Capítulo 6

Ponto de vista de Amara

A manhã do baile de gala não começou com sol; começou com uma orientação jurídica.

Em vez de um café da manhã de panquecas e café, me vi sentada de frente para Adrian no escritório dele, de paredes de obsidiana. O lugar parecia o interior de um relógio de luxo — preciso, frio e marcando sob uma pressão invisível.

Adrian deslizou uma pasta encadernada em couro na minha direção.

— Os termos finais do contrato. Leia o adendo na página quatro.

Folheei as páginas. Meus olhos caíram na seção destacada em negrito.

Artigo 7.1: Conduta e Apego. Ambas as partes concordam com um limite rigoroso de distância profissional. Não haverá envolvimentos emocionais, nem expectativas de fidelidade além da percepção pública, e absolutamente nenhum gesto romântico fora da presença de testemunhas terceiras.

— Você está transformando isso em lei? — levantei o olhar, o papel amassando na minha mão. — Você está literalmente legislando que a gente não pode gostar um do outro?

Adrian não ergueu os olhos do café.

— Estou protegendo nós dois, Amara. Você está aqui para salvar seu pai. Eu estou aqui para garantir minha posição na Wolfe Industries. Emoções são uma variável que nenhum de nós pode se dar ao luxo de ter. Se você começar a imaginar que isso é real, vai se machucar. Se eu começar a tratar como real, eu perco minha vantagem.

— Eu não sou uma “variável”, Adrian. Eu sou uma pessoa.

— Nesta casa — ele disse, finalmente encontrando meu olhar com uma expressão tão afiada que parecia um peso físico —, você é a Sra. Wolfe. Fora daqui, você pode ser quem quiser. Mas pelos próximos 365 dias, esta é a regra. Um ano. Sem apegos. Depois, cada um segue seu caminho, você recebe o seu pagamento, e nós nunca mais precisamos nos ver.

— Ótimo — rosnei, pegando uma caneta na mesa e rabiscando meu nome com tanta força que a ponta quase rasgou o papel. — Um ano. Eu consigo fazer isso de cabeça para baixo.

— Bom. Agora, sobre esta noite.

A Transformação

O resto do dia foi um borrão de tortura de alto padrão. A “equipe de glamour” do Adrian chegou ao meio-dia. Três homens e duas mulheres desceram sobre o meu quarto como um enxame de gafanhotos estilosos.

Puxaram meu cabelo, poliram minha pele com esfoliantes de pó de diamante e pintaram meu rosto até virar uma máscara de “chique bilionário sem esforço”.

— O Sr. Wolfe pediu a safira — disse o estilista principal, um homem chamado Pierre, enquanto erguia um vestido.

Era deslumbrante. Seda azul-meia-noite que parecia luz de lua líquida, com um decote nas costas tão baixo que chegava a ser escandaloso e uma fenda que subia até metade da coxa. Era lindo, mas não era eu. Era uma fantasia.

Quando finalmente fiquei pronta, parei diante do espelho de corpo inteiro. Eu parecia uma desconhecida. Uma desconhecida caríssima, muito solitária.

A Descida

Encontrei Adrian ao pé da grande escadaria. Ele estava de smoking preto, tão absurdamente bonito que doía olhar. Era o tipo de homem que não apenas entrava num ambiente; ele comandava o ar lá dentro.

Ele parou quando me viu. Por um segundo — o mais breve dos segundos —, a máscara do “Rei de Gelo” escorregou. Seus olhos escureceram, seguindo a linha do meu pescoço até a curva da seda sobre meus quadris.

O silêncio se estendeu por cinco, dez, quinze segundos.

— Tem algo errado? — perguntei, minha voz quase um sussurro. — Está demais?

Adrian pigarreou, a expressão voltando ao estado congelado de sempre.

— Está adequado. As safiras no seu pescoço valem mais do que a loja do seu pai, Amara. Tente não perdê-las.

Ele me ofereceu o braço. Foi um gesto frio, mas, quando minha mão se acomodou na manga do paletó, senti o mesmo estalo elétrico da noite anterior, na cozinha.

— Lembre-se da regra — murmurou ele, enquanto caminhávamos até a porta da frente, onde a limusine nos esperava. — Nada de apego emocional.

— Não se preocupe, Adrian — sussurrei de volta, meu coração martelando dolorosamente contra as costelas. — Não estou interessada em me apaixonar por uma estátua.

O Primeiro Teste

A gala acontecia no Metropolitan Museum. Quando o carro encostou, os flashes dos paparazzi eram tão fortes que precisei semicerrar os olhos.

— Fique perto — disse Adrian.

Quando a porta se abriu, ele não apenas me conduziu para fora; pousou uma mão com firmeza na curvatura das minhas costas. Através da seda fina do vestido, a palma dele parecia uma marca a ferro.

— Adrian! Amara! Por aqui!

Ele se inclinou até meu ouvido, o hálito quente na minha pele.

— Sorria, Amara. Se incline para mim. Faça com que acreditem que você é a mulher mais sortuda do mundo.

Fiz o que ele mandou. Inclinei a cabeça na direção do ombro dele, abrindo um sorriso brilhante e falso para as câmeras. Para o mundo, éramos a imagem perfeita de um casal poderoso e perdidamente apaixonado.

Mas, enquanto avançávamos pela multidão, a mão de Adrian não saiu das minhas costas. Era possessivo. Era como se ele estivesse me reivindicando, mesmo enquanto dizia que eu não passava de um contrato.

Estávamos na metade do caminho para a área VIP quando uma mulher, num vestido feito de lantejoulas literalmente douradas, bloqueou nossa passagem. Ela era deslumbrante — loira, de traços marcantes, e me encarando como se eu fosse uma barata em cima de um tapete da Chanel.

— Adrian, querido — ela ronronou, me ignorando completamente. — Achei que você tivesse dito que nunca ia se prender. E, no entanto, aqui está... com isso.

O aperto de Adrian na minha cintura se intensificou.

— Serena. Acredito que você já tenha conhecido minha esposa, Amara.

Serena — a ex-noiva. A mulher que deveria estar no meu lugar. Ela voltou para mim aqueles olhos azuis e glaciais, com um sorriso que não chegava ao rosto.

— Esposa — ela provou a palavra como se fosse amarga. — Que encantador. Diga-me, Amara, o contrato tem alguma cláusula sobre o que acontece quando ele se cansa dessa estética “de grife”? Porque o Adrian tem uma capacidade de atenção bem curta.

Senti o sangue sumir do meu rosto. Ela sabia. Ou desconfiava.

— O Adrian não se cansa de qualidade — retruquei, minha voz surpreendentemente firme. Olhei bem nos olhos dela, convocando cada migalha da arrogância dos Wolfe que eu tinha visto nas últimas quarenta e oito horas. — Mas dá para entender por que ele iria querer superar... lantejoulas.

Adrian soltou uma risada curta e seca, quase um latido. Foi a primeira vez que eu o ouvi rir, e o som me fez estremecer da nuca à espinha.

— Temos pessoas para cumprimentar, Serena — disse Adrian, com a voz cortante.

Ele me puxou para longe, mas, enquanto andávamos, se inclinou.

— Bem jogado — sussurrou.

Por um instante, não éramos um CEO e uma designer afundada em dívidas. Éramos duas pessoas entrincheiradas juntas.

Mas então ele afastou a mão assim que saímos do campo de visão da principal fileira da imprensa. O calor desapareceu. A estátua estava de volta.

— O conselho está observando da sacada — disse ele, com a voz lisa. — Vá pegar uma bebida. Tenho assuntos para tratar.

Ele se afastou, me deixando parada no meio de uma sala com milhares de pessoas, me sentindo mais sozinha do que em toda a minha vida.

Um ano. Eu só precisava sobreviver a um ano.

Eu não sabia que aquela noite seria a noite em que as primeiras rachaduras no contrato apareceriam. E definitivamente não sabia que, em poucas semanas, “Artigo 7.1” seria a menor das minhas preocupações.

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