Capítulo 1
Ponto de vista de Amara
A chuva em Northwood não simplesmente caía; ela castigava. Açoitava a janela rachada da "Alfaiataria do Silas", um som rítmico e zombeteiro que combinava com as batidas pesadas do meu coração.
— Por favor — sussurrei, com a voz falhando enquanto encarava o homem do outro lado da mesa de corte. — Só mais duas semanas. Meu pai ainda está se recuperando. Se levarem as máquinas de costura, ele não vai ter nada para onde voltar.
O homem, um cobrador de dívidas chamado Miller, com hálito de cigarro velho e café barato, nem levantou os olhos da prancheta. Chutou o pé da velha máquina Singer — a que meu avô tinha usado, a que tinha pago minha faculdade de design.
— Duas semanas viraram dois meses, Amara — resmungou Miller. — O banco não se importa com a cirurgia cardíaca do seu pai. Eles se importam com os seis dígitos que ele deve nessa hipoteca. A partir das cinco da tarde de hoje, o estoque é nosso.
— Seis dígitos? — ofeguei, sentindo o ar abandonar meus pulmões. — Isso é impossível. O empréstimo era de cinquenta mil.
Miller finalmente olhou para mim, com um lampejo de pena nos olhos que pareceu pior do que a raiva dele.
— Juros, garota. Seu velho assinou um contrato abusivo quando as contas médicas começaram a se acumular. Você está afundando, e esta loja é a âncora puxando você para o fundo.
Ele fez um sinal para os dois homens corpulentos que esperavam na porta. Eles avançaram, as botas pesadas retumbando no piso de madeira.
— Não! Parem! — Corri para a frente, agarrando o braço do primeiro homem quando ele estendeu a mão para pegar o ferro de passar industrial a vapor.
Ele me empurrou para trás — não com força, mas o bastante para me fazer tropeçar. Caí no chão, com as palmas ardendo ao rasparem nos alfinetes e fios soltos espalhados pelo tapete. Assisti, paralisada, enquanto eles começavam a esvaziar a loja. Minha vida, o legado do meu pai, estava sendo desmontado e encaixotado.
Dez minutos depois, eu estava na calçada, debaixo da chuva torrencial, apertando contra o peito uma única caixa de papelão. Dentro dela estavam meu caderno de croquis, uma tesoura de alfaiate e uma foto emoldurada do meu pai sorrindo diante daquela mesma vitrine.
A placa de "Fechado" não significava só naquela noite.
Significava para sempre.
A Ligação Que Mudou Tudo
Andei por uma hora, com as roupas encharcadas e a mente embaralhada pelo desespero. Eu não podia ir ao hospital. Como eu olharia para o meu pai, pálido e frágil naquela cama da UTI, e diria que o sonho dele tinha acabado? Como eu pagaria os remédios dele no mês seguinte?
Meu celular vibrou no bolso. Número bloqueado.
— Alô? — atendi, com a voz trêmula.
— Senhorita Amara Vance? — A voz era seca, profissional e desprovida de qualquer calor.
— Sim. Quem fala?
— Meu nome é Marcus Thorne. Represento os interesses legais da Wolfe Industries. Acredito que a senhorita se candidatou recentemente a uma vaga de designer júnior em nossa empresa?
Encostei numa parede de tijolos fria, tentando respirar.
— E-eu me candidatei. Há três meses. Nunca tive resposta.
— A vaga foi preenchida — disse Thorne. Senti uma nova onda de derrota, mas ele continuou. — No entanto, o sr. Adrian Wolfe tem uma... proposta diferente para você. Uma que resolveria integralmente as dívidas do seu pai até amanhã de manhã.
Fiquei imóvel. Todo mundo conhecia o nome Adrian Wolfe. O "Rei de Gelo" do mundo da tecnologia e do mercado imobiliário. Um homem cujo rosto estampava todas as revistas de negócios e cujo coração diziam ser feito do mesmo aço de seus arranha-céus.
— Eu não entendo — falei. — Por que eu? Eu nunca sequer o conheci.
— O sr. Wolfe precisa de um tipo específico de arranjo. Algo que exige uma pessoa sem laços sociais e com um alto nível de... motivação. A senhorita está atualmente com uma dívida de cento e oitenta mil dólares, srta. Vance. Eu chamaria isso de motivação.
A chuva pareceu mais gelada.
— Que tipo de proposta?
— Um contrato de casamento. Um ano. Em troca, as despesas médicas do seu pai serão quitadas, a loja será devolvida a ele, e a senhorita receberá uma mesada mensal de cinquenta mil dólares.
Soltei uma risada histérica.
— Vocês querem que eu me venda? Para um estranho?
— Eu quero que a senhorita salve a vida do seu pai — rebateu Thorne friamente. — Há um carro esperando por você na esquina da 5th com a Main. A senhorita tem dez minutos para decidir se quer ser mártir ou salvadora.
A ligação caiu.
Conhecendo a Fera
O carro era um Rolls-Royce preto que parecia um predador à espreita nas sombras. Entrei, com meu cabelo molhado pingando nos bancos de couro impecáveis. Eu me sentia como uma gata de rua levada para dentro de um palácio.
O motorista não disse nada. Ele me levou até o topo da colina, até a Propriedade Wolfe — um monólito de vidro e pedra negra com vista para a cidade.
Fui conduzida a uma biblioteca imensa. As paredes eram forradas de livros que pareciam não ser tocados havia um século. Lá no fundo, atrás de uma escrivaninha de mogno, estava sentado um homem.
Adrian Wolfe.
As fotos não faziam jus a ele. Captavam a linha dura do maxilar e a sobrancelha escura e carregada, mas não conseguiam captar o peso absoluto da presença dele. Seus olhos eram da cor de um mar de inverno — lindos, mas capazes de te afogar.
Ele não se levantou quando eu entrei. Nem sequer ergueu os olhos do documento que estava lendo.
— Você está atrasada — disse. A voz era um rosnado grave e cheio, que fez um arrepio descer pela minha espinha.
— A chuva...
— Não me importo com o tempo, Amara. Eu me importo com pontualidade e silêncio. — Só então ele levantou o olhar. O olhar dele me varreu, dos meus tênis encharcados ao meu cabelo embaraçado. Não havia desejo em seus olhos. Não havia nem interesse. Apenas uma avaliação fria, clínica. — Você está um desastre.
— Eu acabei de perder minha casa — rebati, com uma faísca do meu velho fogo voltando. — Me desculpe se eu não parei pra fazer as unhas no caminho até a minha “venda”.
Um lampejo de alguma coisa — divertimento? — passou por seus olhos antes de eles voltarem a ser gelo.
— Sente-se. Leia o contrato. Você tem cinco minutos.
Ele empurrou uma pasta grossa pela escrivaninha. Eu me sentei, as mãos tremendo enquanto folheava as páginas.
Artigo 1: O casamento terá duração de 365 dias.
Artigo 2: Nenhuma intimidade física sem consentimento mútuo (embora demonstrações públicas de afeto sejam obrigatórias).
Artigo 3: Nenhum vínculo emocional.
Artigo 4: Em hipótese alguma ocorrerá uma gravidez.
Parei no Artigo 4. Meu coração deu um puxãozinho estranho.
— Sem gravidez?
— Sofro pressão do meu conselho e da minha mãe para produzir um herdeiro e sossegar — disse Adrian, levantando-se. Ele foi até a janela, de costas para mim. Era alto; o terno sob medida se ajustava perfeitamente aos ombros largos. — O casamento atende ao requisito de “sossegar”. Mas não tenho a menor intenção de trazer uma criança para um mundo de acordos de negócios e sorrisos falsos. Isto é uma transação, Amara. Nada além disso.
— E se eu assinar? — perguntei. — A loja? O remédio do coração do meu pai?
— A escritura da loja estará na sua mão ao amanhecer. Seu pai será transferido hoje à noite para uma suíte privativa com os melhores cirurgiões do país. — Ele se virou, a expressão indecifrável. — Mas, em troca, você pertence ao nome Wolfe por um ano. Você vai fazer o papel de esposa dedicada. Vai suportar a imprensa. E nunca, nunca vai se apaixonar por mim.
Olhei para a caneta sobre a mesa. Era dourada, pesada, e parecia uma arma.
Pensei em Miller chutando a máquina de costura. Pensei no rosto pálido do meu pai sob a máscara de oxigênio.
Eu não amava Adrian Wolfe. Eu nem gostava dele. Era arrogante, frio, e tratava pessoas como itens numa planilha. Mas ele estava me oferecendo uma boia de salvação, mesmo que feita de arame farpado.
— Eu tenho uma condição — eu disse, com a voz se firmando.
Adrian arqueou uma sobrancelha escura.
— Você não está em posição de negociar.
— Eu quero manter meu trabalho. Não como sua esposa, mas como designer. Eu não vou ser um pássaro numa gaiola dourada.
Adrian me observou por um longo instante. Então deu um passo à frente, invadindo meu espaço. O cheiro de sândalo e uísque caro me envolveu. Ele se inclinou, o rosto a poucos centímetros do meu.
— Tudo bem — sussurrou. — Trabalhe. Desenhe seus vestidinhos. Mas lembre-se, Amara — quando as câmeras estiverem ligadas, você é minha. Quando estivermos a portas fechadas, você é um fantasma.
Peguei a caneta.
— Eu sempre fui boa em desaparecer — menti.
Assinei meu nome na linha pontilhada.
Eu não sabia, naquela hora, que aquele contrato não era só um acordo de negócios. Era o começo de uma guerra. Uma guerra pelo meu coração, uma guerra contra os segredos da família Wolfe, e uma guerra que eu acabaria perdendo quando percebesse que o “Rei de Gelo” tinha um fogo dentro de si que, no fim, incendiaria o meu mundo até virar cinzas.
Quando coloquei a caneta de volta na mesa, o celular de Adrian vibrou. Ele olhou para a tela, depois para mim.
— Bem-vinda à família, Amara. Tente não se arrepender rápido demais.
Ele saiu do cômodo sem olhar para trás, me deixando sozinha na biblioteca escura: a noiva de um bilionário, com o coração oco e uma esperança secreta de que eu conseguiria sobreviver ao ano.
Eu não fazia ideia de que, em nove meses, eu não estaria preocupada com o contrato. Eu estaria correndo pela minha vida, carregando a única coisa que ele me disse que eu nunca poderia ter.
O filho dele.
