Capítulo 3
Ponto de vista de Vorian
Cinquenta milhas na minha moto, seguidas de uma caminhada de vinte milhas para chegar à propriedade dele. Ir a pé me dava a vantagem da furtividade, uma visão mais clara de armadilhas e nenhuma chance de o barulho do motor me denunciar.
Desliguei o celular, enfiei-o no bolso e fui em direção à garagem.
A sede da matilha era grande, espaço mais do que suficiente para o que eu precisava, mas aquele não era o meu lar de verdade. Era só uma conveniência. A minha casa de fato — a que herdei depois que meus pais morreram — é proibida para todo mundo. Ninguém vai lá. Nunca.
Peguei minhas chaves na parede, joguei a bolsa de fuga no ombro e atravessei a garagem até onde minha moto estava, minha beleza toda apagada de preto. Uma Ducati 749. Elegante, agressiva, imparável. Ela era minha, e eu a amava por isso.
Jaqueta de couro, capacete firme, parti noite adentro, rasgando as estradas sinuosas de Montana. O vento no rosto, a potência entre as pernas — aquilo me fazia sentir intocável. Vivo.
A vida selvagem passava por mim em riscos de movimento — alces, cervos, até um ou dois pumas. Vi morcegos rodopiando lá em cima, corujas empoleiradas em galhos altos, criaturas pequenas disparando por baixo da mata fechada. Era ali, naquele mundo selvagem e indomado, que eu me sentia mais eu.
Um bip suave do GPS me avisou que eu tinha chegado ao ponto de deixar a moto. Encontrei um trecho de mato denso, bem escondido, e a guardei com cuidado. Satisfeito, digitei as próximas coordenadas e comecei a caminhada.
A lua pairava pesada acima, lançando sombras pelo chão da floresta. Ainda havia vida se mexendo no sub-bosque e nas árvores.
Então eu ouvi — o grito de um puma. Não era som de caça. Era um berro de dor. E estava perto.
Com cautela, me aproximei.
Encontrei-o rápido: grande, macho, preso numa armadilha de aço para urso. O sangue escorria em volta da pata esmagada, e ele se debatía, se machucando ainda mais do que a armadilha já tinha feito.
Deixando a mochila no chão, dei um passo para aparecer. Ele me viu e imediatamente eriçou o corpo, rosnando baixo, os dentes à mostra.
— Calma — murmurei. — Não vim te machucar. Deixa eu ajudar.
Deixei meus olhos brilharem, tremeluzindo para o vermelho quando invoquei minha dominância. Meu lobo, Hunter, não era um bicho qualquer — ele exigia submissão por onde passava. No segundo em que o puma viu aqueles olhos, se aquietou. Choramingou baixo. Se submeteu.
— Isso — falei, suave, e me aproximei.
Com cuidado, forcei a abertura das mandíbulas da armadilha, libertando a perna ferida. Depois voltei até a bolsa, peguei uma garrafa de água e lavei o ferimento, procurando fraturas. Era superficial — feio, mas limpo. Ele ia se recuperar.
Eu me virei para ir embora, mas ouvi as patas atrás de mim. O puma tinha se levantado e agora me seguia.
Ergui uma sobrancelha.
— Sério?
Ele piscou para mim.
Tudo bem. Que viesse. Acabou sendo uma boa ideia. Ele caminhava na minha frente e farejava armadilhas de urso antes que eu chegasse perto delas. Entre nós dois, atravessamos a floresta em segurança.
No distante, uma fumaça se enrolava no céu — fina, mas nítida. A cabana.
Agachei, bem baixo, avançando de mansinho até ela entrar no meu campo de visão. Lá dentro, os gritos agudos de uma criança cortaram a noite, seguidos pelo som inconfundível e nauseante de um tapa batendo na pele.
A raiva explodiu quente no meu peito. Uma criança. Ninguém — nenhuma criança, nenhuma mulher — merecia aquilo.
Sim, eu uso mulheres para prazer. Mas elas vêm para a minha cama por vontade própria. Elas conhecem as regras. E punição nunca é por prazer; é por desrespeito.
Eu estava ponderando minhas opções quando a porta da cabana rangeu ao se abrir e um homem saiu para a varanda, cigarro entre os dedos. Tavian. Cabelo ensebado, sangue sob as unhas, a alma apodrecida há muito tempo. Ele acendeu e tragou devagar.
Eu avancei, puxando a faca de lâmina grossa da cintura. Meu beta gostava de chamá-la de “mini facão”, mas não havia nada de mini nela.
Eu estava em cima dele antes que conseguisse soltar a fumaça.
Um corte limpo, de orelha a orelha.
Ele nem gritou; só engasgou enquanto o sangue pulsava a cada batida moribunda do coração. Observei a confusão se desfazer em compreensão... e então numa aceitação final, imóvel. O corpo dele desabou numa poça vermelha aos meus pés.
O leão-da-montanha veio ao meu lado e rosnou para o cadáver.
— Ele é seu. Deixe a menina — eu disse.
Juro que o leão assentiu com a cabeça antes de saltar, os dentes se cravando no corpo flácido. Eu me virei e comecei a ir embora.
Então ouvi a porta escancarar atrás de mim.
— ESPERA! Não me deixa aqui! Por favor, eu imploro!
Eu me virei de supetão.
Uma menininha, não mais velha que cinco anos, disparou para fora da cabana. Ela se jogou na minha perna, agarrando-se com força. O corpinho dela estava coberto de sangue e queimaduras; hematomas manchavam seus braços e o rosto. Minha garganta se apertou.
Ele tinha torturado ela.
Eu congelei, sem saber o que fazer.
Que diabos eu faço com uma criança?
— Alguém vai vir por você de manhã — eu disse, ríspido.
— Não, por favor! E-eu não quero ficar sozinha! Está escuro, eu estou com medo! — ela soluçou, tremendo inteira.
Merda.
— Tá bom — eu cedi. — Vamos te limpar e te colocar na cama. Eu fico até você dormir.
Ela assentiu e me seguiu de volta para dentro.
— Qual é o seu nome? — perguntei ao entrar atrás dela.
— Evadne — ela murmurou, limpando o nariz no braço.
— Aqui — eu disse, pegando um lenço de papel de uma caixa empoeirada sobre uma mesa próxima. — Use isso.
Encontramos o banheiro depois de checar duas portas.
— Você consegue tomar banho sozinha? — perguntei, de repente desconfortável.
— Consigo, mas preciso de ajuda com o meu cabelo — ela admitiu baixinho.
— Certo. Entra e chama quando estiver pronta. — Eu liguei a água, conferi que não estava quente demais e saí do cômodo.
Enquanto ela se lavava, eu verifiquei os quartos. Encontrei um com uma cama que não estava completamente destruída e joguei algumas cobertas limpas por cima.
— Moço? — chamou a vozinha dela.
Voltei e encontrei a cabeça dela espiando por trás da cortina.
— Tudo bem?
— Você pode me ajudar a enxaguar o cabelo?
Por sorte, o chuveiro tinha ducha destacável. Eu entrei, cuidadoso para manter meus olhos onde deviam, e ajudei a tirar o sabonete do cabelo dela rapidamente.
— Pronto. Agora tá tudo bem — eu disse, puxando a cortina para fechar. — Vai com calma. Eu vou ficar lá fora.
Cinco minutos depois, ela saiu enrolada numa toalha, foi de mansinho até o quarto e se enfiou na cama, se encolhendo numa espécie de camisola improvisada, feita de uma fronha.
— Dorme. Alguém vai vir por você de manhã.
— Eu... — ela começou, mas foi interrompida por uma batida alta. A porta da frente escancarou e bateu com força.
Hunter ficou em alerta.
Alguma coisa estava vindo.
