Capítulo 3
A porta de ferro do galpão rangeu quando eu a empurrei para abrir. Um cheiro forte de mofo me atingiu na hora.
Uma lâmpada fraca zumbia lá em cima. Quem me esperava não eram membros do clube — eram dois capangas de cabelo tingido de amarelo, com cara de gente sebosa e perigosa.
Eles tinham cigarros vagabundos na boca, me olhando com malícia e esfregando as mãos enquanto vinham na minha direção.
E Serena estava a uma distância segura, de braços dados com Ethan.
Meu coração afundou. Um pressentimento terrível apertou meu peito.
— Ethan, tá vendo? Eu não menti pra você. — Serena fingiu estar assustada e enojada, se aninhando ainda mais em Ethan. Ela apontou para mim e gritou: — Eu convidei ela com educação pra conversar e resolver as coisas, mas ela achou que o galpão era remoto demais e chamou esses homens aleatórios pra vir ficar aqui com ela! Ethan, ela passa a noite fora no dormitório... a moral dela já foi pro ralo. Eu fico com tanta pena de você!
Meus olhos se arregalaram, incrédula, o sangue subindo para a cabeça.
— Serena, você tá mentindo! Foi VOCÊ que trouxe essas pessoas!
— Arranquem a roupa dela! Ela convidou a gente, deixa essa putinha servir a gente direito! — Os capangas não me deram nem a chance de me defender. Avançaram, as mãos ásperas agarrando minha jaqueta e rasgando o tecido. RRRRIP — a gola se abriu, e o ar frio invadiu.
— Sai! Não encosta em mim! — Eu me debati com força, chutando e batendo. Por cima dos ombros deles, encarei Ethan, desesperada. — Ethan! Você é cego? Chama a polícia! Isso é armação da Serena!
Ethan ficou ali, parado como uma estátua gelada.
Falou devagar, a voz fria como gelo:
— Cecilia, você é mesmo do jeito que a Serena disse… capaz de qualquer coisa nojenta por dinheiro.
— Eu não fiz isso! Ethan, a gente ficou junto por anos… você acredita nessa cobra mentirosa e não em mim?! — eu gritei, desesperada, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Ele não quis ouvir. Chegou a franzir o cenho, enojado, e virou as costas para mim por completo.
Mal tínhamos terminado e ele já estava contra mim. Ao me ver desgrenhada e em desespero, ele realmente acreditou nas mentiras da Serena e ficou ali olhando com frieza, sem levantar um dedo para ajudar.
Naquele instante, alguma coisa dentro de mim se despedaçou de vez.
— Putinha, você é atrevida! — Um dos capangas, com o rosto arranhado por mim, se enfureceu e me deu um soco forte no estômago.
A dor me dobrou, e um suor frio estourou na mesma hora. Mas eu sabia que, se eu ficasse ali, eu ia morrer. Cerrei os dentes e, de algum jeito, encontrei forças para jogar a cabeça para frente e acertar o queixo do sujeito!
— AH, PORRA! — O homem gritou, cobrindo a boca e cambaleando para trás.
Eu me desequilibrei, tropecei, e minha testa bateu com força numa estante de metal enferrujada. Sangue quente jorrou, cobrindo meu rosto e embaçando minha visão. Eu não liguei para a dor — me arrastei pela porta meio aberta e corri pela minha vida.
O vento frio lá fora trazia o cheiro de terra das colinas atrás do campus. Eu mal tinha dado alguns passos quando alguém me agarrou pelo cabelo por trás e me puxou com força até o chão.
— Corre! Continua correndo, sua vadiazinha!
Era Serena, me esperando do lado de fora. Atrás dela estavam Chloe, Mandy e os outros seguidores do clube.
Serena se ajoelhou e me deu um tapa forte no rosto — de novo e de novo — bem na frente de Ethan e dos outros.
“Sem-vergonha! Dando em cima de homem em plena luz do dia, você é uma vergonha pro nosso clube!”, Serena me repreendeu com falsa indignação e, em seguida, assentiu para Chloe e as outras. “Chloe, tira fotos dessa puta! Manda no grupo pra todo mundo ver!”
Chloe e as outras puxaram os celulares, excitadas, e os flashes me cegaram enquanto fotografavam meu rosto e minhas roupas rasgadas.
“Parem... saiam de perto!” Tentei cobrir o rosto, fraca, mas Serena pisou com força na minha mão.
Serena se inclinou até meu ouvido, a voz baixa e venenosa, só para eu ouvir. “Cecilia, quem você pensa que é pra bater de frente comigo? Eu sou a herdeira da família Sterling. Mesmo que eu te espancasse até a morte bem aqui, ninguém ia dizer uma palavra! Lixo pobre como você... ninguém ia ligar se você morresse, entendeu?”
O sangue escorreu para dentro da minha boca, salgado e amargo. Ao ouvir a declaração arrogante dela, eu ri de repente.
Cuspi sangue, o peito arfando, e minha risada soou sinistra nas colinas vazias. Encara ndo aquele rosto bonito e falso, perguntei, palavra por palavra: “Você jura por Deus que é mesmo filha da família Sterling, Serena?”
A expressão triunfante de Serena congelou. Pânico e vergonha passaram pelos olhos dela. Ela desviou o olhar depressa.
Olhei por cima do ombro de Serena para Ethan, a poucos passos. Ele me encarava com frieza e nojo, como se eu fosse lixo.
Eu ri ainda mais, lágrimas misturadas ao sangue. “Ethan! Você é um idiota completo! Ela está mentindo pra você! Acredita em mim — um dia você vai se arrepender disso! Você vai pagar o pior preço por ficar aí parado e não fazer nada hoje!”
Ethan parou, franzindo a testa, claramente irritado com meu surto. Ele disparou, gelado: “Cecilia, você é uma mentirosa patológica. Não acredito que eu já namorei você. Serena, essa pessoa não merece pena. Ela me dá nojo. Vou voltar — termina isso e vem pra casa logo.”
Ethan foi embora.
Serena observou até ele sumir de vez e, então, largou qualquer teatro. Ela se levantou, com os olhos venenosos como os de uma cobra, e ordenou aos dois capangas que tinham acabado de voltar: “Segurem ela! Arranquem todas as roupas dela!”
“Serena! Não se atreva!” Eu me arrastei para trás, lutando, mas dois homens adultos eram fortes demais. Eles avançaram como animais, prendendo meus braços e pernas, rasgando o pouco de roupa que ainda restava.
O som do tecido se rasgando era ensurdecedor na escuridão.
Serena ergueu o celular, a câmera apontada direto para mim, sorrindo de um jeito assustador. “Cecilia, se você ousar chamar a polícia, eu vou postar esses vídeos em HD no fórum da escola, na internet! Vou deixar todo mundo ver o que você realmente é — você nunca mais vai conseguir erguer a cabeça!”
“SAIAM! Não encostem em mim! SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA!”
Eu me debatia e gritava, as unhas cavando trilhas de sangue na terra, a garganta em carne viva.
Mas ninguém veio. Aquela encosta abandonada era um inferno na terra, isolado do mundo.
As risadas obscenas dos capangas, os cochichos excitados de Chloe e das outras, os insultos cruéis de Serena — tudo se enroscava em mim como uma rede sufocante.
Eles não pararam. Eles me espancaram como se eu fosse uma boneca de pano.
Uma dor lacerante e uma humilhação absoluta vinham em ondas. Eu já nem conseguia gritar. Fiquei ali, como uma boneca quebrada, deixando que me machucassem.
Não sei quanto tempo passou até que o riso daqueles demônios finalmente se apagasse, deixando apenas um silêncio morto.
O vento da noite estava gelado, cortando como facas na minha pele nua.
Eu estava estendida no chão congelante, coberta de sangue.
E então, eu não senti mais nada.
