Capítulo 4

Ponto de vista de Amara

A viagem até a Mansão Wolfe aconteceu num silêncio tão denso que eu quase podia senti-lo na boca. Adrian permaneceu grudado no celular, o polegar deslizando pela tela com uma eficiência impiedosa. Para ele, a última hora — o casamento, a imprensa, a mentira — tinha sido só mais uma transação bem-sucedida.

Para mim, era o fim do mundo.

— Thorne vai lhe mostrar tudo — disse Adrian quando o carro chegou ao topo da colina e os enormes portões de ferro da propriedade se abriram. — Tenho uma reunião do conselho às quatro. Não volto para o jantar.

— É assim que isso funciona? — perguntei, com a voz ecoando no interior luxuoso do carro. — Eu só... espero por você como se fosse um móvel?

Adrian finalmente olhou para mim. Seu olhar era afiado, analítico. — Você tem um trabalho, não tem? Foi você quem insistiu nisso. Use o ateliê que mandei preparar para você. Compre os tecidos que quiser. Só fique longe da ala leste. Aquele é o meu espaço privado.

— Entendido — eu disse, mordendo o lábio. — Sr. Wolfe.

Ele não deu qualquer sinal de ter notado o sarcasmo. O carro parou, e ele saiu antes mesmo de o motorista alcançar a maçaneta. Observei sua figura alta e imponente desaparecer dentro da casa. Ele não olhou para trás. Nem uma vez.

Um Ateliê de Vidro

Thorne me recebeu à porta. — Por aqui, Sra. Wolfe.

O nome ainda parecia uma queimadura. Eu o segui por corredores que se pareciam mais com um museu do que com uma casa. Tudo era impecável, caro e completamente sem alma. Paramos diante de um conjunto de portas duplas no segundo andar.

— O Sr. Wolfe achou que a senhora consideraria isto adequado — disse Thorne, empurrando as portas para abrir.

Eu soltei um suspiro ofegante. O cômodo era de tirar o fôlego. Três paredes eram inteiramente de vidro, com vista para os jardins impecavelmente cuidados e para a floresta além. No centro havia uma mesa de corte profissional, uma fileira de máquinas de costura industriais e dezenas de manequins de alta qualidade. Na parede do fundo, uma estante abrigava centenas de carretéis de linha de seda em todas as cores imagináveis.

Era tudo com que eu já tinha sonhado. Também era a jaula mais bonita que eu podia imaginar.

— Ele mandou fazer tudo isso em vinte e quatro horas? — sussurrei.

— O Sr. Wolfe é muito eficiente quando quer alguma coisa — respondeu Thorne. — Há uma conta digital vinculada ao seu nome para suprimentos. Não há limites.

Aproximei-me da parede de vidro. Lá embaixo, eu conseguia ver um jardineiro podando roseiras. Por um instante, imaginei que eu fosse apenas uma convidada ali. Mas então vi meu reflexo no vidro. O tailleur cinza-claro, a aliança de diamantes no meu dedo, pesando como chumbo.

Eu não era uma convidada. Eu era uma aquisição.

A Primeira Rachadura

Passei a tarde perdida entre os tecidos. Era a única maneira de abafar o barulho na minha cabeça. Comecei a drapear um rolo de seda verde-esmeralda profunda sobre um manequim, prendendo aqui e ajustando ali, tentando visualizar um vestido que parecesse... bem, não isso.

Eu estava tão concentrada que não ouvi a porta se abrir.

“Então é você.”

A voz era como vidro estilhaçado — elegante, mas afiada o bastante para fazer sangrar.

Virei-me. Parada na porta estava uma mulher que só podia ser a mãe de Adrian, Eleanor Wolfe. Vestia um tailleur que provavelmente custava mais do que a loja do meu pai, e o cabelo estava preso num coque tão apertado que parecia doloroso.

“Sou Amara”, eu disse, limpando as mãos na saia e dando um passo à frente.

Eleanor não se moveu. Continuou parada na entrada, os olhos me percorrendo com um olhar de puro e absoluto desprezo. “Vi as notícias. ‘A Noiva Estilista.’ Uma história encantadora. Uma pena Adrian não ter me consultado antes de trazer uma vira-lata para dentro de casa.”

“Eu não sou uma vira-lata”, eu disse, sentindo meu pulso acelerar. “Sou a esposa dele.”

Eleanor soltou uma risada seca e vazia. “Você é um contrato, querida. Eu sei exatamente o que meu filho está fazendo. Ele acha que pode usar você para acalmar o conselho, para mostrar a eles que é ‘estável’. Mas um Wolfe não se casa com a filha de um alfaiate por amor.”

Ela entrou no cômodo, os saltos clicando no piso de mármore como uma contagem regressiva. Parou diante do manequim em que eu estava trabalhando. Tocou a seda verde-esmeralda com uma mão enluvada, depois a afastou como se estivesse contaminada.

“Drapear é bagunçado. Este ateliê é para arte, não para trabalho braçal”, disse friamente. “Adrian pode ter lhe dado este parquinho, mas não confunda isso com poder. Você está aqui para ficar bonita nos galas e manter a boca fechada. Se acha que algum dia será mais do que uma nota de rodapé na história desta família, então é ainda mais delirante do que parece.”

“Eu não quero o seu poder, Sra. Wolfe”, eu disse, com a voz trêmula apesar dos meus melhores esforços. “Eu só quero fazer o meu trabalho.”

“Trabalho.” Ela cuspiu a palavra. “Você logo vai aprender que, nesta casa, o único trabalho que importa é manter a imagem. E você? Você é uma mancha nessa imagem.”

Ela se virou nos calcanhares e saiu, deixando para trás o cheiro de um perfume caro e amargo.

Afundei na cadeira, com a seda verde-esmeralda me zombando. As linhas de batalha tinham sido traçadas. Adrian era frio, mas a mãe dele era uma tempestade. E eu estava presa bem no meio, sem nada além de um contrato e uma agulha para me proteger.

Olhei para o telefone sobre a mesa. Nenhuma ligação de Adrian. Nenhum “como você está?”

Eu estava sozinha.

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