Capítulo 1 O sentimento

Ponto de vista de Ivy

Alguma coisa estava errada. Eu vinha dizendo isso a mim mesma havia um mês. Aquela sensação rastejante na nuca. O sussurro de que alguém estava me observando, me seguindo, rastreando cada passo que eu dava à distância.

Eu me virava de supetão numa rua movimentada e não encontrava nada. Só estranhos. Só a cidade. Só Nova York sendo ela mesma — barulhenta e indiferente.

Paranoica. Era essa a palavra que eu continuava usando.

Eu era boa em me convencer a desistir das coisas. Tinha muita prática. Mas, depois de um mês, a sensação não estava ficando mais baixa. Estava ficando mais alta. Mais específica.

Menos como ansiedade e mais como um aviso que eu ainda não tinha linguagem para decifrar. Aquilo se instalava no meu peito toda manhã quando eu acordava e me acompanhava até o campus.

Ela ainda estava ali agora, às dez da noite, quando as portas da biblioteca se fecharam atrás de mim e o frio de outubro bateu com força. Fiquei um instante nos degraus e olhei para a rua. Vazia. Iluminada por postes. Normal.

Apertei a jaqueta contra o corpo e disse a mim mesma, mais uma vez, que eu estava imaginando coisas.

Meu apartamento ficava a doze minutos a pé dos portões da NYU. Um estúdio na Bleecker Street. Pequeno, silencioso, totalmente meu. Escolhido do mesmo jeito que eu escolhia tudo na minha vida.

De propósito. Com cuidado. Longe o bastante dos dormitórios para eu conseguir respirar, mas perto o suficiente do campus para eu não ter desculpa para me atrasar.

Eu não fazia dormitórios. Gente demais. Barulho demais. Corpos demais espremidos num espaço pequeno demais, sem lugar nenhum para desaparecer quando você precisava.

Crescendo, eu aprendi que proximidade não era a mesma coisa que segurança. Às vezes, o lugar mais perigoso em que você podia estar era cercada de pessoas. Lição antiga. Nunca esqueci.

Passei por um grupo do meu seminário de psicologia do lado de fora de um bar na esquina. Um deles levantou a mão. Eu assenti de volta e continuei andando.

Esse era o limite da minha vida social, e eu estava em paz com isso. As pessoas começavam com coisas pequenas: seu tempo, sua atenção, e iam trabalhando devagar até chegar às coisas que realmente custavam. Sua confiança. Sua suavidade.

As partes de você que não dava para recuperar depois que você entregava. Eu não tinha interesse em pagar esse preço. Coloquei meus fones de ouvido sem nada tocando e segui em frente.

A duas quadras do meu prédio, a sensação disparou. Não aquele zumbido de fundo de sempre. Algo mais agudo. Algo imediato.

Um frio repentino que não tinha nada a ver com o tempo, uma tensão atravessando meus ombros, cada pelo dos meus braços se eriçando sob a jaqueta.

Parei de andar. Virei devagar.

A rua atrás de mim estava vazia. Um poste. Asfalto molhado captando a luz alaranjada.

Um táxi se movendo devagar no fim da quadra. Uma mulher do outro lado passeando com um cachorro que puxava a guia em direção às sombras entre dois carros estacionados. Nada.

Mesmo assim, meu coração estava martelando. Não tem nada aí. Nunca tem nada aí. Para com isso e anda. Eu disse a mim mesma. Virei de novo para a frente. Peguei o atalho.

A passagem estreita entre dois prédios antigos de tijolo, a um quarteirão da minha porta. Seis semanas atravessando aquilo todas as noites, sem um único problema. Economizava três minutos do meu caminho para casa. Não havia motivo para evitar.

Eu estava na metade do caminho quando um rosnado me parou, cravando meus pés no chão. Baixo. Áspero. Ele atravessou meus pensamentos e atingiu alguma coisa bem fundo em mim. Um instinto antigo que reagiu antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo.

Virei na direção do som. Havia algo parado na outra ponta do corredor. Minha mente tentou dar sentido àquilo, tentou encontrar uma palavra que servisse. “Lobo” foi a mais próxima que encontrei, mas não servia nem de longe.

Aquilo era para um lobo o que uma tempestade é para uma brisa. A mesma forma básica, mas numa escala completamente diferente. Grande demais. Largo demais. Imóvel demais, de um jeito que parecia intencional. Não estava se escondendo. Não estava assustado. Estava esperando.

Os olhos dele encontraram os meus no escuro, e meu estômago despencou como se atravessasse o chão. Amarelos. Ardentes. Fixos em mim com uma inteligência fria e afiada que minha mente se recusava a aceitar.

Eu não gritei. O som nem chegou a sair. Alguma coisa no meu peito simplesmente travou. Fiquei ali, agarrando a alça da bolsa com as duas mãos como se isso significasse alguma coisa, os pés pregados no chão, o coração martelando enlouquecido atrás das costelas.

Ele baixou a cabeça e avançou. Eu me atirei para o lado. Minhas costas bateram com força na parede, e as mandíbulas dele se fecharam no ar ao lado do meu rosto — tão perto que senti o calor do bafo na pele.

Eu me achatei contra a parede de tijolos e procurei algum lugar para correr. Não havia. Ele voltou a me rodear com uma paciência que, de algum modo, era pior do que a velocidade.

Sem pressa. Seguro. Do jeito que algo se move quando já conhece o final.

Ele se virou para me encarar de novo. É isso, disse uma parte quieta de mim. É isso mesmo. E então algo se chocou contra ele de lado.

O impacto foi enorme. Um som como o mundo se partindo. A força sacudiu as duas paredes do corredor e arremessou a coisa de olhos amarelos contra os tijolos com força suficiente para deixar uma marca.

Algo ficou de pé sobre ele.

Pelagem negra. Enorme. Uma forma que preenchia o corredor inteiro, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar e todo o resto estivesse apenas atrapalhando.

Ele se movia com uma precisão aterradora — nenhum movimento desperdiçado, nenhuma hesitação, só violência controlada. O lobo de olhos amarelos revidou. Mas não adiantou.

O lobo negro o imobilizou em segundos. Suas mandíbulas se fecharam na garganta dele. Um som grave rolou do peito, vibrando pelo chão e entrando nos meus ossos.

Então ele soltou.

O lobo de olhos amarelos fugiu. Desapareceu na escuridão como se tivesse acabado de enfrentar algo muito pior do que ele mesmo.

O lobo negro se virou. E olhou para mim. Minha respiração parou.

Os olhos dele eram negros, atravessados por um vermelho profundo que pulsava devagar, como um fogo que não queria se apagar. Por trás deles havia algo que eu não conseguia nomear. Algo que não me olhava como presa.

Ele me olhava como se me conhecesse.

Ele deu um passo à frente.

A parede pressionou minhas costas. O chão pareceu inclinar. A escuridão se fechou em todas as bordas da minha visão e minhas pernas cederam.

Duas mãos me seguraram antes que eu caísse.

Quentes. Firmes. Seguras.

No instante em que aquelas mãos tocaram minha pele, alguma coisa rasgou meu corpo inteiro como um relâmpago.

E então tudo ficou preto.

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