Capítulo 4 A sombra do passado

Daniela

Saio da propriedade da família Cruz e sigo viagem, mas a minha mente não consegue afastar aquela conversa na cozinha. A forma como dona Lúcia fechou a expressão, a pressa com que se retirou, a resposta curta e carregada de receio , algo ali não encaixa. Não é normal que uma simples pergunta sobre o convívio na casa provoque tanto medo. Ou ela foi proibida de falar sobre Mariana, ou viu algo que não pode contar, e alguém dentro daquela mansão controla cada palavra que sai da boca dos empregados. Guardo essa dúvida no fundo da minha mente, sabendo que voltarei a ela mais cedo ou mais tarde.

A tarde ainda está no início, e sinto que preciso de um momento para respirar, organizar os pensamentos e acalmar a tensão que começa a se instalar nos meus ombros. Ao chegar a uma esquina mais movimentada, avisto um restaurante pequeno e acolhedor, com mesas na varanda e luzes suaves. Decido parar ali. Estaciono o carro, desço e entro, pedindo um almoço leve e um café forte para me aquecer.

Sento numa mesa perto da janela e observo a vida a correr lá fora .Pessoas que passam apressadas, amigos que se abraçam, casais que conversam sorrindo. O ambiente é calmo, e por instantes consigo relaxar. Foi então que a minha atenção se volta para um casal que acaba de chegar à mesa ao lado. O jovem levanta, ajoelha diante da companheira e tira uma pequena caixa no bolso. Quando a abre, vejo o brilho do anel, e ouço a sua voz, trêmula de emoção, a pedir-lhe para ser a sua esposa. A jovem começa a chorar de alegria, acena várias vezes e ele levanta-a, abraçando-a com força.

Não consigo evitar , os meus olhos também se enchem de lágrimas. A imagem traz-me de imediato uma lembrança antiga, um dia em que eu também fui feliz. Lembro quando Salvatore se ajoelhou diante de mim, com o mesmo brilho nos olhos, dizendo que me amaria para sempre e que faria de tudo para me ver sorrir. Por um instante, sinto o coração aquecer com aquela memória doce , mas ela dura muito pouco. Como uma sombra que apaga a luz, vêm logo depois as lembranças amargas , as promessas quebradas, as palavras duras, o medo que ele me fez sentir, o inferno que transformou a minha vida. A alegria desaparece de vez, substituída por uma pontada no peito. Sacudi a cabeça, afastando essas recordações. Não vale a pena voltar ali. Aquilo acabou, e eu tenho uma missão a cumprir.

Termino o meu almoço, levanto vou até o banheiro lavar as mãos e refrescar o rosto. Preciso de recuperar a compostura. Quando saio do restaurante e piso a calçada, o meu sangue parece parar nas veias. Parado ali, bem à minha frente, com as mãos nos bolsos e um sorriso torto nos lábios, está ele. Salvatore. Apareceu do nada, como se tivesse saído das minhas piores lembranças, como uma assombração que não me deixa em paz.

Sinto o peito a tremer, as pernas a ficarem fracas. Mesmo que eu tenha aprendido a ser forte, mesmo que tenha passado tanto tempo, ainda resta em mim um pavor antigo, um instinto de defesa que acorda sempre que o vejo. Ele aproxima-se devagar, como se estivesse a apreciar o meu desconforto, e fala com uma voz calma, que me arrepia até à espinha

Salvatore: Sabia que ia te encontrar por aqui. Sei tudo sobre o novo caso que te entregaram. O desaparecimento da menina da Cruz, não é mesmo?

Consigo encontrar forças para responder, embora a minha voz saia mais firme do que eu esperava

Daniela: O que quer dizer com isso? Como sabe dessas coisas? Não tem nada a ver com este assunto.

Ele solta uma risada baixa, cheia de arrogância, e inclina a cabeça

Salvatore: Apenas ouve o meu conselho, esposinha. Afasta-te desse caminho. Não te metas onde não és chamada, senão vamos acabar por nos cruzar de novo , e dessa vez, não vais gostar do que vai acontecer.

O modo como ele diz a última frase me fez estremecer, mas não vou recuar. Em direito os ombros, ergo o queixo e enfrento o seu olhar cruel

Daniela: Eu vou fazer tudo o que for necessário para encontrar Mariana e descobrir a verdade. Ninguém vai me impedir . Nem você, nem ninguém. A lei está acima de tudo, e eu não vou parar.

Ele debocha ainda mais, os olhos a brilharem com malícia

Salvatore: Olha só para ti , agora já me respondes assim, toda dona de si. Esqueceste quem eu sou? Esqueceste do que fui capaz de fazer contigo? Pensas que um cargo de promotora te vai proteger de mim?

Aproxima-se mais, e o seu cheiro invade o nariz, trazendo memórias que eu queria apagar. Sinto o suor frio a percorrer a espinha, o coração a bater descompassado, mas mantenho-me firme. Não vou mostrar que ele ainda me atinge. Não vou me rebaixar diante daquele homem, daquela imundície que um dia pensei amar.

Ele chega bem perto do meu ouvido, a voz quase um sussurro, carregado de ameaça

Salvatore: Toma muito cuidado, Daniela. O caminho que escolheste não tem volta. E eu não vou ter pena se te magoares nele.

Dá um passo para trás, lança um último olhar desdenhoso e afasta-se como se nada tivesse acontecido, desaparecendo entre as pessoas na rua com a mesma facilidade com que apareceu.

Fico ali parada por longos instantes, a respiração ofegante, o corpo ainda a reagir à sua presença. A sensação de perigo fica no ar, pesada e opressiva. Mas não posso ficar aqui. Viro rapidamente e entro no carro, arrancando com força, querendo me afastar daquele lugar o mais depressa possível.

Volto ao escritório, tranco a porta do meu gabinete e respiro fundo várias vezes até conseguir me acalmar. Abro os arquivos de Mariana novamente, folheio os documentos, releio as anotações que fiz na mansão. As palavras de Salvatore ecoam na minha cabeça, mas eu tento empurrar para longe. Ele não vai controlar a minha investigação. Ele não vai controlar a minha vida.

Analiso tudo o que sei até agora ,uma jovem popular, estudante de moda, influenciadora digital, que saiu de casa e desapareceu sem deixar rastro. Uma família rica que parece esconder alguma coisa. Uma empregada com medo de falar. E agora uma ameaça vinda do meu passado, avisando para eu parar. Tudo isto parece ligado, mas ainda não consigo ver como.

Se na mansão ninguém quis dizer a verdade, tenho de procurar fora dela. O próximo passo é claro ,vou até à Faculdade de Moda e Design. Vou falar com os professores, com os colegas, com os amigos mais próximos de Mariana. Quero saber como era a sua vida ali, se tinha algum problema, se alguém lhe andava a perseguir, se escondia algum segredo dos pais. Preciso de respostas que a família não quis dar.

Fecho os olhos por um momento, apagando da mente a imagem de Salvatore. Concentro apenas em Mariana, na menina que precisa de ajuda.

Daniela: Vou encontrar _ te , custe o que custar. Nenhuma ameaça vai calar a verdade. Nenhuma autoridade, nenhum homem, nenhum segredo vai passar por cima da lei. Eu vou descobrir o que aconteceu.

Abro os olhos, guardo os papéis na pasta levanto. Estou pronta para o próximo passo. E não vou recuar.

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