Capítulo 3
Ponto de vista de Amara
O fórum não tinha cheiro de lírios nem de perfume caro. Tinha cheiro de cera de chão, papel velho e do desespero cansado de gente esperando audiência de trânsito.
Eu estava sentada no banco de trás da SUV com os vidros escurecidos, os dedos afundando na seda da minha saia. Eu não estava vestindo branco. Estava usando um tailleur cinza-claro sob medida — a cor de uma nuvem de tempestade. Parecia apropriado. Aquilo não era uma união de almas; era uma fusão de patrimônios.
"Você está tremendo", disse Adrian.
Ele não estava olhando para mim. Estava digitando um último e-mail no celular, a luz azul refletindo nas maçãs do rosto marcadas.
"Não estou tremendo. Estou com frio", menti.
Adrian finalmente guardou o celular e se virou para mim. Seu olhar era pesado, avaliando meu valor em questão de segundos. Sem dizer uma palavra, estendeu a mão e segurou a minha. Sua pele era quente, seu aperto firme e reconfortante. Por um segundo, esqueci de respirar.
"Os repórteres já estão na saída norte", disse ele, a voz baixando para um tom grave. "Quando sairmos por aquelas portas, não olhe para eles. Olhe para mim. Sorria como se eu fosse o único homem no mundo, e eu cuido do resto. Entendeu?"
"Sou artista, Adrian. Não atriz."
"Hoje, você é as duas coisas."
A porta se abriu. Thorne estava ali, como um ceifador de fraque. "Está na hora, senhor."
A Cerimônia da Tinta
O juiz era um homem chamado Miller (um Miller diferente do cobrador de dívidas, mas igualmente cansado). Ele não ergueu os olhos da mesa quando entramos em seus aposentos particulares. Não havia flores, nem música, apenas o zumbido de um ar-condicionado barato no canto.
"Nomes?", perguntou o juiz.
"Adrian Wolfe."
"Amara Vance."
O juiz então levantou os olhos, que se arregalaram levemente ao reconhecer o homem parado à sua frente. Ele ajeitou a toga, e seu tom de voz de repente se tornou muito mais respeitoso. "Sr. Wolfe. Claro. Está tudo preparado."
Ele deslizou dois conjuntos de documentos pela mesa. Aquilo ainda não era a certidão de casamento. Eram as revisões finais do acordo pré-nupcial, a coleira legal que me mantinha presa ao império Wolfe enquanto garantia que eu jamais pudesse reivindicar um pedaço dele.
Adrian assinou com floreio, sem nem ler as páginas. Ele sabia exatamente o que havia nelas; fora ele quem escrevera as regras.
Então chegou a minha vez.
Quando segurei a caneta, senti uma fisgada súbita e aguda de tristeza. Era para isso acontecer num jardim. Meu pai deveria me conduzir até o altar. Eu deveria estar olhando para um homem que me amasse, não para um homem que estava checando o relógio.
"Há algum problema, srta. Vance?" A voz de Adrian estalou como um chicote.
"Não", sussurrei. Assinei.
O juiz realizou a cerimônia mais curta da história da humanidade. Levou exatamente três minutos.
“Pelo poder a mim conferido pelo Estado, eu os declaro marido e mulher. Você pode... bem, vocês estão casados.”
O juiz parecia querer sugerir um beijo, mas a aura glacial de Adrian o fez congelar na hora.
“A licença”, Adrian cobrou.
O juiz carimbou o papel e, assim, Amara Vance tinha desaparecido. Eu era a Sra. Adrian Wolfe. Um fantasma num terno cinza.
Na Boca do Lobo
“Segure no meu braço”, Adrian ordenou quando chegamos à saída lateral do fórum.
Enlacei meu braço no dele. Os músculos eram como granito sob a lã do terno. Quando pisamos na luz da tarde, o mundo explodiu.
Flash. Flash. Flash.
Os gritos começaram na mesma hora. Uma parede de fotógrafos e repórteres avançou contra as cordas de veludo que a equipe de segurança havia montado.
“Sr. Wolfe! É verdade que ela é uma plebeia?” “Adrian! Isso é um escândalo de gravidez?” “Amara! Olha pra cá! Quanto custou o anel?”
O barulho era um peso físico. Senti meus joelhos cederem um pouco, mas o braço de Adrian se apertou ao redor do meu, puxando-me firme contra o lado dele. O calor do corpo dele era a única coisa que me mantinha em pé.
“Sorria, Amara”, ele sibilou entre os dentes.
Ergui o olhar para ele, forçando meus lábios a se curvarem. Tentei pensar em algo feliz — o cheiro de cedro da loja, a primeira vez que vendi um vestido — qualquer coisa para manter o terror longe dos meus olhos.
Adrian desempenhou o papel com perfeição. Parou, inclinou-se e colocou atrás da minha orelha uma mecha de cabelo que tinha se soltado. Para as câmeras, pareceu um gesto íntimo, carinhoso. Para mim, foi como ser marcada por um predador.
“Ela é linda, não é?”, Adrian disse à multidão, com uma voz carregada daquela autoridade sem esforço. “Agora, se me dão licença, minha esposa e eu temos um longo dia pela frente.”
Ele não esperou resposta. Protegendo-me com o corpo, conduziu-me até o carro. A porta bateu, cortando o rugido da multidão e nos deixando num silêncio que parecia ensurdecedor.
Adrian largou meu braço na mesma hora. Tirou o celular do bolso e começou a rolar a tela.
“O preço das ações acabou de subir dois pontos”, disse, com a voz desprovida do calor que acabara de exibir para as câmeras. “Ótimo. Thorne, diga à equipe de PR para soltar a narrativa de ‘namorados da faculdade’. Precisamos enterrar essa história da dívida.”
Eu me encolhi no canto do banco, com o coração ainda martelando nas costelas. “Você disse a eles que eu era linda.”
Adrian nem levantou os olhos da tela. “Eu disse o que eles queriam ouvir. Não deixe isso subir à cabeça, Amara. É só construção de imagem.”
Olhei pela janela para a cidade passando. Eu tinha salvado a loja. Tinha salvado meu pai. Mas, enquanto o carro acelerava em direção à Mansão Wolfe — minha nova prisão — percebi que tinha me esquecido de salvar a mim mesma.
