Capítulo 4 A mentira
Ponto de vista de Caden
Ela não correu. Eu tinha meio que esperado que corresse. A maioria das pessoas — “humanos” — corria quando era confrontada com algo que a mente não conseguia entender. O corpo decidia antes da mente, antes que a mente alcançasse.
Essa garota se manteve firme.
Ela estava no meio de um anfiteatro vazio, o celular na mão, o queixo erguido e os olhos presos nos meus. Não se mexeu nem um centímetro.
O medo estava ali. Eu conseguia sentir o cheiro, fraco e rigidamente controlado, o odor específico de alguém que aprendera, há muito tempo, a contê-lo.
Mas por baixo do medo havia algo mais constante. Algo que já tinha sido posto à prova antes e não tinha quebrado.
Atravessei a sala e olhei para ela — olhei de verdade. Pela primeira vez desde a noite passada. A noite passada tinha sido sobre controle e sobre manter as coisas contidas. Não havia espaço para mais nada.
Agora havia espaço.
Ela era menor do que eu lembrava. Miúda. Do tipo que parece frágil até você reparar no maxilar e entender que “delicada” era uma palavra completamente errada.
Cabelo escuro preso para trás, afastado de um rosto feito de ângulos discretos e autocontrole cuidadoso. Olhos em algum lugar entre castanho e âmbar, dependendo da luz, e afiados. Afiados demais para alguém que não fazia ideia de onde tinha se metido.
A boca estava comprimida numa linha que reconheci na hora. Controlada. Treinada. A expressão de alguém que aprendera há muito tempo a não mostrar o que sentia.
O vínculo se agitou baixo no meu peito, e eu o empurrei para baixo antes que virasse algo que eu não pudesse controlar.
Meu lobo tinha outras ideias.
Ele não concordava desde a noite passada. Aquela parte antiga, movida a instinto, que compartilhava cada pensamento e cada respiração, vinha pressionando contra o meu controle desde o momento em que a pele dela encostou na minha naquele beco.
Ele não fazia alarde. Não precisava. Ele simplesmente estava ali — constante, certo, imóvel como uma maré que você não consegue deter.
Ela é nossa, ele continuava dizendo sem palavras. A sensação era sentida, não ouvida. Eu continuei andando.
— Como você está se sentindo? — perguntei. — Depois de ontem à noite.
Algo passou pelo rosto dela. Não era surpresa. Ela estava pensando, se ajustando e encaixando aquilo no que já sabia.
— Bem — ela disse.
Mentira. Limpa e ensaiada. Ela já tinha contado aquela mentira específica muitas vezes. Eu ouvia isso no quanto vinha fácil. “Bem” era uma armadura para essa garota. Era assim havia muito tempo.
— Você desmaiou — eu disse.
— Eu sei.
— Isso não é “bem”.
O maxilar dela se contraiu de leve.
— Quem é você?
Enfiei a mão no casaco e tirei o cartão que Lucas tinha feito às seis da manhã. Limpo. Profissional.
Ela pegou com cuidado. Os dedos estavam firmes. Tudo nela estava firme, mas aquilo estava custando caro. Eu via na tensão sutil dos ombros, no jeito como ela controlava a respiração um pouco demais.
Ela estava se mantendo inteira na força.
Algo no meu lobo reagiu a isso com um reconhecimento que eu não queria examinar.
— Você é segurança particular — ela disse.
— Contratado para monitorar uma série de incidentes nesta área nas últimas semanas. — Mantive a voz neutra. — Ontem à noite, eu estava fazendo uma verificação de perímetro de rotina quando me deparei com a situação na passagem.
Ela ergueu os olhos do cartão.
O contato visual me atingiu com mais força do que deveria. Os olhos dela estavam totalmente âmbar sob a luz do auditório — firmes, diretos. A maioria das pessoas não conseguia sustentar meu olhar por muito tempo. Desviavam em poucos segundos.
Ela não.
“A situação”, ela repetiu.
“Um cachorro grande. Agressivo. Provavelmente abandonado.” Sustentei o olhar dela. “Você teve sorte de eu estar por perto.”
Ela não respondeu.
Ela estava pensando. Com cuidado. Com medida. Eu a observei fazer isso e mantive o rosto imóvel enquanto o vínculo pressionava meu autocontrole como pressão contra uma porta trancada.
Ela não acredita em você, o pensamento emergiu. Não era totalmente meu — o lobo em mim a lendo do jeito que lia tudo. Cada pequena mudança na expressão dela. Cada respiração controlada. Cada coisinha que ela tentava esconder.
Ela vai questionar tudo.
Ele tinha razão. Sempre tinha razão sobre coisas assim.
“Um cachorro”, ela disse.
“Um grande. Raça forte—”
“Não era um cachorro.”
A voz dela saiu baixa. Convicta. Ela já tinha se decidido.
“Srta. Sinclair—”
“Eu voltei lá hoje de manhã.” Ela virou o celular na minha direção. A foto. A parede rachada. As marcas no concreto.
“A adrenalina pode afetar como as pessoas se lembram das coisas—”
“Não faça isso.” Havia uma lâmina por baixo da calma dela. “Não explique a minha própria mente para mim. Eu sou estudante de psicologia. Eu sei o que a adrenalina faz com a memória. Também sei a diferença entre memória ruim e evidência de verdade.”
O celular permaneceu firme na mão dela.
De perto, aquela firmeza parecia real. Como algo que ela tinha construído com o tempo. Por motivos que eu ainda não conhecia.
Meu lobo se mexeu com aquela palavra. Paciente de um jeito que eu não era. Vamos saber, disse a sensação. Vamos saber tudo sobre ela, eventualmente. Vá com calma. Ela não vai a lugar nenhum.
Sustentei o olhar dela e senti o vínculo de companheiros bater forte. Tive que me firmar contra aquilo. Parecia físico. Como se eu estivesse me segurando em alguma coisa.
Por fora, eu continuei calmo. Composto.
Por dentro, nada estava calmo.
Ela merece a verdade, o pensamento veio de novo. Não estratégia. Algo perto de culpa. Eu não disse.
“O dano na parede é compatível com um animal grande se movendo em alta velocidade”, eu disse. “Nossa equipe verificou a cena hoje de manhã.”
Ela abaixou o celular devagar. Ela me estudou.
Ninguém me estudava do jeito que ela estudava. Não procurando fraqueza. Não tentando ganhar nada. Só olhando para o que realmente havia ali, por baixo do que eu escolhia mostrar.
“Como eu cheguei em casa?”, ela perguntou.
“Eu chamei um carro.”
“Eu não me lembro de entrar num carro.”
“Você estava quase inconsciente—”
“Quem me deixou entrar no meu apartamento?”
“Suas chaves estavam na sua bolsa.”
Ela absorveu aquilo e escolheu não pressionar mais. Inteligente.
“Por que você está aqui hoje de manhã?”, ela perguntou.
“Protocolo.” Enfiei a mão no casaco e peguei o segundo cartão. Só um número. Estendi para ela. “Algumas coisas é melhor discutir em outro lugar.”
Ela olhou para o cartão. Depois para mim.
“Você já sabe onde eu moro”, ela disse, baixo. “Sabe que eu voltei lá hoje de manhã. Sabe o meu nome.” Uma pausa. “Há quanto tempo você está me observando?”
A resposta de verdade pressionou forte no meu peito.
“Café”, eu disse. “Uma hora. Depois você decide o que fazer com o que eu te contar.”
Ela me encarou por um longo momento. O vínculo puxou. Eu não me mexi. Então ela pegou a bolsa.
