Capítulo 4
Ponto de vista de Vorian
Trim, trim!
O som estridente do meu celular quebrou o breve silêncio e me deixou puto. Eu tinha acabado de voltar, ainda carregando o peso de uma estadia prolongada naquela cabana maldita. O que deveria ter sido uma extração simples virou uma operação com dois alvos. Nenhum aviso sobre o segundo homem mantendo aquela garotinha como refém. Amadorismo. Ele estava tão bêbado que nem teve graça: só enfiei a mão no peito dele e arranquei o coração. Fácil. Chato.
O leão-da-montanha acabou ficando por lá, se enroscando ao lado da menina. Eu o deixei ali. Eu sabia que ele a protegeria como se fosse cria dele se alguém ousasse aparecer. Mas quanto ao segundo alvo? É, eu esperava um pagamento maior.
Peguei o telefone num bote.
— Fala?
— Alfa Vorian! Estou tão animada para o nosso encontro hoje à noite! Vou estar pronta às seis. Não se atrase de novo, tá? — a voz melosa de Delphine soou no alto-falante, raspando nos meus nervos.
Delphine. Filha de um Alfa vizinho, parte da nossa aliança há gerações, desde que meu avô governava. Ela tem 1,75 m, aquele cabelo loiro-avermelhado macio que cai até o peito, um corpo decente e aqueles olhos castanhos sempre curiosos. Não é feia, e é boa pra caramba em manter uma fachada impecável. O pai dela gosta de mandá-la comigo para eventos públicos, para fazer o papel de acompanhante perfeita, o que me favorece: a imprensa engole a história, e as garotas com ciúme fazem fila para tentar mais e mais chamar minha atenção. Todo mundo ganha.
Exceto que… o ego de Delphine cresceu na mesma medida da ilusão dela. Ela acha que eu vou torná-la minha Luna, mesmo eu já tendo dito mais de uma vez que isso não vai acontecer.
— Não é um encontro — eu disse, com a voz lisa. — É a inauguração do meu restaurante. Tenho negócios para resolver. Você provavelmente vai jantar sozinha no meu escritório.
— Bobagem! Eu tenho que terminar de me arrumar, não se atrase! — Ela desligou antes que eu pudesse responder.
Suspirando, me recostei na cadeira do meu escritório, já arrependido de ter concordado em levá-la. À minha frente estava Varek, meu beta, meu melhor amigo desde o nascimento. Nossos pais já eram Alfa e Beta antes de nós, então era inevitável, mas o que a gente construiu foi mais do que dever. Ele é uma das únicas pessoas de quem eu aceito conselho sem vir com um preço junto.
Varek era tão alto quanto eu, os braços cobertos por tatuagens em mangas completas, cabelo escuro e bagunçado, olhos ainda mais escuros. Usava os piercings de sempre: alargadores nas orelhas, argola no lábio. O cara podia parecer assustador pra caralho, mas era leal até o osso. E também o melhor maldito “asa” que eu já tive. Nós dois já nos sacrificamos algumas vezes pelo time.
Ele me lançou aquele olhar inexpressivo de sempre.
— Cara. Larga ela logo. Ela é uma mimada manipuladora que dá trabalho.
Eu soltei um riso baixo, sombrio.
— É, não vou discordar. Mas ela faz o papel quando importa. Sabe sorrir pras câmeras e não age como se nunca tivesse visto uma taça de vinho na vida.
— Então leva aquela da outra noite. A ninfomaníaca que você arrastou pro seu quarto.
— O colchão oficial da matilha? Por favor. Minha imagem já está por um fio com as fantasias da Delphine. Eu não vou entregar a ela a coroa também.
Varek deu de ombros, girando uma caneta preguiçosamente entre os dedos.
— Você seria mais forte com uma Luna ao seu lado.
— Ou vulnerável quando ela se machucar. Eu não preciso de passivos emocionais, Varek.
Ele deu um sorrisinho de canto. “O que quer que faça seu sangue ferver, cara. Mas já são quatro e meia, é melhor você se arrumar. Vou deixar a Lambo esperando na frente e fechar tudo por aqui.”
Pontualmente às seis, parei diante dos portões da Alcateia Silverblade com minha Lamborghini vermelho-cereja. Nem tive a chance de sair do carro; Delphine apareceu no segundo em que meus faróis iluminaram a entrada da casa dela. O vestido dela era puro brilho e cintilação, rosa-claro, abraçando cada curva como se tivesse sido costurado sobre a pele. Na minha opinião, aquela cor a deixava apagada, mas ela sabia exibir o que tinha.
Apertei o botão do passageiro. Ela abriu a porta e deslizou para dentro com uma elegância ensaiada. O decote profundo quase derramava os peitos dela no colo, e a fenda do vestido subia tanto que por pouco eu não tive uma visão completa.
“Ah, ótimo! Você está no horário pela primeira vez.” Ela se inclinou para me beijar. Eu ofereci a bochecha. Então apertei o botão para fechar a porta dela e arranquei da entrada em direção ao restaurante.
“Escuta, vou receber um convidado muito importante esta noite. Um VIP. Preciso que você fique no meu escritório. Vou circular, verificar a equipe, e tenho que cumprimentá-lo pessoalmente.”
“Uuuh, um VIP misterioso?”, ela cantarolou. “Quem é?”
“Não é da sua conta. Só fique longe dele, Delphine. Estou falando sério. Não estrague isso.”
“Relaxa, eu vou bancar a namorada perfeita.”
“Você não é minha namorada.” Meu maxilar travou. Minha paciência estava se esgotando rápido.
Ela me lançou um olhar de lado. “Bom, se você quer continuar me exibindo por aí como seu enfeite de braço, eu também espero tirar alguma coisa disso. Tenho uma imagem a manter, igual a você.”
Eu nem olhei para ela. “É Alpha Vorian, Delphine. Ainda não estamos em público. Cuidado com essa boca.”
“Humm, vai me castigar por isso? Talvez me dar umas palmadas?”, ela ronronou.
Deixei meus olhos faiscarem em vermelho, cravando nela uma ameaça silenciosa.
Ela entendeu o recado. Recuou. Ficou quieta pelo resto do trajeto.
Finalmente, chegamos.
A frente do meu restaurante, Green Olive, estava isolada para manter a multidão sob controle. Os flashes explodiam em rajadas brancas, ofuscantes, quando saímos do carro. Apertei os dois botões das portas ao sair, enquanto um dos meus funcionários ajudava Delphine a descer do banco.
Dei a volta e ofereci meu braço a ela. Ela o aceitou, toda postura e refinamento agora. Os gritos começaram imediatamente — paparazzi chamando meu nome, repórteres enfiando microfones na minha direção. Reconheci alguns rostos de veículos de imprensa, outros de colunas locais.
Parei para algumas entrevistas rápidas.
“Obrigado a todos por terem vindo à inauguração do Green Olive”, eu disse com suavidade. “Vamos mandar amostras de comida para todos que estiverem esperando do lado de fora. Um gostinho do que vocês estão perdendo.”
As perguntas sobre Delphine vieram em seguida, mas eu me esquivei de todas. Ela sorriu como uma profissional, concordando com a cabeça e mantendo a boca fechada. Sabia muito bem que não devia falar a menos que recebesse permissão.
A imprensa ia devorar aquilo. Uma mulher misteriosa no meu braço? Só a especulação já me garantiria semanas de atenção da mídia. Publicidade gratuita.
Lá dentro, a recepcionista nos cumprimentou com uma reverência respeitosa — uma das integrantes da minha alcateia. Alguns funcionários eram lobos, outros humanos. Eu tinha treinado todos para serem precisos, refinados, profissionais.
O que o público não sabia? A maioria deles eram ex-rogues, fugitivos ou órfãos. Eu lhes dei trabalho. Propósito. Um futuro. Legalmente, é claro. Punha dinheiro nos bolsos deles e lealdade no coração.
Eram desajustados para o mundo, mas, para mim, eram guerreiros de uniforme.
