Capítulo 5 Café e mentiras

Ponto de vista de Ivy

Eu não sabia por que tinha dito sim.

Era isso que mais me incomodava enquanto eu caminhava ao lado dele até a cafeteria. Não a parede rachada. Não o que eu vi no beco. Nem o fato de que um estranho, de algum jeito, tinha me levado para casa ontem à noite e agora estava no meu auditório, fazendo perguntas cujas respostas ele claramente já sabia.

O que me incomodava era que eu tinha dito sim.

Eu não fazia isso. Eu não seguia homens estranhos até cafeterias. Eu não aceitava cartões de gente que aparecia em salas vazias sabendo meu nome, meu endereço e exatamente onde eu tinha estado às sete da manhã.

Eu tinha regras. Regras cuidadosas, rígidas, construídas ao longo de anos vendo o que acontecia quando você confiava na pessoa errada.

E, ainda assim, lá estava eu.

Caminhando ao lado de Caden Blackwell — era esse o nome no cartão. Numa manhã de terça-feira, como se isso fosse normal.

Ele andava como se fosse dono da rua.

Não de um jeito barulhento. Nem agressivo. Apenas com certeza. Como se o espaço ao redor dele já pertencesse a ele e todo o resto se movesse em torno disso.

As pessoas saíam do caminho sem pensar. Um grupo de estudantes se abriu ao nosso redor sem tirar os olhos dos celulares. Um entregador se desviou no último segundo, como se alguma coisa no corpo dele tivesse avisado.

Ninguém olhava para Caden Blackwell.

Eu reparei nisso. Eu reparava em tudo. Velho hábito.

A cafeteria era pequena. Aconchegante. Do tipo que estava ali havia anos e pretendia ficar por muitos outros — cadeiras descombinadas, um cardápio escrito num quadro de giz, o cheiro de alguma coisa assando por baixo do cheiro de café.

Ele segurou a porta.

Eu entrei sem reagir e escolhi a mesa por conta própria. Canto. Costas para a parede. Visão clara da porta da frente e das janelas.

Ele se sentou à minha frente sem dizer uma palavra.

O olhar rápido que ele lançou ao ambiente me disse que ele tinha visto a mesma coisa que eu e escolhido aquele lugar por esses motivos. Isso deveria ter me feito sentir segura. Não fez.

A atendente veio. Ele pediu café preto sem olhar o cardápio. Eu pedi o mesmo. Eu não ia ficar sentada ali com uma bebida chique enquanto ele me observava com aqueles olhos.

Aqueles olhos.

Escuros. Firmes. Não eram só uma cor, mas várias — castanho profundo nas bordas, quase preto no centro. Eles não se moviam como os olhos da maioria das pessoas. Nada de tremeluzir, nada de procurar. Só quietos. Como se ele tivesse escolhido onde olhar e não visse motivo para mudar.

Agora, ele estava olhando para mim. Eu coloquei o cartão sobre a mesa, entre nós.

— Começa a falar — eu disse.

Algo se mexeu no canto da boca dele. Não chegou a ser um sorriso. Só um indício. Sumiu antes de se formar.

— O quanto você se lembra de ontem à noite? — ele perguntou.

— Eu perguntei primeiro.

Ele fez uma pausa. Olhou para mim como se estivesse ajustando alguma coisa na cabeça.

— A Blackwell Security foi contratada por várias empresas desta área depois de uma série de incidentes nos últimos dois meses — ele disse. — Distúrbios. Danos à propriedade. Relatos de animais de rua agressivos. Ontem à noite, eu estava fazendo uma verificação do perímetro quando encontrei você na passagem.

—E o cachorro.

—E o cachorro.

O café chegou. Ele envolveu a xícara com as duas mãos. Mãos grandes. Eu reparei nisso também — do jeito que eu reparava em tudo, guardava, e arquivava em algum lugar útil.

—Que tipo de prestador de segurança faz uma verificação de perímetro a pé? — perguntei. — Sozinho. Às dez da noite.

—O tipo meticuloso.

—Isso não é resposta.

—Não — ele concordou. — Não é.

Eu olhei para ele. Ele olhou de volta.

Essa era a coisa em Caden Blackwell que eu não conseguia encaixar — o jeito como ele sustentava o olhar. Era para ter parecido uma ameaça. Na minha experiência, homens que olhavam para você assim ou estavam tentando te dominar, ou estavam tentando te conquistar.

Aquilo não parecia nem uma coisa nem outra. Parecia ser vista por algo muito antigo e muito paciente, algo que tinha decidido te dar toda a atenção.

Aquilo fez alguma coisa se deslocar no meu peito. Eu não tinha nome para aquilo. Fui eu quem desviou o olhar primeiro. Peguei meu café. Dei um gole lento.

—Como você soube que eu voltei ao beco hoje de manhã? — perguntei.

—Estávamos de olho na área.

—Em mim ou na área?

Uma pausa.

—Na área.

Outra resposta que soava verdadeira, mas dizia muito pouco. Ele era bom nisso. Falava de um jeito que continuava sendo fiel aos fatos, mas deixava de fora o que importava. Eu conhecia esse tipo de fala. Cresci ouvindo.

—Sr. Blackwell—

—Caden.

Ergui o olhar. Ele disse aquilo de maneira simples. Não como uma ordem. Não tentando me encantar. Só uma correção, quieta e direta.

—Caden — eu disse. O nome soou estranho na minha boca. Familiar demais de um jeito que não tinha o menor direito de ser. — O que você não está me contando?

Alguma coisa mudou na expressão dele. Pequena. Sutil. Não na superfície — mais fundo. Como se ele tivesse feito uma escolha e, deliberadamente, se contido.

—Os incidentes nesta área são mais graves do que nós dissemos inicialmente ao público — ele disse com cuidado. — O animal que atacou você ontem à noite não foi o único. Houve outros.

—Outros.

—Outros ataques. Outras pessoas. — Ele fez uma pausa. — Você não foi escolhida ao acaso.

A xícara de café parou no meio do caminho até a minha boca.

—O que isso quer dizer?

—Quer dizer que você deve ter cuidado. — A voz dele continuou uniforme, mas os olhos, não. Alguma coisa se moveu neles — uma raiva baixa, bem contida. — Quer dizer que você não deve andar sozinha à noite. Não deve pegar atalhos por passagens sem iluminação. Não—

—Por que eu? — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. — Você disse que eu não fui escolhida ao acaso. Por que eu?

A pergunta ficou entre nós. Ele me encarou por um longo momento. Alguma coisa rachou na compostura dele. Pequena. Rápida. Quase sumiu no mesmo instante. Mas eu vi.

—Isso — ele disse, baixo — é o que eu estou tentando descobrir.

Meu celular vibrou em cima da mesa. Eu olhei para baixo.

Número desconhecido. O mesmo de hoje de manhã. Mas Caden estava sentado bem na minha frente, com o celular ainda no bolso do casaco.

Eu ergui o olhar.

Ele já estava olhando para o meu telefone. A expressão no rosto dele me tirou o ar.

Não era surpresa. Era reconhecimento.

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