Capítulo 5 OS FASTASMA DO PASSADO
Daniel
Muitos pensam que a dureza que veem em mim é apenas jeito de ser, arrogância ou costume de ver o pior das pessoas. Mas não sabem que cada linha no meu rosto, cada palavra seca que digo e cada parede que construí ao meu redor foram erguidas para esconder uma dor que nunca deixou de doer. Tudo começou há muitos anos, nos meus primeiros meses como policial, quando eu ainda acreditava que o mundo podia ser justo e que o amor era suficiente para tudo.
Naquela época, eu tinha uma noiva, a mulher que eu achava que ia passar a vida ao meu lado. E quando ela veio até mim, com os olhos brilhantes e a voz trêmula, para dizer que estava grávida do nosso primeiro filho, senti que era o homem mais feliz do mundo. Festejamos, planeamos cada detalhe ,o nome do bebê, o quarto, a vida que iríamos construir juntos. Os meses passaram depressa, e quando ela completou oito meses de gestação, pedi licença no trabalho para passarmos uns dias de descanso numa fazenda que a minha família tem no interior queria aproveitar os últimos momentos só nossos antes de o bebê chegar.
Fomos viagem, eu ao volante, ela ao meu lado, a barriga já bem grande. Paramos numa estação de serviço para abastecer, e fiquei observando-a de longe, enquanto ela conversava com o atendente do posto. O jeito como ela sorria, como se aproximava dele, pareceu estranho, quase como se estivesse a paquerar. Um ciúme descontrolado tomou conta de mim, e quando voltei para o carro, não consegui ficar calado. Começamos a discutir. Eu disse o que tinha visto, ela me acusou de ser excessivamente ciumento, de não confiar nela, de transformar tudo em problema. A discussão foi crescendo, as vozes subiram, e num momento de cegueira e raiva, perdi o controlo do veículo. O carro saiu da estrada, capotou várias vezes.
Eu estava sem cinto, mas fiquei preso entre os destroços, ferido e atordoado. Ela não teve a mesma sorte: foi projetada para fora do carro e morreu na hora, juntamente com a criança que esperávamos. Desde aquele dia, carrego a culpa pela morte deles como uma pedra no peito. Se não tivesse discutido, se tivesse mantido a calma, se não tivesse deixado o ciúme tomar conta… talvez eles estivessem aqui hoje.
Mas a tragédia não parou por aí. Durante as investigações do acidente, descobri uma verdade que partiu_ me por completo .A criança que ela esperava não era minha. E a traição não tinha sido um erro isolado , ela mantinha um relacionamento com o meu próprio irmão, há muito tempo. As duas pessoas mais próximos de mim traíram-me ao mesmo tempo, e ainda por cima eu fui o responsável por acabar com a vida dela.
Depois disso, fechei-me para qualquer tipo de relação. Não confiei mais em ninguém, não deixei ninguém chegar perto. Canalizei toda a minha força para o trabalho. Estudei mais, investiguei com mais rigor, nunca deixei nenhum detalhe passar. Tornei-me um dos melhores detetives da corporação, e quando surgiu a oportunidade, saí da polícia para ingressar na Agência Lince, uma das mais prestigiadas empresas de investigação particular do país. É um trabalho onde só os mais atentos sobrevivem. Sabemos muito bem que a nossa maior rival, a instituição que consideramos quase uma inimiga pela forma como disputa cada caso, é a Agência Águia. Até hoje nunca tinha cruzado pessoalmente com ninguém que trabalhasse lá, mas sabemos que eles fazem tudo para chegar primeiro à verdade.
Foi por isso que, quando recebi a missão de investigar o desaparecimento de Mariana Cruz, 22 anos, estudante de moda e influenciadora digital que sumiu sem deixar rastro, reuni a minha equipa logo de seguida.
Daniel: Pessoal, este caso não pode ter falhas. O primeiro passo é claro, vamos até à mansão da família Cruz. Precisamos ver com os nossos próprios olhos, ouvir o que têm para dizer e perceber por onde começar. Se a Agência Águia também pegar neste caso , e é quase certo que sim , não vamos deixar que nos passem à frente.
Cheguei à propriedade, e quando desci do meu carro, vi ali à porta. Uma mulher de ar sério, postura firme, inegavelmente bonita, mas que logo de início se dirigiu a mim como se eu estivesse ali para receber ordens dela. Não sabia quem era, mas aquele tom de superioridade me irritou profundamente. Não suporto ser tratado como se fosse um subordinado, sem que ninguém saiba sequer quem sou ou o que faço. Foi por isso que respondi daquele jeito seco e rude , não por conhecer ela, mas por não aceitar que alguém me fale assim sem saber com quem está a lidar.
Mesmo no meio daquela troca de palavras, prestei atenção a tudo o que se passava ao meu redor. Notei como a mãe de Mariana tremia sem parar, como os empregados desviavam o olhar sempre que alguém falava diretamente com eles, como cada resposta parecia ensaiada e incompleta. Saí da mansão com uma certeza absoluta, ali há segredos bem guardados. Ou a família não sabe metade do que se passa com a filha, ou estão a mentir deliberadamente para esconder a verdade.
Voltei para a sede da Agência Lince e chamei o meu ajudante, Tiago, imediatamente.
Daniel: Tiago, preciso que investigues quem é a mulher que está a tratar do caso da família Cruz. Encontrei-a na porta da mansão, falou como se mandasse em tudo. Deve ser da Agência Águia, e quero saber tudo sobre ela , nome, cargo, experiência, casos anteriores. Nada pode ficar de fora.
Tiago: Com certeza, chefe. Já vou buscar todos os dados.
Passados alguns minutos, ele regressou com uma pasta cheia de informações. Abri e comecei a ler: Daniela Andrade, promotora de justiça, responsável pela coordenação oficial do processo. Quanto mais lia sobre o seu percurso, mais estranhava ,vi que também carrega marcas do passado, que luta com princípios firmes, que não costuma recuar perante dificuldades. Fiquei intrigado, mas isso não muda a minha posição.
Fechei a pasta com firmeza e falei, mais para mim mesmo do que para Tiago
Daniel: Então é ela quem está do outro lado. Seja quem for, não vou deixar que a Agência Águia fique com este caso. Não tenho nada pessoal contra ela, mas a concorrência é assim, quem chegar primeiro e encontrar a verdade, vence. E eu não vou perder.
Tiago acenou e saiu do gabinete. Fiquei ali sozinho, a olhar para a fotografia de Mariana Cruz que tinha sobre a mesa. Agora já sei quem tenho pela frente. Mas isso não vai mudar o meu caminho. Vou investigar cada pista, cada detalhe, cada silêncio. E descobrirei o que aconteceu, custe o que custar.
