Capítulo 5
Ponto de vista de Amara
O encontro com Eleanor Wolfe me deixou como se eu tivesse sido esfregada com palha de aço até ficar em carne viva. Fiquei no meu ateliê até o sol mergulhar abaixo do horizonte, a luz dourada se transformando em sombras longas e inquietantes sobre o piso de mármore. Eu não queria sair. Naquele cômodo, cercada de seda e alfinetes, eu era Amara, a Designer. Do lado de fora daquelas portas, eu era um fantasma assombrando os corredores de um bilionário.
A fome acabou me forçando a sair. Meu estômago esteve embrulhado o dia inteiro, mas agora era uma dor surda e insistente.
Desci a grande escadaria, meus passos ecoando pelo foyer cavernoso. A casa era silenciosa demais. Faltavam os cheiros de um lar de verdade — não havia aroma de alho nem de sopa fervendo, só a fragrância estéril de cera cara para o chão e lírios frescos.
Encontrei a sala de jantar, mas a mesa já estava posta de volta. Nem sequer havia um copo d’água.
“Procurando alguma coisa?”
Dei um pulo e me virei. Uma mulher de uniforme preto e branco estava ao lado do aparador. O crachá dela dizia Sra. Gable. Ela era a governanta-chefe, e sua expressão era um espelho perfeito da de Eleanor Wolfe: fria e nada impressionada.
“Perdi o jantar”, eu disse, tentando soar mais confiante do que me sentia. “Queria saber se eu poderia pegar um sanduíche ou alguma fruta.”
A Sra. Gable cruzou os braços. “O jantar é servido às sete. O Sr. Wolfe é muito rigoroso com os horários. A equipe da cozinha já encerrou por hoje.”
Pisquei. “São só 8h30. Com certeza deve haver alguma coisa na geladeira.”
“A cozinha é restrita aos moradores depois do expediente para garantir que permaneça impecável para os preparativos da manhã”, ela disse, com a voz transbordando polidez artificial. “Talvez a senhora devesse ter consultado o manual que o Sr. Thorne forneceu.”
“Um manual para comer?” Senti um lampejo de calor no peito. “Eu não sou uma hóspede, Sra. Gable. Eu moro aqui.”
“Claro, madame”, ela disse, e o tratamento soou como um insulto. “Mas até a dona da casa precisa seguir as regras.”
Ela se virou e foi embora antes que eu pudesse responder, me deixando parada na sala de jantar escura. O desrespeito era sutil, mas estava ali — uma rebelião silenciosa das pessoas que supostamente deveriam me servir. Eles sabiam o que eu era. Sabiam que eu tinha sido comprada.
O Encontro da Meia-Noite
Acabei indo para a cozinha mesmo assim. Eu não dava a mínima para o manual. Encontrei um pote de iogurte e uma colher, sentei na beirada da ilha escurecida e fiquei olhando para o terraço banhado pela luz da lua.
“Eu achei que tinha dito que a cozinha era proibida depois do expediente.”
A voz grave e áspera fez com que eu quase deixasse meu iogurte cair. Adrian estava parado na porta. Tinha tirado o paletó do terno, e a camisa branca estava desabotoada no colarinho, com as mangas dobradas até os cotovelos. Parecia menos um CEO e mais um homem — perigoso, cansado e devastadoramente bonito.
— A Sra. Gable já me deu o sermão — eu disse, raspando o fundo do pote. — Sou uma rebelde. Como às 21h.
Adrian entrou no cômodo, o movimento fluido e predatório. Não acendeu as luzes. Moveu-se pelas sombras como se elas lhe pertencessem — o que, suponho, era verdade. Parou a poucos passos de mim, apoiando-se na bancada.
— Minha mãe esteve aqui hoje — ele disse. Não era uma pergunta.
— Ela é um encanto — respondi, seca. — Me comparou a um cachorro de rua e a uma mancha no nome da família. Acho que vamos ser melhores amigas.
O maxilar de Adrian se contraiu.
— Ela é protetora com a marca. Ignore-a.
— A marca? Adrian, ela estava falando de mim. Como ser humano. — Fiquei de pé, e o pote de iogurte bateu na lixeira com um baque decidido. — É isso que eu sou para você? Uma mancha que você precisa administrar?
Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço. O ar entre nós de repente pareceu denso, carregado por uma tensão que não era só raiva. De perto, eu conseguia ver as leves marcas de exaustão ao redor dos olhos dele.
— Para mim, você é a solução para um problema — disse ele, a voz um tom mais baixa. — Mas não confunda o amargor da minha mãe com o meu. Você está aqui porque eu coloquei você aqui. Isso faz de você minha responsabilidade.
— Eu não quero ser uma responsabilidade — sussurrei. — Quero ser... Eu nem sei.
Adrian estendeu a mão. Por um instante, pensei que ele fosse tocar meu rosto. Minha respiração falhou. Os dedos dele pairaram perto do meu maxilar, depois mudaram de direção para tirar uma linha solta do ombro do meu vestido.
— Você é uma Wolfe agora, Amara. Quer goste, quer não. — Ele olhou para mim, os olhos escuros e indecifráveis. — E uma Wolfe não come iogurte no escuro. Se estiver com fome, mande os funcionários prepararem alguma coisa. Se se recusarem, fale comigo.
— Eu sei me virar sozinha — respondi, com o coração martelando contra as costelas.
— Sabe? — Ele se inclinou, e o cheiro dele — sândalo e ar frio — rodopiou ao meu redor. — Veremos. Amanhã, teremos nossa primeira aparição pública como casal. Um baile beneficente para o hospital infantil. Todas as câmeras da cidade estarão procurando uma rachadura na nossa história.
Ele se endireitou, e o momento de intimidade — se é que era isso — se desfez na mesma hora.
— Vista algo caro — acrescentou, virando-se para sair. — Quero que eles vejam exatamente o que o meu dinheiro pode comprar.
Ele foi embora antes que eu pudesse dizer que o dinheiro dele não tinha comprado tudo em mim. Ainda não.
