Capítulo 2 O rei alfa

Ponto de vista de Caden

Nova York estava apodrecendo.

Não a cidade em si — a matilha sob ela. Eu já sabia antes mesmo de pousar. Os relatórios que vinham do Território Leste de Blackwell só pioravam havia três meses.

Avistamentos de renegados. Ataques sem provocação. Membros da matilha desaparecendo ao longo das linhas de fronteira. O Alfa Reid estava perdendo o controle do próprio território e, em vez de admitir, enterrou os relatórios até que chegassem à minha mesa por canais paralelos.

Só isso já bastava para tornar a viagem necessária.

Eu não gostava de Nova York. Barulhenta demais. Exposta demais. Oito milhões de humanos espremidos numa ilha, com uma das minhas matilhas mais antigas operando debaixo deles.

Num dia bom, era um problema de gestão. Num dia ruim, era uma catástrofe esperando para parar no noticiário da noite. E esta noite tinha potencial para ser um dia muito ruim.

Eu me movia sozinho pelo lado leste do território. Deixei Lucas no hotel com instruções rígidas para não sair de lá e assumi a patrulha eu mesmo.

Não porque eu não confiasse no meu beta. Mas porque eu precisava ver o território com os meus próprios olhos, em vez de através do relatório de outra pessoa.

A transformação veio naturalmente. Sempre vinha.

Num momento, um homem de casaco escuro caminhando pelas ruas vazias. No seguinte, ele desaparece. Algo maior, mais antigo e muito menos paciente com o mundo toma o lugar dele.

Corri até a fronteira.

A cidade se movia ao meu redor como sempre, alheia. Humanos eram notáveis na capacidade de não ver o que estava diretamente à sua frente.

Um lobo do meu tamanho se deslocando pelas sombras da parte baixa de Manhattan, e nem um par de olhos me viu. Olhavam para os celulares. Olhavam uns para os outros. Olhavam para tudo, menos para os espaços escuros entre as coisas.

Isso facilitava meu trabalho.

Meu lobo via de outro jeito. Sempre via; aquela parte fria e ancestral de mim que observava o mundo com olhos mais antigos e tirava conclusões que o homem em mim se esforçava para ignorar.

Ele achava a distração humana menos conveniente do que eu — e mais parecida com um convite.

Continuei em frente.

A fronteira leste estava pior do que os relatórios sugeriam. Eu conseguia sentir pelo cheiro; aquela aspereza no ar que significava renegado. Não um. Vários.

Eles tinham passado por esse corredor recentemente, se movendo sem estrutura de matilha, sem direção. Só presença. Só a marcação territorial de lobos que tinham parado de seguir qualquer lei além da própria fome.

Alguém estava mandando eles para cá de propósito.

Essa era a parte que Reid tinha deixado passar — ou escolhido não incluir nos relatórios que enterrou. Aquilo não era alguma atividade aleatória de renegados. Era coordenado.

Alguém estava empurrando lobos para dentro deste território com intenção — testando a fronteira, testando a resposta da matilha, testando se o Rei Alfa estava prestando atenção.

Eu estava prestando atenção agora.

Meu lobo avançou com algo que não era bem raiva. A fúria fria e específica de um predador cujo território foi tocado sem permissão. Eu deixei que ele a sentisse. A raiva era útil. A raiva mantinha você afiado.

Continuei correndo.

O cheiro atingiu meus sentidos antes de eu chegar à passagem. Sangue. Medo. Humano.

Eu já me movia antes que o pensamento se formasse — cortando à esquerda pelas sombras, encurtando a distância em segundos, a cidade passando borrada em faixas de luz e som.

O cheiro ficou mais forte conforme eu me aproximava. Um renegado. Fresco. Ativo. E, por baixo disso, outra coisa. Algo que puxava o lobo dentro de mim de um jeito que eu nunca tinha sentido antes. Algo que ainda não tinha nome.

Virei a esquina e vi na mesma hora. Um renegado. De porte médio, selvagem, movido por instinto e por algo mais sombrio que o empurrava adiante. Ele tinha uma garota humana encurralada contra a parede. Ela não estava gritando.

Aquilo caiu em algum lugar separado da ameaça à minha frente. A maioria dos humanos, numa situação dessas, já teria sumido — correndo, gritando, completamente dominados pelo medo.

A garota estava colada nos tijolos, com as duas mãos agarradas à alça da bolsa, o maxilar travado; e os olhos, mesmo àquela distância, completamente firmes de um jeito que não fazia sentido. Ela estava observando. Ainda. Mesmo agora. Mesmo apavorada até o último fio de sanidade. Ela estava observando.

Atingi o renegado antes que ele pudesse se virar.

O impacto foi limpo. Eu já tinha feito isso vezes demais para desperdiçar movimento. Batemos na parede juntos, e eu já estava com a garganta dele antes que se recuperasse.

Ele lutou. Eles sempre lutavam. Mas não importava. Nada nesse território chegava perto do que eu era, e todo renegado sabia disso no instante em que a gente encostava.

Esse ficou imóvel em menos de dez segundos.

Eu o segurei um pouco mais do que precisava.

Eu queria saber quem o tinha mandado. Matá-lo agora significava perder essa pista. Então eu o soltei.

Ele correu. Eu nem me dei ao trabalho de ir atrás; seria encontrado e trancafiado antes do amanhecer.

Entrei na sombra na borda da passagem e voltei à forma humana. Foi rápido. A cidade voltou num estalo, em foco humano nítido, enquanto meus sentidos se assentavam. Endireitei o corpo e dei um passo para a luz.

Ela ainda estava de pé. Mal.

Caminhei na direção dela, e foi aí que me atingiu por completo — o cheiro dela de perto, sem mais se misturar ao renegado e ao medo. Algo no meu lobo ficou totalmente imóvel.

Não a imobilidade de um predador avaliando perigo. Outra coisa. Algo que eu nunca tinha sentido antes em vinte e oito anos.

Eu empurrei aquilo para baixo e continuei andando.

Ela estava lutando para não cair por pura teimosia. Eu via; as pernas tremendo, a cor sumindo do rosto, o aperto branco dos dedos na alça da bolsa como se aquilo fosse a única coisa firme que restava no mundo dela.

— Ei.

Os olhos dela reviraram.

Eu me movi sem pensar. Fechei os últimos dois passos e a peguei antes que batesse no chão. Ela desabou contra mim, e minhas mãos a seguraram. No instante em que nossa pele se tocou, algo me atingiu como um golpe físico.

Uma corrente. Um reconhecimento. Algo antigo e incontestável atravessando cada parede que eu tinha passado a vida inteira construindo. Meu fôlego travou. Meu lobo avançou com uma certeza tão absoluta que me roubou o ar por completo.

MINHA

O pensamento veio. Não de mim. Mais fundo do que eu. Da parte que era mais velha do que o pensamento e que nunca, nem uma vez, tinha errado sobre nada que importasse.

Ela é minha. Eu fiquei completamente imóvel.

Eu estava num beco escuro de Nova York, olhando para a garota inconsciente nos meus braços, e senti tudo o que eu sabia se deslocar sob meus pés.

Humana. Jovem. Sem a menor ideia do que tinha acabado de encontrar.

Fiquei olhando o rosto dela por um longo momento. Então alcancei o vínculo mental. Lucas. Preciso de você. Passagem do lado leste, perto da Bleecker. Agora.

Uma pausa.

— Devo perguntar?

— Não.

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