Capítulo 2 Isso não é uma transação
Uma batida seca ecoou pela suíte.
—Serviço de quarto, Sr. Watson. Seu café da manhã.
Julian colocou a conta sobre a mesa, com um tom calmo e distante.
—Coma alguma coisa primeiro.
A mulher no canto não se mexeu. Só continuou chorando.
Ele não disse mais nada — apenas pegou o garfo e começou a comer, cada movimento preciso e elegante.
—Eu te dou um milhão — disse entre uma garfada e outra. — A noite passada nunca aconteceu. Você não conta pra ninguém.
A cabeça de Cora se ergueu num solavanco.
Os olhos dela estavam vermelhos, mas a voz saiu firme.
—Um milhão?
Ele achava que ela era uma prostituta?
De algum jeito, ele tinha substituído Matt, arruinado a primeira noite dela, e agora queria comprar o silêncio dela?
A garganta de Cora apertou de humilhação.
—Eu não vou dizer uma palavra — ela disse, fria. — Mas eu não quero o seu dinheiro.
Como ela poderia contar para alguém, afinal?
Ela juntou as roupas do chão, entrou no banheiro e parou, imóvel.
A mulher no espelho parecia uma estranha — cabelo desgrenhado, olhos inchados, o rosto sem cor.
Como foi que tudo deu tão errado?
Quando saiu, Julian ainda estava sentado à mesa, sem pressa, comendo a salada como se nada tivesse acontecido.
Ele nem sequer olhou para ela.
A conta continuava intocada.
⸻
Do lado de fora do Hilton, o sol da manhã apunhalou os olhos dela.
O celular vibrou.
Uma mensagem de Matt.
Amor, estou embarcando. Não se preocupa com ontem à noite — eu sei que você não conseguiu ir. Vou esperar por você. Te vejo quando eu voltar.
Cora congelou.
Então ele nem estava no quarto ontem à noite.
Então por que ele achava que ela não tinha aparecido?
Dina tinha dado a ela o cartão-chave errado?
Não. Não podia ser. Dina não faria uma coisa dessas… faria?
Ela enfiou o celular de volta na bolsa, encarando o borrão do trânsito passando depressa.
O mundo parecia claro, barulhento — e insuportavelmente solitário.
Talvez, quando Matt voltasse, nada mais fosse igual.
Talvez fosse assim que a história deles terminava.
O peito dela se apertou. A ideia de perdê-lo doía tanto que ela tremeu.
Tudo — a noite passada, o erro, a traição — tinha acontecido numa única noite.
Dina… foi você mesmo?
Ela ligou, mas ninguém atendeu.
Então continuou andando, deixando as lembranças se repetirem na cabeça como um rolo de filme cruel.
O primeiro encontro deles.
As ligações de madrugada.
A ansiedade nervosa que ela sentira ontem, pronta para se entregar a ele.
Cada momento tão vívido — e agora, para sempre fora de alcance.
Só ontem eles tinham brincado sobre o casamento.
Ele prometera ligar todos os dias, fazer videochamada toda semana para que ela pudesse ouvir a voz dele, ver o rosto dele.
Agora essas promessas estavam em pedaços.
Ela conseguiria mesmo fingir que nada aconteceu e falar com ele de novo?
Não.
Não haveria casamento.
Nem futuro.
Nem filhos.
Não restava nada.
⸻
Um guincho estridente de freios arrancou Cora dos próprios pensamentos.
Ela piscou e percebeu que estava parada no meio da rua.
Um carro tinha parado a poucos centímetros dela.
Ela cambaleou de volta para a calçada, o coração disparado.
O motorista xingou e então acelerou, indo embora.
O celular dela ainda tocava.
A mãe de Matt.
Cora limpou o rosto, puxou o ar e atendeu.
—Alô…
A voz gelada da mulher a cortou na mesma hora.
—Cora, o Matt foi transferido para a sede. A posição dele vai ser diferente quando ele voltar. Eu tolerava o relacionamento de vocês porque ele gostava de você, mas agora que vocês vão estar em estados diferentes, é melhor você se afastar. Não se agarre a ele.
A mão de Cora tremeu em torno do telefone.
—Tem outra garota que foi com ele — a mãe de Matt continuou, num tom suave. — A família dela é excelente, e foi ela quem o recomendou para a promoção. Achamos que eles combinam mais. Você é de cidade pequena — os estilos de vida de vocês são diferentes. Se você puder terminar por conta própria, será melhor.
A ligação terminou com um clique baixo.
Cora ficou paralisada na calçada, encarando o próprio reflexo na vitrine de uma loja.
Ela e Matt tinham se amado de verdade — então por que parecia que o mundo inteiro estava determinado a separá-los?
