Capítulo 5 Meu chefe é um estranho
Cheguei nove minutos mais cedo.
Não por empolgação. Por estratégia.
Entrar no escritório do homem com quem eu tinha me casado em segredo ontem, com nem que fosse trinta segundos a menos de preparação do que eu precisava, parecia exatamente o tipo de desvantagem que eu não podia me dar ao luxo de ter. Eu precisava estar instalada antes de ele chegar. Familiarizada com o espaço.
Já posicionada quando ele atravessasse a porta, para que a primeira coisa que visse não fosse uma funcionária nova procurando se firmar, mas uma mulher que já pertencia àquele lugar.
A Morrow Enterprises ocupava os quatro últimos andares de um prédio de vidro no coração do distrito financeiro. O tipo de endereço que não precisava se anunciar.
Fiquei do lado de fora tempo suficiente só para confirmar que eu não ia hesitar diante da porta e então entrei.
O saguão era só linhas limpas e eficiência silenciosa.
Piso de mármore. Conversas baixas e objetivas.
A energia particular de um local de trabalho em que as pessoas se moviam com intenção, porque ficar parado ali tinha um custo visível.
Peguei o elevador até o trigésimo segundo andar.
As portas se abriram para algo diferente do saguão. Mais silencioso. Mais calculado. Um espaço pensado para comunicar algo específico a cada pessoa que entrasse ali. Controle, sobretudo. O tipo que vinha de alguém que pensava com cuidado nos detalhes, porque detalhes eram como você mantinha uma vantagem sem nunca precisar anunciá-la.
Uma mulher na recepção se levantou quando me viu.
— Senhorita Callum?
— Sim.
— Sou a Srta. Hana. Vou deixar tudo pronto para você. — Ela já tinha uma pasta preparada: cartão de acesso ao prédio, lista interna de ramais, uma agenda impressa do dia. Explicou tudo comigo de maneira rápida e apontou para uma mesa posicionada logo do lado de fora de um conjunto de portas de vidro fosco.
— O Sr. Morrow está numa ligação até as nove e meia — disse ela. — Depois ele vai passar as instruções. Ele prefere que as coisas sejam resolvidas sem que precisem pedir duas vezes. Ele não se repete, então anote quando ele falar.
— Entendido.
— O café dele é preto. Sem açúcar. Ele não quer que levem a menos que ele peça.
— Anotado.
Ela me avaliou por um instante, com o julgamento silencioso de uma mulher que já tinha visto muita gente sentar naquela mesa e ir embora dentro de uma semana.
Seja lá o que ela encontrou na minha expressão pareceu satisfazê-la, porque ela fez um breve aceno e voltou ao trabalho.
Abri a pasta e comecei a ler.
Nove e meia veio e passou.
Às nove e quarenta e sete, as portas de vidro fosco se abriram.
Mantive os olhos na tela e deixei que ele atravessasse o ambiente primeiro. Ouvi aquele mesmo passo controlado e sem pressa da cerimônia de ontem… passos que não corriam nem pediam desculpas. Dei tempo para ele chegar à mesa antes de erguer o olhar.
Quando ergui, ele já estava me olhando.
Os mesmos olhos afiados e firmes. Diretos e completamente indecifráveis. O mesmo rosto ao lado do qual eu tinha ficado ontem enquanto um celebrante lia termos legais por cima das nossas cabeças.
Nada na expressão dele mudou.
Nada na minha também.
Ele puxou a cadeira e se sentou.
— Callum.
— Sr. Morrow.
— Minha agenda.
Não era uma pergunta. Não era um “por favor”. Duas palavras que continham uma expectativa inteira dentro delas.
Peguei a agenda impressa que a Srta. Hana tinha preparado e levei até a mesa dele. Coloquei ali.
Dei um passo para trás.
Ele leu em silêncio. A expressão não se mexeu. Virou a página. Leu a segunda folha. Pousou.
— A reunião com Henderson foi remarcada para quinta-feira. Atualize. — Ele não levantou o olhar. — A das onze com o jurídico precisa de outra sala de reunião — a que está reservada agora foi tomada pelo financeiro. Resolva.
E o arquivo Morrison na minha mesa precisa ser cruzado com o relatório trimestral de março antes daquela reunião.
— Eu cuido disso.
Ele ergueu os olhos para aquilo. Rápido — uma fração de segundo.
Como se tivesse calibrado para resistência e não soubesse o que fazer com a ausência dela.
Eu já estava voltando para a minha mesa.
Ao meio-dia, eu já tinha remarcado duas reuniões, garantido uma nova sala de conferência, cruzado o arquivo Morrison, atendido quatro ligações externas, coordenado a entrega de almoço para uma reunião do conselho no andar de baixo e redigido três e-mails para ele revisar.
Deixei os rascunhos na mesa dele sem interromper a ligação.
Ele os pegou no meio de uma frase, continuou falando e alcançou a caneta. Quando a ligação terminou, os três já estavam marcados com correções pequenas e precisas — redação mais enxuta no primeiro, uma abertura reestruturada no segundo, uma frase final mais incisiva no terceiro.
Olhei as correções quando ele me devolveu os papéis.
Estavam boas. Eu lhe daria esse crédito em particular.
“Existe algum guia de estilo?”, perguntei.
Ele ergueu os olhos da tela. “Para quê?”
“Para a sua correspondência. Você tem uma voz específica. Seria mais eficiente se eu entendesse os parâmetros desde o início, em vez de aprender por meio de correções toda vez.”
Uma pausa. Curta, mas visível — do tipo que acontecia quando algo era recebido de um jeito diferente do esperado.
“Linguagem direta”, ele disse. “Nada decorativo. Diga o que tem a dizer e pare.”
“Claro o suficiente.”
Peguei os rascunhos de volta e os revisei sem dizer mais nada.
Do outro lado do andar, percebi de relance a ponta da atenção dele voltar para mim uma vez… uma rápida reavaliação, do tipo que alguém faz quando um cálculo inicial precisa ser ajustado. Não ergui os olhos.
Só continuei trabalhando.
A tarde passou com uma rapidez surpreendente.
Os ritmos dele eram fáceis de ler quando eu prestava atenção.
Longos períodos de trabalho concentrado e ininterrupto. Nenhuma tolerância para conversa fiada. Nenhum movimento desnecessário. Quando ele falava comigo, era de forma direta e eficiente, e, quando eu igualava exatamente aquela energia, algo na postura dele se acomodava um pouco — não exatamente calor, mas o tipo particular de facilidade de uma pessoa que havia parado de se preparar para a incompetência.
Eu não estava ali para ser querida.
Eu estava ali para permanecer perto o bastante para entender o que Gerald realmente havia me colocado naquele prédio para descobrir.
Porque Gerald não fazia nada sem motivo. Me colocar ali como assistente pessoal de Zael não tinha a ver com me manter ocupada. Nunca tinha. Havia algo que ele queria com aquele arranjo, e, até eu entender o que era, precisava manter os olhos abertos e minha posição segura.
Às três e meia, afastei-me da minha mesa para atender uma ligação que eu vinha evitando desde a manhã. Fui até a extremidade mais distante do corredor, onde o andar estava silencioso, e pressionei o telefone contra a orelha.
“Você não ligou.” A voz de Odette veio imediata.
“Eu estava trabalhando.” Mantive a voz baixa. “Está tudo bem.”
“Como está sendo?”
Através das portas de vidro fosco, eu conseguia distinguir o contorno de Zael à mesa. Imóvel. Concentrado. Sem oferecer nada ao ambiente ao redor que não tivesse escolhido oferecer.
“Exatamente como você descreveu”, eu disse. “Difícil. Reservado.”
“E?”
“E nada. É profissional. É disso que precisa ser agora.”
Um breve silêncio. Então o tom dela baixou, mais cauteloso. “Seraphine. Preciso que você me escute.”
Minhas costas se endireitaram. “O que houve de errado?”
“Nada está errado. Mas você não deve contar a ninguém sobre o arranjo. Nem a um colega. Nem a um amigo. Nem à sua mãe.” Uma pausa deliberada. “Especialmente não a Zael.
Ele ainda não pode saber.”
“Odette…”
“Há coisas em movimento que exigem o timing certo. Se Zael descobrir antes que eu tenha a chance de explicar tudo a ele direito, ele não vai reagir bem. E tudo o que estamos tentando proteger estará em risco. Você me entendeu?”
Minha mão livre se achatou contra a parede.
“Por quanto tempo?”, perguntei em voz baixa.
“Não muito. Só não agora. Prometa.”
Soltei um suspiro. “Tudo bem. Eu prometo.”
“Ótimo. E, Seraphine… Gerald não colocou você naquele prédio sem um motivo. Seja o que for que ele queira com esse arranjo, não é o que ele lhe disse. Mantenha os olhos abertos.”
“Eu sei.”
“Tenha cuidado.”
A linha ficou muda.
Baixei o telefone e fiquei parada por um instante.
Organizando tudo de volta por trás da minha expressão.
Limpando meu rosto do jeito que se limpa uma superfície antes de colocar algo novo sobre ela.
Então me virei.
Zael estava parado diretamente atrás de mim.
Perto o bastante para que eu quase esbarrasse nele. Ele segurava uma pasta, e sua expressão era exatamente a de sempre. Mas os olhos dele foram do meu rosto para o telefone na minha mão e permaneceram ali por uma fração de segundo mais do que seria casual.
O corredor estava em silêncio.
Meu pulso não se mostrou. Fiz questão disso.
“Seu compromisso das três e meia chegou”, ele disse com firmeza.
“Obrigada.” Minha voz saiu estável. “Já vou.”
Ele me olhou por mais um segundo — aquele olhar calmo e avaliador que não revelava nada e absorvia tudo —, então se virou e caminhou de volta em direção ao salão principal sem dizer mais nada.
Fiquei completamente imóvel.
Há quanto tempo ele estava parado ali?
Quanto daquela ligação ele tinha ouvido?
