Capítulo 3 A avó
Ela disse o próprio nome como se fosse algo que vinha carregando havia muito tempo e, por fim, tivesse decidido pousar no chão.
Odette Morrow.
Eu não reconheci. Mas o jeito como ela disse o nome do meu pai — com facilidade, com calor, como se já o tivesse pronunciado mil vezes — fez alguma coisa se deslocar no meu peito, de um jeito para o qual eu não estava preparada.
— Você conheceu meu pai — eu disse com cuidado.
— Muito bem. — Ela entrelaçou as mãos sobre a mesa com uma compostura tranquila, sem pressa.
— David e eu trabalhamos juntos por quase uma década antes de ele morrer. Primeiro, negócios. Depois, algo mais próximo de uma amizade. Do tipo que nasce quando duas pessoas passam tempo suficiente sendo honestas uma com a outra.
Eu examinei o rosto dela.
Ela não estava encenando. Essa foi a primeira coisa que aprendi a procurar nas pessoas que entravam na minha vida oferecendo coisas — os pequenos sinais que apareciam quando alguém estava construindo uma versão de si mesmo, em vez de simplesmente ser.
Uma pausa no lugar errado. Olhos que se moviam um pouco antes de a boca se mover. Aquela suavidade específica de uma resposta ensaiada.
Odette não tinha nada disso.
— Ele nunca mencionou você — eu disse.
— Não. Ele não mencionaria. David era cuidadoso ao compartimentalizar as pessoas em quem confiava. Não queria que Gerald soubesse quem eram seus verdadeiros aliados. — Uma pausa. — Essa cautela é parte do motivo de eu ainda poder estar sentada aqui e ter esta conversa com você.
O nome de Gerald na boca dela soou diferente do que eu esperava. Não como a referência de uma estranha. Como alguém nomeando um problema que conhecia havia muito tempo.
— Você sabe sobre o Gerald — eu disse.
— Seu pai me contou tudo sobre Gerald. — A voz dela se manteve uniforme. — Duas semanas antes de morrer, ele veio me procurar. Disse que tinha algo errado — ainda não conseguia provar, mas sentia. Estava tentando montar um caso. Ele me pediu para cuidar de você se algo acontecesse com ele.
Ela sustentou meu olhar com firmeza.
— Ele descreveu você com muita precisão. Corajosa, ele disse. Teimosa do melhor jeito possível. O tipo de pessoa que não para de procurar uma porta só porque as três primeiras estão trancadas.
Minha garganta apertou.
Peguei minha caneca de café só para ter o que fazer com as mãos.
— Você disse que tinha uma solução — eu disse. — Para o meu problema.
— Sim, tenho.
— Então me diga qual é.
Ela não se apressou. Deu um gole lento no chá, pousou a xícara com precisão e olhou para mim com a calma de uma mulher que pensou nesse momento por muito tempo e não tinha nenhuma pressa de desperdiçá-lo.
— Você precisa de legitimidade legal — ela disse. — Especificamente do tipo que tira do Gerald qualquer justificativa para o arranjo com Douglas Fitch e congela a capacidade dele de seguir adiante com a transferência do espólio.
— A única coisa que me dá essa legitimidade é casamento ou fazer vinte e oito anos.
— Sim.
— Eu tenho vinte e três.
— Eu sei. — Um sorriso quase imperceptível. — É por isso que estou propondo casamento.
O barulho do café continuou ao nosso redor. A máquina de café sibilou atrás do balcão. Duas mesas adiante, um homem riu de alguma coisa no celular. O mundo seguiu em frente, completamente indiferente, enquanto eu me sentava diante de uma mulher que tinha conhecido onze minutos antes e tentava processar o que ela acabara de dizer.
— Casamento — eu repeti.
— Com meu neto.
Um homem que eu nunca vi. Um estranho cujo nome eu nem sei.
— Você quer que eu me case com alguém que eu nunca conheci — eu disse.
— Eu quero que você entre em um acordo legal que proteja você de um homem que vem roubando de você há onze anos.
Ela disse isso de modo simples. Sem drama. Como se fosse a coisa mais razoável que alguém sugerira naquela semana.
— O casamento seria privado. Totalmente documentado e juridicamente vinculante, mas conhecido apenas por nós. Vocês trocariam informações de contato e seguiriam com suas vidas separadas. Nenhuma obrigação além da papelada.
Eu me recostei na cadeira e olhei para ela.
Uma parte de mim já estava rodando a lógica. Se eu estivesse legalmente casada, toda a justificativa do Gerald para o arranjo com Douglas Fitch desmoronava. A transferência do espólio que ele estava planejando exigia que eu fosse solteira — essa era a condição específica enterrada no contrato do truste.
Um casamento anterior congelaria tudo no mesmo instante e me daria tempo para montar um caso de verdade.
Era inteligente. Desconfortavelmente inteligente.
E era exatamente isso que me deixava cautelosa.
— O que seu neto ganha com isso? — perguntei.
— Essa é a história dele para contar quando decidir fazê-lo. — Ela sustentou meu olhar. — O que eu vou lhe dizer é que ele é um bom homem. Não é um homem fácil. É reservado, difícil e não tem muito interesse em deixar as pessoas se aproximarem. Mas é bom nos aspectos que realmente importam quando todo o resto é arrancado.
— Ele sabe de mim?
— Ele sabe que esse acordo existe. Ele concordou com isso.
— Ele concordou em se casar com uma estranha.
— Ele confia em mim. — Completamente. Do jeito que alguém dizia algo sobre o qual jamais tivera um único motivo para duvidar. — Estou pedindo que você faça o mesmo.
Baixei os olhos para o meu café.
A resposta sincera era que eu não tinha motivo algum para confiar nela. Ela era uma mulher que tinha surgido do nada com uma solução conveniente e o nome de um homem morto na boca.
Todo instinto sensato que eu tinha dizia para ir devagar. Confirmar. Não entregar minha vida a alguém que conheci num café numa tarde de quinta-feira.
Mas a voz de Gerald continuava correndo por baixo de tudo.
Assim que ela se casar, tudo o que o pai dela construiu vai pertencer a Vivienne. Esse sempre foi o plano.
Pensei no meu pai. No homem que Odette descrevera… cuidadoso, íntegro, alguém que construía coisas que valiam a pena proteger e confiava nas pessoas certas para ajudar a protegê-las.
Ele tinha procurado essa mulher especificamente. Entre todas as pessoas que poderia ter escolhido, ele foi até ela e pediu que cuidasse da filha dele.
Isso não era pouca coisa.
— A cerimônia — eu disse. — Quando?
Algo se assentou na expressão de Odette. Não era surpresa. Era mais uma confirmação silenciosa… a expressão de alguém que esperava essa resposta e se sentia aliviada por recebê-la.
— Daqui a dois dias. Um pequeno cartório privado. Trinta minutos no máximo. Você chega, assina e vai embora. Não haverá registro público além da documentação legal.
— E depois?
— Depois você terá respaldo legal. E Gerald terá um problema que não planejou.
Soltei um suspiro lento.
Dois dias.
Em dois dias eu poderia estar casada. Legalmente protegida. Removida da armadilha cuidadosamente construída por Gerald com um único movimento que ele não tinha previsto, porque passou onze anos presumindo que eu não tinha para onde ir.
Ele tinha calculado mal.
— Qual é o nome dele? — perguntei. — Seu neto.
Odette se levantou da cadeira com a graça sem esforço de uma pessoa que nunca precisou se apressar para nada.
Ela enfiou a mão na bolsa e colocou um pequeno cartão sobre a mesa entre nós. Um número de telefone. Nada mais.
Então olhou para mim com olhos quentes e seguros e sorriu.
— Você vai conhecê-lo no altar. — Ela sustentou meu olhar sem vacilar. — Você confia em mim, Seraphine?
O café estava silencioso ao nosso redor.
Olhei para o cartão.
Pensei no meu pai sentado diante dessa mulher onze anos atrás, pedindo que ela mantivesse uma promessa que ele rezava para que ela nunca precisasse cumprir.
Peguei o cartão.
— Estarei lá — eu disse.
Odette tocou meu ombro uma vez — breve e cálido, a pressão mais leve possível — e saiu do café sem olhar para trás.
Fiquei sentada sozinha com o cartão na mão, encarando o número de telefone.
Em dois dias eu ia me casar com um homem cujo nome eu não sabia.
Eu deveria estar apavorada.
Em vez disso, tirei o celular da bolsa e digitei uma mensagem para o número que Gerald tinha me dado da assistente de Douglas Fitch.
Não estarei disponível para nenhuma reunião esta semana, nem em semana nenhuma depois desta. Não entre em contato com este número novamente.
Enviei antes que pudesse pensar duas vezes.
Então me recostei.
Meu celular vibrou quase imediatamente. Esperei que fosse a assistente de Douglas Fitch. Uma resposta formal. Talvez o próprio Gerald tivesse encaminhado alguma resposta.
Não era nada disso.
Um número desconhecido. Um que eu não reconhecia de jeito nenhum.
Minha avó disse que você vai precisar de alguém do seu lado. Ela geralmente está certa sobre essas coisas.
Uma pausa. Então uma segunda mensagem chegou logo abaixo da primeira.
Não se atrase.
Fiquei olhando para a tela.
Ele já sabia sobre mim.
E tinha entrado em contato primeiro.
