Capítulo 1 A garota com tudo a perder
A mesa do café da manhã era uma encenação.
Sempre foi. Todas as manhãs naquela casa seguiam o mesmo roteiro não dito… Gerald na cabeceira, jornal aberto, os óculos de leitura apoiados no nariz como um acessório numa peça que ele vinha dirigindo havia onze anos.
Margaux indo e vindo entre a cozinha e a sala de jantar com passos silenciosos e cuidadosos, pousando as coisas com delicadeza, se mantendo ocupada para não ter que ocupar nenhum silêncio.
Vivienne já sentada de um jeito impecável, usando um sorriso que existia puramente como enfeite.
E eu.
Servi meu café e me sentei sem cumprimentar ninguém. Não por grosseria… por precisão. “Bom dia” naquela casa raramente era bom, e todo mundo sabia disso.
“Você está atrasada”, Gerald disse sem levantar os olhos.
“Quatro minutos.” Envolvi a caneca com as duas mãos. “Acho que a gente sobrevive.”
O movimento de Margaux na cozinha diminuiu um pouco. Era a versão dela de prender a respiração.
Gerald virou uma página do jornal. Não respondeu, e isso era de algum jeito pior do que se tivesse respondido.
Os silêncios de Gerald não eram vazios. Eram deliberados… pequenas punições exatas disfarçadas de indiferença.
Vivienne esticou o braço até a fruteira do outro lado da mesa.
“Você parece cansada, Sera.”
“Eu pareço exatamente como eu sempre pareço.”
“Foi isso que eu quis dizer.” Ela sorriu por cima da borda do copo.
Deixei passar. Comprar briga com Vivienne antes das oito da manhã era desperdício de energia que eu não tinha. Ela se alimentava de reação do jeito que a maioria das pessoas se alimentava do café da manhã, e eu tinha parado de dar essa satisfação em algum momento por volta do meu décimo nono aniversário.
Margaux veio da cozinha e colocou um prato na minha frente. A mão dela roçou meu ombro quando passou — leve, breve, o tipo de toque que queria ser mais do que era.
Eu sabia o que significava. Significava que ela me amava. Também significava que ela não ia fazer nada a respeito do que viesse a seguir.
Esse era o problema da minha mãe. O amor dela era real e a coragem dela, ausente, e de algum modo as duas coisas conseguiam existir na mesma pessoa sem que uma anulasse a outra.
“Esteja em casa até as seis hoje”, Gerald disse. Ainda sem levantar os olhos.
“Eu tenho aulas à noite às quintas.”
“Cancele.”
Pousei o garfo. “Acho que não.”
O jornal baixou. Só um pouco. Os olhos dele subiram por cima dos óculos de leitura e encontraram os meus com a paciência específica de um homem que nunca precisou levantar a voz para fazer um cômodo obedecer.
“São convidados importantes”, ele disse. “Sócios de negócios. Sua presença é obrigatória.”
“Você tem a Vivienne para jantares de negócios.”
“Eu preciso de você, especificamente.”
Alguma coisa naquelas três palavras me fez olhar para ele direito. Não pelas palavras em si, mas pelo peso que havia por baixo delas. Deliberado. Assentado. O peso de um homem que já tinha tomado uma decisão e só agora estava informando você dela.
Sustentei o olhar dele por um instante mais longo do que era confortável.
— Tudo bem — eu disse. — Seis horas.
Ele voltou para o jornal.
Eu voltei para o meu café.
Vivienne sorriu para o nada em particular, e eu fingi não perceber.
Eu devia ter insistido mais.
No instante em que atravessei a porta da frente naquela noite e ouvi as vozes vindo da sala de estar, eu soube. Vozes demais. Risadas cuidadosas demais... o tipo que as pessoas encenam quando estão tentando causar uma boa impressão em alguém que importa.
Margaux apareceu no corredor antes mesmo de eu tirar o casaco. Ela estava com aquela expressão. A que significava que alguma coisa já estava em andamento e que ela esperava que a suavidade amortecesse qualquer impacto que viesse.
— Só mantenha a mente aberta hoje — ela disse em voz baixa.
Alguma coisa se contraiu no fundo do meu estômago.
— Aberta para o quê?
Os olhos dela deslizaram para a sala de estar e voltaram.
— Gerald só quer o que é melhor para você.
Aquelas palavras nunca tinham antecedido boas notícias nesta casa.
— O que foi que ele fez? — perguntei.
Ela levou a mão ao meu braço em vez de responder.
Passei por ela e entrei na sala de estar.
Oito pessoas. Distribuídas por sofás e poltronas com a colocação cuidadosa de uma cena montada. Gerald estava perto da lareira, confortável demais.
Vivienne estava sentada no canto como um acessório decorativo... presente, mas alheia, o que significava que ela já sabia de tudo e provavelmente sabia há mais tempo do que eu.
Na poltrona central estava sentado um homem que eu nunca tinha visto antes.
Sessenta e poucos anos. Corpo pesado. Um relógio que provavelmente custava mais do que o carro da maioria das pessoas. Ele ergueu o olhar no momento em que entrei, com a atenção específica de alguém que tinha sido avisado para me esperar em particular.
Meu estômago não só se revirou. Ele gelou.
— Ah. — Gerald abriu os braços como um homem apresentando algo num leilão. — Aqui está ela. Senhores — minha enteada, Seraphine Callum.
O homem na poltrona se levantou. Estendeu a mão.
— Douglas Fitch. É um prazer finalmente conhecer você. — Ele disse como se tivéssemos história. Como se o meu nome já estivesse na boca dele antes de hoje. — Gerald fala muito bem de você.
Finalmente.
Aquela palavra ficou no meu peito como alguma coisa afiada.
Finalmente significava que conversas já tinham acontecido. Planos tinham sido feitos. Decisões tinham sido tomadas em salas para as quais eu nunca fui convidada, sobre um futuro que supostamente era meu.
Eu apertei a mão dele porque recusar na frente de oito pessoas começaria uma guerra que eu não estava pronta para terminar esta noite.
— Sr. Fitch. — Minha voz saiu uniforme. Indiferente. Eu tinha aprendido havia muito tempo que a coisa mais poderosa que eu podia fazer na presença de Gerald era me recusar a parecer abalada.
O aperto dele era forte demais. Confiante demais. O aperto de um homem que já tinha ouvido um sim.
O jantar foi duas horas de uma atuação cuidadosa.
Douglas Fitch falou sobre o próprio negócio do jeito que homens como ele sempre falavam… como se os números fossem uma personalidade.
Ele me fez perguntas embrulhadas em gentilezas. Quais são seus planos? Você gosta de viajar? Já esteve em Viena?
O que ele estava realmente perguntando era mais simples: você vai ser fácil de controlar?
Respondi a tudo com educação e não lhe dei nada de verdade. Sorri nos momentos certos. Ri quando a mesa ria. Observei Gerald me observar do outro lado da mesa, com a satisfação silenciosa de um homem cujo plano estava saindo exatamente como esperado.
Quando os convidados finalmente foram embora, Margaux desapareceu escada acima na mesma hora. Ela sempre sentia as tempestades antes de elas chegarem e nunca, nem uma única vez, escolheu ficar dentro de uma ao meu lado.
Eu esperei no corredor.
Gerald saiu da sala de estar afrouxando a gravata.
Ele olhou para mim. Eu olhei para ele.
— Douglas Fitch — eu disse.
— Um bom homem. Bem-sucedido. Estável.
— Ele é trinta anos mais velho do que eu.
— A idade se torna irrelevante quando…
— Você quer me casar com um homem que eu conheci duas horas atrás. — Mantive a voz baixa. Firme. Quanto mais baixa eu falava, mais ele ouvia, e eu precisava que ele escutasse cada palavra.
— Sem me perguntar. Sem se importar com os meus sentimentos ou com as minhas decisões. Sem nem fingir que eu tenho alguma voz na minha própria vida.
— Este é um bom partido. — O tom dele era o equivalente verbal de um dar de ombros. — Você deveria ser grata.
Grata.
Deixei aquela palavra ficar ali entre nós por um instante. Deixei que ele ouvisse como soava em voz alta.
— O espólio do seu pai exige um administrador fiduciário casado antes que os direitos plenos de gestão possam ser transferidos — ele continuou.
— Você sabe disso.
— Eu sei que VOCÊ vem administrando o espólio do MEU pai há onze anos — eu disse. — E eu sei que esse arranjo tem sido muito conveniente para você.
O maxilar dele se contraiu. Só um pouco.
— Cuidado com o seu tom.
— Eu vou cuidar do meu tom quando você começar a me tratar como uma pessoa em vez de um problema que está tentando despachar.
Nós nos encaramos.
Gerald endireitou os punhos da camisa com a calma deliberada de um homem que nunca tinha perdido o controle de uma situação sequer — e não pretendia começar agora.
— O noivado vai ser anunciado no fim do mês. Sugiro que você aceite isso.
Ele passou por mim em direção ao escritório.
— Eu não vou me casar com ele. — Minha voz o seguiu pelo corredor. Baixa. Absoluta.
Ele parou na porta do escritório. Não se virou.
— Você não tem escolha — ele disse.
A porta se fechou atrás dele.
Eu não consegui dormir.
Duas da manhã, e eu estava sentada na bancada da cozinha, no escuro, com café frio e uma mente mais barulhenta do que eu sabia como calar. A casa estava completamente quieta. Até as paredes pareciam estar prendendo a respiração.
Você não tem escolha.
Gerald vinha me dizendo variações disso desde que eu tinha doze anos. Desde o dia em que minha mãe chegou em casa com um anel novo e o sobrenome de um estranho na caixa de correio, e um olhar que dizia que ela precisava daquilo, mesmo que custasse à filha algo que ela ainda não conseguia nomear.
Apertei os dedos contra os olhos.
Tinha que existir uma saída. Sempre existe uma saída, se você estiver disposta a procurar com empenho suficiente, e eu nunca, na minha vida, tinha deixado de procurar.
Desci da bancada e atravessei o corredor escuro em direção à escada.
Foi quando eu ouvi.
A porta do escritório de Gerald não estava totalmente fechada. Uma linha fina de luz quente cortava o chão do corredor e, através dela, veio a voz dele — baixa, controlada, a voz que ele usava quando acreditava que ninguém estava ouvindo.
Eu parei de andar.
Parei de respirar.
— O noivado vai estar formalizado até o fim do mês. Assim que o jurídico processar a transferência, o espólio sai completamente do alcance dela. — Uma pausa. Alguém do outro lado da ligação respondendo. Então Gerald de novo, mais baixo e mais convicto do que eu já tinha ouvido.
— Depois que ela estiver casada, tudo o que o pai dela construiu vai pertencer à Vivienne. Esse sempre foi o plano.
O frio que atravessou meu corpo não tinha nada a ver com a temperatura.
Tudo o que meu pai construiu pertenceria a Vivienne.
Fiquei completamente imóvel naquele corredor escuro e senti algo mudar de vez dentro do meu peito. Isso nunca foi sobre arrumar um marido para mim. Era sobre concluir o que Gerald começou no dia em que colocou o nome dele ao lado do da minha mãe… apagar a filha de David Callum e entregar tudo o que o meu pai construiu a uma família que não tinha direito a nada daquilo.
A empresa do meu pai. O legado dele. O nome dele.
Tudo.
Para Vivienne.
Meus dedos se fecharam com força em torno da caneca de café.
Eu me virei e subi em silêncio.
Eu não chorei.
Gerald me queria obediente. Grata. Derrotada antes mesmo de eu começar a lutar.
Ele não me conhecia nem um pouco.
