Capítulo 1

Ponto de vista de Kavira

— Ela voltou! — a voz de Maelira ecoou lá de dentro da cabana, e eu não consegui evitar uma risada baixa ao atravessar a porta do nosso aconchegante esconderijo no meio da mata.

Houve um tempo em que éramos as autoproclamadas três encrenqueiras, mas, conforme fomos crescendo, o nome perdeu a força e viramos algo mais próximo de irmãs. Laços de verdade, inquebráveis, forjados no caos, na sobrevivência e na escolha.

Eu sou Kavira. Um metro e setenta, olhos verde-azulados escuros, longas ondas de cabelo castanho-escuro caindo até a cintura, e um corpo esguio, definido, endurecido por anos de independência. Meu irmão é o Alfa da Alcateia Lua de Sangue, mas eu nunca me adaptei à vida de alcateia — não depois da forma como crescemos. Eu construí algo diferente para mim. Uma vida nos meus termos, com duas mulheres incríveis ao meu lado. Meu irmão respeita isso, e nós ainda somos sócios de uma joalheria de sucesso.

Maelira é o fogo do nosso trio. Ela tem um metro e sessenta e cinco, pele de porcelana salpicada de sardas, cachos ruivos-claros emoldurando os olhos dourados e travessos. É toda atrevida e provocadora, nunca do tipo que foge de um desafio. O tipo de mulher que passaria a perna num grupo de homens no bilhar, levaria cada dólar e ainda piscaria ao ir embora. Só que, por trás do charme, existe uma sobrevivente. Órfã desde cedo, ela cuida de si mesma desde que aprendeu a andar. Eu a conheci no dia em que ela tentou bater a carteira do meu irmão. Peguei ela no ato, assumi a culpa, e ele deixou que ela vivesse. Nós duas tínhamos dezesseis anos, e aquele momento selou a gente. Até hoje a gente ri disso.

Zivenya é a nossa calma constante. A garota comum da vizinhança, com herança indiana e uma força graciosa nela. Cabelo preto comprido, com uma ondulação suave, pele morena, um metro e setenta como eu, com um corpo delicado e enxuto. Ela prefere jeans e uma boa camisa a qualquer coisa chique. A família dela tinha vindo da Índia para os EUA por causa do nosso negócio de joias. Mas um acidente de carro levou todos eles. Ela estava na nossa casa quando aconteceu. Sem outros parentes, ela ficou. Eu tinha dezessete; ela, dezesseis. Maelira e eu a acolhemos, reivindicamos como nossa.

Meu irmão deu às duas um status honorário de alcateia para que elas não carregassem o cheiro de renegadas. Mas nós não éramos como outras lobas. Com o passar dos anos, desenvolvemos um conjunto de habilidades único — alguns chamariam de criminoso; nós chamamos de necessário. Maelira nos ensinou a bater carteira. Nós ensinamos a ela como usar esse talento por causas mais nobres.

Nosso primeiro trabalho de verdade? Uma Luna em Dakota do Sul comprou um conjunto deslumbrante de brincos de diamante azul na nossa loja. Eu tive de entregar pessoalmente. Não muito tempo depois, alguém quase a matou e roubou os brincos. Nós rastreamos os ladrões e recuperamos tudo. Ela sobreviveu. E o Alfa dela ficou agradecido. A notícia se espalhou.

Agora, as pessoas nos procuram quando algo precisa ser encontrado. Nós não roubamos por ganância — recuperamos o que nunca deveria ter sido tomado. A versão lupina de Robin Hood, eu suponho. Não para os necessitados, e sim para os legítimos donos.

Nós três conseguimos nos adaptar, seduzir, nos infiltrar e sumir sem deixar rastro. Estamos sempre nos mudando por causa do “trabalho”, mas esta casinha de montanha em Montana é o nosso refúgio seguro. Escondida no fundo de um vale, ela é camuflada para parecer com a mata ao redor — de cima, nada além de arbustos e árvores. Só quando você está bem na frente percebe que é uma casa. Um balanço na varanda, um cantinho quieto para sentar, paz. Ninguém nos encontra aqui. Nada pode nos alcançar.

Homens? Raramente passam de um meio para um fim. Diversão ocasional. Uma forma de aliviar a tensão. Nenhuma de nós se interessa por companheiros há anos. Aquela fantasia de um vínculo destinado, de ser levada a um castelo e mimada… foi sumindo com o tempo. Estamos no fim dos vinte agora. Confiamos umas nas outras, e isso basta.

Naquela tarde, eu estava no balanço da varanda, observando pássaros cortarem o ar entre as árvores e esquilos correrem uns atrás dos outros pelos galhos. Este era o meu lugar preferido — sereno, seguro, imóvel. Meu celular vibrou, me arrancando do devaneio. Número desconhecido. Atendi mesmo assim. Nunca se sabe quem pode estar ligando.

— Alô?

— Srta. Lazara?

— Quem está falando? — respondi, cautelosa.

Veio uma risada baixa do outro lado.

— Eu preciso dos seus serviços. Dizem que você é quem se procura quando alguma coisa… precisa ser encontrada.

— É mesmo?

— Desculpe. O Alfa Cyran me passou seu contato.

Isso me chamou a atenção. O Alfa Cyran era o que nós ajudamos em Dakota do Sul.

— Ele mandou eu dizer… passarinho. Seja lá o que isso signifique.

Um lampejo de tensão se desfez. Aquela era a nossa frase-código. Legítimo.

— Do que você precisa?

— Eu preferia discutir pessoalmente. Tem um restaurante novo, o Green Olive. Me encontre às oito da noite, na área VIP.

Verifiquei a hora. Três da tarde. Tempo de sobra pra me arrumar.

— E quem eu vou encontrar?

— Meu nome é Boaz Callahan — ele disse, e a ligação caiu.

Boaz Callahan? Tipo o vice-presidente Boaz Callahan?

— Puta merda. — Saltei do balanço e corri pra dentro. — MENINAS!

Maelira e Zivenya estavam à mesa da cozinha, mastigando cookies. Peguei um e dei uma mordida num de gotas de chocolate, ainda morno.

— Vai contar pra gente ou só gemer por causa desse cookie? — Maelira provocou.

Mostrei o dedo do meio pra ela e terminei a mordida.

— Boaz Callahan me ligou.

Zivenya piscou.

— O Boaz Callahan? Vice-presidente Boaz Callahan?

— Quase certeza. Vou encontrar com ele naquele lugar novo chique. Eu preciso de um vestido. Um bem fino.

— Aaaah, e o azul? — Maelira sugeriu.

— Não, vermelho. Os peitos dela ficam incríveis de vermelho — Zivenya rebateu.

— Ela já tem peitos demais! — Maelira retrucou.

Deixei as duas discutindo enquanto eu tomava banho. Depois, fiz uma trança de lado e fui num make simples, só o suficiente pra realçar meus traços. As meninas ergueram um vestido vermelho cintilante. Um ombro só, até o chão, com fenda até a coxa. Abraçava cada curva, mantendo o decote respeitável.

Vesti, peguei meus saltos de sola vermelha e saí.

— Se cuida! — Zivenya gritou.

— Conta pra gente se precisar de reforço! — Maelira acrescentou.

— Não me esperem acordadas! — falei com uma piscadela, indo até o quadriciclo. Mantínhamos nossos carros numa garagem escondida a dez milhas dali. Chegando lá, troquei pro meu Jaguar F-Type 2021, preto por dentro e por fora. Elegante. Mortal. Ele ronronou ao pegar, e eu parti.

Pensei em baixar a capota, mas não queria acabar com o cabelo. Talvez na volta.

Quando eu encostei no Green Olive, o lugar estava vivo, lotado pra inauguração, cintilando com luzes estilo vintage penduradas pelas paredes de vidro — elegante e, ao mesmo tempo, misterioso. O manobrista me ajudou a sair, e eu entrei sem casaco. Uma das vantagens de ser lobisomem: eu nunca sinto frio.

Enquanto esperava a recepcionista, varri o salão com o olhar. Era deslumbrante. Meus olhos travaram num homem do outro lado do espaço — um pecado ambulante. Alto, perigoso, magnético. Ele estava no meio de uma conversa com o prefeito, mas meu corpo se mexeu por instinto, como se a gravidade estivesse me puxando na direção dele.

Eu mal dei um passo quando alguém esbarrou em mim, me arrancando daquilo.

— Boa noite. Nome, senhorita? — perguntou a recepcionista.

— Lazara Hollis — respondi, usando meu alias de sempre pra trabalho com clientes.

Ela sorriu.

— Por aqui.

Subimos as escadas até uma sala privativa com uma única mesa. Quando entrei, meu coração repuxou na direção do homem lá embaixo. Quanto mais eu me afastava, mais difícil ficava respirar.

Lá dentro, Boaz Callahan estava de pé. Mais velho, na casa dos sessenta e poucos, de ascendência asiática, digno, com os cabelos grisalhos. Ele estendeu a mão.

— Senhorita Lazara. Eu sei seu nome verdadeiro, é claro. Em público, vou respeitar seu alias.

— Em particular, pode me chamar de Kavira — eu disse, deixando que ele me conduzisse até a cadeira.

— Você é um lobo — afirmei. Eu conseguia sentir o cheiro agora.

Ele riu, baixinho.

— Sim. Por favor, me chame de Boaz. Poucas pessoas sabem, e eu prefiro que continue assim. Eu trabalho de perto com empresas que apoiam os nossos, preservando as florestas, protegendo nossos direitos. Espero que não se importe de eu ter tomado a liberdade de pedir por você.

Peguei minha taça de vinho.

— Eu não sou exigente.

O jantar chegou: frango ao molho Alfredo com pão de alho, um acompanhamento de camarões, e bife pra ele. A comida? Incrível.

— Eu não tinha certeza se você gostava de camarão, então pedi só por precaução.

— Obrigada — eu disse, acrescentando-os à minha massa.

Ele se inclinou um pouco.

— O tempo é curto, então vou ser direto. É algo sensível. Sem prova, sem suspeitos. Isso borra a linha entre as leis humanas e a justiça da matilha. Eu preciso que você recupere algo e devolva ao Museu do Tesouro Nacional.

Encarei-o, estudando sua expressão. Sem mentiras.

— Vou enviar os detalhes por e-mail seguro. Isso é prioridade máxima. Só as suas meninas podem saber — mais ninguém.

— Entendido. — Escrevi meu e-mail seguro num guardanapo e passei pra ele. — Queime isso assim que enviar. Depois apague a mensagem. A gente não corre riscos.

Boaz assentiu.

— Claro, senhorita Lazara.

Ele beijou o dorso da minha mão e foi embora.

Virei o resto do vinho de uma vez e saí. Mas eu ainda não tinha terminado. Eu precisava encontrar o homem que tinha visto mais cedo. Andei pelo lugar até achar um escritório — velas, clima romântico. Ele tinha uma companheira, talvez. Isso não deveria ter doído.

Mas doeu.

Talvez eu estivesse com ciúme. Talvez eu só quisesse montar naquele homem até ele esquecer o próprio nome.

— Posso perguntar o que a senhora está fazendo? — veio uma voz atrás de mim.

Merda.

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