado na entrada, um carro preto e imponente. Dele desce um homem alto, de ombros largos, trajando um terno escuro que realça a sua postura. Tem traços marcantes, um rosto extremamente atraente, mas o olhar é frio, duro e rude, como se carregasse uma desconfiança permanente.

Penso que seja da minha própria equipa e me dirijo a ele com naturalidade

Daniela: Boa tarde. Já recolhi as primeiras informações e fiz os questionamentos iniciais. Podemos combinar o próximo passo para seguir com o caso.

Ele para diante de mim, olha-me de cima a baixo com um ar de superioridade e responde com voz cortante e sem educação

Homem desconhecido: Não preciso de instruções nem de ajuda de promotoras iniciantes. Estou aqui para investigar este caso, e farei isso do meu jeito.

Fico surpresa com a rispidez e noto o olhar rápido do mordomo e do segurança que estão perto , parecem tão espantados quanto eu com a falta de respeito. Mas não vale a pena prolongar uma discussão que não levaria a nada. Apenas mantenho a compostura, viro entro no meu carro, pensando, se ele quer trabalhar sozinho, que seja. Mas também não vai impedir que eu siga o meu caminho e descubra a verdade, custe o que custar.

Ligo o motor saio da propriedade, deixando para trás a mansão cheia de luxo, silêncios e segredos. Tenho a sensação de que este desaparecimento não é nada do que parece, o caminho à frente será mais difícil e perigoso do que imaginei.

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